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O poeta Ulisses e sua gata estimada: "Quem manda em mim não fala...". |
O poeta e o
gatinho
Lá pelos últimos anos da década
de 80, ou o prenúncio da de 90, Roberta, com quem eu namorava, presenteou-me,
no aniversário, com um aquário e cerca de dez peixinhos coloridos. Ela, que
curtia cães – de preferência, cachorros grandões, como pastor, pitibul e
rotiváiler – achou que eu devia me ocupar, um pouco, dos animais.
Vá lá – pensei. Ao menos não
são animais que rasgam cortina, fazem cocô e xixi pela casa ou perturbam as
visitas. Ao contrário dos apaixonados por cães, eu dou prioridade ao ser
humano, ainda que seja um deputado ou cobrador, traficante ou polícia de
choque.
Achei bom aquilo: chegava ao
meu mínimo apartamento no Edifício Fidélis e lá estavam meus pequeninos
amiguinhos no seu eterno ofício de nada, ou melhor, de nadar. Uma vez por
semana, dava-lhes uma pitada de ração e era praticamente este o cuidado – além,
claro, de esporadicamente, limpar o aquário.
E gosto de histórias de
animais. Principalmente de cães, esses bichos que, de tão domésticos, pensam-se
gente. Acho lindo isso de cachorro pensar que é gente – mas rejeito os humanos
que acreditam que os animais são pessoas tais como nossos filhos. Acho que meu
bicho de estimação é, sim, o bicho homem, ainda que capaz de roubar do erário
ou de matar por uma pedra de crack.
Contudo, adoro histórias de
cães. São um tanto comuns as histórias de cães inteligentes, e isso me dá a
prova inequívoca da evolução das espécies. Claro que eles têm inteligência e
raciocínio; muito diferente dos nossos, mas têm! Como o gatinho – um filhote de
seus dois meses – que mexeu com os sentidos e os sentimentos do meu amigo poeta
Ulisses, o Aesse.
Ulisses, recebendo uma homenagem. |
Ulisses é desses seres
especiais – um homem que, para viver, faz poesia; e para sobreviver, trabalha
as notícias. Gosto muito de sabê-lo premiado, como se deu esta semana, pois é
um modo de agradecer a ele por ser tal como é, ainda que pelos atos de
terceiros. Sinal de que não só eu o tenho na conta de menino-grande, de
homem-poeta, pois outras pessoas veem nele o valor do sujeito especial.
Pois bem. Ulisses chegava a
um local, na noite de quinta-feira última, onde receberia um belo troféu de mérito.
E viu lá um pequenino gato – como eu disse, com cerca de dois meses, bem menininho.
Condoeu-se do olhar pidão do gato e o quis para si: “Há de ser um bom
companheirinho para a minha gata”, pensou ele, não em relação à namorada, mas
uma quadrúpede adulta de sua estimação.
Cercou o gatinho com o
cuidado que a timidez do bichano exigia; o gatinho ocultou-se atrás da roda de
um carro. Ulisses aproximou-se, ele escapou; dirigiu-se a alguns portões de residências,
todos de tal forma herméticos que não permitiam a passagem nem de baratas,
observou o poeta. O bichano foi até a esquina; voltou; quis abrigar-se junto à
roda do carro onde pouco antes se escondera. Meio assustado, desistiu e tentou
atravessar a rua.
Um carro que passava não atentou
para a preferência do pequenino pedestre. Atropelou-o violentamente. Ulisses
notou que saía sangue da pequenina boca e recolheu-o da rua, acomodando-o inerte
na calçada, junto ao muro. Alimentou a esperança de, pouco depois, vê-lo com
sinais de reanimação. Debalde! Ao retornar da solenidade, o poeta se deu conta
de que o filhote de fato morrera.
Contou-me isso sob a indisfarçável
emoção na voz. Disse-me que não escreveria sobre o caso, pois ainda lhe doía a
lembrança da cena. E eu fiquei a imaginar-lhe o sentimento e a tristeza;
escolhi contar aos leitores, pois que muito pouca gente se mostra insensível a
coisas assim.
Tocou-me, poeta Ulisses...
* * *
3 comentários:
Penso como você poeta, a respeito desse bichinhos de estimação! Quanto ao seu amigo, parabéns!
Primavera Minha...
Ulisses é uns “s” a mais...
Esse “Aesse” de sensível, sensacional , susceptível, solidário, solícito, singelo, sincero...
Ele brinca com cores e flores.
Formatos de encantos
Mostrando que é criança em esperança
Meu amor do dia...
Das sombras nada se vê
Porque a luz reluz em todos os lados
Sincero nos traços e atos
Esse é Ulisses Aesse! O meu amor...
Luciene Silva
Que pena! Uma morte que não costuma entristecer a ninguém, e acabou por emocionar muita gente.
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