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Professoras Neuza, Mara Rúbia e Maíza |
Do fundo do
peito
Neste
finzinho de mês (outubro, 2013), participei de uma festa que já se torna
tradição na Escola Municipal Alice Coutinho (Vila Morais, Goiânia). Dentre as
atrações houve avaliação de pesquisas, pelos estudantes, sobre O Homem e as
Virtudes e ainda dança, teatro e música (instrumental e canto), além de um
desfile de moda.
Uma
aluna, a poucos passos daquela célebre viradinha, sentiu a dor que lhe causavam
os sapatos de salto. Bastou-lhe um passo em falso para, num olhar expressivo
para a professora Mara, que coordenava tudo, e com uma expressão decidida
desfez-se dos sapatos e continuou seu caminhar elegante, de pés no chão, sob
aplausos dos colegas e professores e a aceitação silenciosa da diretora
Cristina.
O
olhar da linda mocinha para a professora, como quem anunciava a decisão de
continuar descalça, marcou forte em mim. Senti que ali estava uma pessoa
decidida: ela será sempre capaz de desfazer-se do que a incomoda, e veio-me à
memória a letra de um antigo samba: “Primeiro eu, depois o samba / Ela se
engana quando pensa que venceu / primeiro eu”.
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Flagrante do desfile com a modelo descalça |
Pensei:
eu teria continuado, talvez mancando... Mas que bobagem! Certa está a
menina-moça (apelido antigo para adolescente feminina) que não nasceu para as
dores; é uma pessoa determinada a contornar problemas de modo radical, sim – mas sobretudo capaz de cuidar de
si. Em minutos, visitei minha vida esticada, quero dizer, dos anos mais verdes
até agora; vi que em todo o tempo fui alvo de dois sentimentos, dominantemente,
dentre os que me cercam: amor e ódio – considerando amor também a amizade (e a
admiração) e incluindo na faixa do ódio o descaso (e a inveja).
Nunca
me surpreendi com inveja de ninguém; mas isso não é virtude em mim, é fruto da
minha exacerbada vaidade. E, a bem da verdade, de um certo conforto, também.
Ter inveja deve doer demais. Melhor alimentar os sonhos sob um critério de
avaliação sóbria, considerando as possibilidades de se chegar às metas. Em
seguida, é lutar: planejar, estudar, pesquisar, dedicar-se – ir à luta.
Nesse
ínterim (nossa! Há muitos anos não usava essa palavra; e não a ouço há
décadas!), vislumbrei momentos de dedicação e carinho de que fui alvo – essas
coisas a que chamamos de ternura, atitude de desprendimento que as pessoas de
bem costumam trocar. Saí da escola com aquelas imagens estimulando minhas
lembranças e conceitos. Gostei do auto-amor daquela menina! Que idade terá,
quatorze anos, ou quinze?
Ternura
é algo que vem dos outros; mas pode vir de dentro de nós – como demonstrou a
garota de quem falo. A gente registra as “externas” (as que recebemos e as que
oferecemos). Já tive os que me ajudaram nos estudos; os que me acolheram de
modo comprometedor. Nos ambientes de trabalho sempre recebi muito de amizade
sólida e desinteressada: pessoas que nos trazem uma boa notícia; ajudam-nos
numa promoção; indicam-nos para um treinamento; recomendam-nos.
Aquela menina fez-me lembrar de um
colega de trabalho que, para crescer profissional e financeiramente, delatava
colegas à estrutura de repressão e comparecia aos quartéis para ajudar a
torturá-los, arrancando unhas com um alicate. Morreu esquecido, ainda que
cercado de conforto material. A moça que se desfez dos sapatos deu-me uma
definição de seu futuro: ninguém lhe causará dores. Ela removerá de seus pés o
incômodo e há de se firmar por seu caráter e força de vontade – causará
encantamento com o amor que tem a si própria e, certamente, se expandirá
àqueles que estejam à sua volta.
* *
*
19 comentários:
Desfazer-se de tudo que cause desconforto é um bom caminho para amadurecer e aprimorar-se? Receio que não.
Ler esse texto foi algo muito prazeroso. Além de uma linguagem leve, faz-nos refletir sobre nossas atitudes diárias. Uma verdadeira lição de vida. Certamente muitas pessoas se identificarão com a "menina-moça". Outras, talvez, irão rever suas vidas, seus valores, seus sonhos... Vale a pena ler! Parabéns, Luiz de Aquino mais uma vez!
Ter inveja deve doer demais. Melhor alimentar os sonhos sob um critério de avaliação sóbria, considerando as possibilidades de se chegar às metas. Em seguida, é lutar: planejar, estudar, pesquisar, dedicar-se – ir à luta. Luiz de Aquino)
Luiz de Aquino meu chéri, o que mais me tocou no seu maravilhoso texto, foi sua forma de "visao" ... pura sensibilidade poética ! Aconteceu aqui quase igual. Somente que a manequim tirou os salto e continuou o desfile "carregando os sapatos" com muita elegância ! ... Pena que nao teve nenhum com "a visao" poética. Criticaram até dizendo que se ela nao "suportou o salto no tempo de um desfile" era incompetente e devia mudar de profissao ... Tudo esta nos "olhos que vêem" ... Bravo meu amigo !
Luiz de Aquino meu chéri, o que mais me tocou no seu maravilhoso texto, foi sua forma de "visao" ... pura sensibilidade poética ! Aconteceu aqui quase igual. Somente que a manequim tirou os salto e continuou o desfile "carregando os sapatos" com muita elegância ! ... Pena que nao teve nenhum com "a visao" poética. Criticaram até dizendo que se ela nao "suportou o salto no tempo de um desfile" era incompetente e devia mudar de profissao ... Tudo esta nos "olhos que vêem" ... Bravo meu amigo !
Uma linda visão, querido poeta!
Como sempre, Luiz, você me fez emocionar com seu texto, sua visão crítica e suas palavras poéticas... Obrigada por abrir nossos olhos nos mínimos detalhes da vida!
Como sempre, Luiz, você me fez emocionar com seu texto, sua visão crítica e suas palavras poéticas... Obrigada por abrir nossos olhos nos mínimos detalhes da vida!
Um simples andar descalço,o poéta escreve um belo texto,que toca nas questoês humanas mais profundas, e simpes.
É importante ressaltar o trabalho que realiza, de inestimável valor e pouco reconhecimento. Somos todos admiradores de sua ação.
há 21 horas · Curtir (desfazer) · 1
Fomos coroados com a presença do ilustre poeta Luiz de Aquino. Café Cultural com poeta, fala simples e robusta, elegância e humildade. Parabéns pelos ensinamentos e por mostrar também um pouco das suas virtudes.
Parabéns Luiz! É a AAL se fazendo presente!
Nossa que orgulho, por ser educadora e ter um poeta em nosso meio...
Parabéns meu compadre Luiz. Fico muito feliz por vê-lo brilhando sempre na área cultural....
Que maravilha, meu admirado escritor. Com certeza abrilhantou o evento.
Parabéns uma troca maravilhosa, educação e poesia.
Seu Luiz de Aquino:
Esse seu texto "Do Fundo do Peito" é mais que uma crônica - é uma exposição aos leitores
do pensamento e sentimentos de um sujeito que tem um coração no lugar certo.
Peço a bênção.
Amigo,
Você escreveu uma grande metáfora!! Tirar os sapatos que nos apertam é como extrair nossa máscara social e dispensar a fraqueza a que a sociedade nos propõe. Como diz o poema abaixo: "vida é sapato apertado", mas, creio eu que aquele que o tira em passarela pública mostra-se forte, desvinculado das opressões a que somos submetidos.
Muito reflexivas as suas palavras expostas na crônica. Fiz leitura, interpretações e discussões com os meus alunos. Tudo isso sob o olhar orgulhoso e feliz da protagonista Gabriela Jordana, a dona do feito em questão.
Que estejamos de pés e corações livres.
Um abraço carinhoso.
Vida é sapato apertado
A primeira vontade é tirar
Incomoda e dá bolha
É preciso tempo para acomodar
Vida é sapato novo
Todo novo tem seu preço
Até um entender o outro
Cada dia é um novo começo
Vida é sapato bico fino
Difícil usar com elegância
Exige esforço, experiência
E certa dose de tolerância
Por mim ficava só de chinelo
Ou descalça andando no mato
Mas, a vida cobra e exige
Que se esteja adequada ao fato
Assim, deixo meus chinelos
E exponho meus pés à dor
Torcendo para que a vida perceba
Que faço isso só por amor
Mônica Raouf El Bayeh
Meu caro Luiz, sempre leio suas crônicas, cometários e críticas. Considero - o pessoa de olhar lúcido, claro e "venenoso",no melhor e mais perfeito sentido, é claro, do comportamento e atitudes das pessoas nas mais variadas situações. O acontecimento do sapato, da jovem desfilante, lembrou-me minha filha, Flávia, que em um desfile no GREMI, deixou cair o chapéu, laboriosamente confeccionado; ela abaixou-se, não o recolocou na cabeça, mas sim o usou para saudar o público, que a ovacionou de maneira delirante. Foi um momento inesquecível, do qual toda a cidade se lembra.
Meu caro, sei que lhe devo um almoço, não esqueço de minhas promessas... mas é que questões fora de meus planos se interpuseram. Mas promessa é dívida, e ela, a promessa, será cumprida. Tenha paciência, o dia chegará.
Fico feliz em dizer-lhe que fui vencedora do Concurso da UFG, Coleção Vertentes, com um romance, "Sob o manto do rei", que será editado ainda neste ano, conforme confirmação da Universidade.
É um livro um tanto doido, o povoado de São Ranulfo é a minha Macondo, mas o bom e certo é que fui vencedora. Gostaria que você celebrasse comigo esta vitória, não em termos de ganhos materiais, mas de reconhecimento (será que mereço?), a alguém do interior, dona de casa, que por acaso escreve, e conseguiu façanha deste quilate.
Reiterando meus cumprimentos pelos belos (e úteis) artigos, despeço-me com renovados votos de admiração, pleiteado-lhe contínuos sucessos.
Abração.
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