Páginas

sexta-feira, maio 15, 2015

Educação, no lar e na escola


Educação, no lar e na escola



Por quatro dias, a fuga de um menino de 15 anos e de sua namorada (da mesma idade) – ele de Goiânia, a mocinha de Brasília – tomou conta dos noticiários. Polícia mobilizada, pai e mãe do mocinho chorando diante das câmeras, apelando ao filho que voltasse logo...

Na manhã de quinta-feira, o fujão e seus pais expuseram-se no noticiário da tevê, ao vivo. A mãe e o pai eram só alegria pelo fim da aventura em que o filho decidiu encontrar a namorada pela terceira vez (apenas) e levou consigo o carro da família. O reencontro foi de alegria e felicidade, pai e mãe chorando – mas o menino, indiferente.

O fato é emblemático. Pais, dos que se sacrificam mesmo pelos filhos e, nesse empenho, deixaram de estabelecer limites. Há tempos que o professorado brasileiro reclama das famílias, que agem como quem despeja os filhos nos portões das escolas e esperam chegar ao fim da adolescência como adultos bem educados... Pelos professores!

Não é bem assim. Cabe à família proporcionar essa faceta da Educação que equivale ao respeito que cada qual há de ter por seu próximo – e os próximos mais próximos são os pais e os irmãos, obviamente! Se o aluno chega à escola com uma boa educação de origem, pode-se apostar num adulto apto a se relacionar bem em qualquer nível. Se não...

Uma das evidências da falta de limites ficou clara no fato de o menino pegar o carro. O pai admitiu que ele dirige há alguns anos, por ser apaixonado por carros. Já o namoro teve o terceiro encontro marcado por essa fuga romanesca – e isso parece dizer que também a menina desfruta dessa liberdade precoce concedida por pais sem limites.

Uma boa educação, de casa, implica forjar o cidadão com a consciência de que existe um tempo para cada coisa – e para todas as coisas. Isso de combinarem uma fuga, ainda que com tempo marcado para durar, com o furto do carro dos pais dele e o descaso de ambos para com os pais demonstra o tipo de pessoas que estamos oferecendo ao futuro. Mas, é claro, o que vimos desses pais, mais especificamente dos pais do garoto, deixa claro que também os avós desse adolescente falharam.

E a escola? O que podemos esperar das escolas em que alunos adolescentes chegam armados, ameaçam e agridem professores e funcionários, promovem lutas corporais? Em alguns casos há, também, o apoio dos pais a essas extravagâncias – ou crimes.

Em Goiás, ao menos, sentimos que grande parte dos pais e mães desejam que o governo transfira escolas para a gestão da Polícia Militar, pois assim a disciplina funciona e os meninos se comportam. Mas também é notório que grande parte dos ex-alunos, quando adultos, rejeitam a disciplina militar e as fardas (como acontecia, também, nas gerações anteriores, com padres e freiras impondo o rigor religioso que resultou em solenes ateus, mas com boa base acadêmica e de valores morais).

A escola pública civil, hoje, é povoada, em grande parte, por meninos advindos de famílias problemáticas, com pais e mães (quando os há) sem tempo nem condições psicológicas, intelectuais e mesmo morais de promover a educação dos filhos. E são estes os que põem os dedos nos narizes dos professores, muitos deles abnegados, exigindo que “deem um jeito” nos seus monstrinhos.

O tema é inesgotável, extenso, complexo e demanda muita conversa, muita discussão. Mas algo há que se fazer, e com urgência! No noticiário do rádio, ouço que “se o Brasil oferecer hoje uma boa escola aos estudantes de 15 anos, aproximadamente, em breve terá o PIB aumentado sete vezes”.

Mas... Nem assim! Nem mesmo alegando melhores rendimentos pecuniários, provando por 2+2 ou a+b, conseguimos convencer os governos de que a Educação é o instrumento de solução de todos os nossos problemas.


* * *



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

9 comentários:

Sueli Soares, advogada e professora, ex-aluna do CPII. disse...

No final de 1969, fui emancipada por ter sido nomeada, através de concurso, para o exercício de cargo público: PROFESSORA. Já naquele tempo, achava que o exercício do magistério para as moças deveria ser obrigatório, assim como o serviço militar o era para os rapazes (coisas da minha cabeça). Exerci a profissão durante 38 anos, passando por vários níveis. Hoje, aposentada, resta-me lamentar que o abandono familiar continue evoluindo e, como consequência, causando a trágica destruição da maioria dos nossos jovens. Há muito, pais "jogam" os filhos na Escola, transferindo-lhe suas atribuições, ao invés de a ela se aliarem. Por outro lado, sabemos que ao Estado não interessa a formação da personalidade, mas sim a coisificação do ser (humano) votante. "Pátria Educadora é arremedo de "não sei o quê"!

Maria da Glória Moreira disse...

Luiz, tudo isso está na ponta da língua dos pais e professores que viram e ouviram esse melodrama em que a própria mídia se encarrega de nos
esfregar na cara. Uma boa surra de vara de marmelo ou fede gosto nos pais e nos moleques daria algum alívio. Melhor que meu conselho é ler o que escreveu. Parabéns, poeta.

Zanilda Freitas disse...

Parabéns Luiz De Aquino Alves Neto por esta crônica ! Só lamento que os pais e familiares que a deveriam ler , são exatamente os que nem sequer abrem um jornal!

Pedro Du Bois disse...

Assim, (a) a classe menos favorecida apenas quer que seus filhos cumpram o período obrigatório, para irem trabalhar e ajudar na renda familiar; (b) a classe dita média só quer que a escola imponha aos filhos o adestramento suficiente para ingressarem na faculdade; (c) os ricos mandam seus filhos estudar no exterior (mesmo que, lá, não estudem coisa alguma).

Mara Narciso disse...

Também estou convencida de que a boa educação resolve todos os problemas do país. Gostei demais da sua análise e destaco a frase "(como acontecia, também, nas gerações anteriores, com padres e freiras impondo o rigor religioso que resultou em solenes ateus, mas com boa base acadêmica e de valores morais)." Posso dizer sem modéstia, que este foi o meu caso. Nascida em família católica, estudei 9 anos em colégio de freiras (aula de religião todos os dias, missa frequente, rigor na disciplina), e de padre por três anos (muita aula de religião e nenhuma liberdade). Tornei-me cética, sem religião, e me classifico como agnóstica.Meus pais eram honestíssimos e esse bem moral recebi e passei ao meu filho, que é ateu. Família e escola educam em conjunto. Separadamente pouco se pode fazer, mas no caso, pode mais a família do que a escola.

Ivana Hermano Tormin Borges disse...

Bom dia! Aquino, Pois é, o sentimento de família acabou-se. Impera o individualismo, o ter, ter, ter e o tempo para a educação de berço se foi. O resultado é este ai, faz-se o que bem entender, pois na cabecinha deles não há consequências,pois os pais estão ai para bajular suas cabecinhas e assumir seus erros. Está tudo errado.

José Fernandes disse...

Dom Luiz De Aquino Alves Neto, parabéns pela bela crônica, que mostra o absurdo da educação familiar e da escolar nessa época em que o educando não tem limites. Grande abraço!

Amaury Menezes disse...

Quanto à sua crônica sobre educação eu gostaria de assinar como minha. Parabéns.
Parabéns também quanto à sua nova casa em Hidrolândia. No tempo da jabuticaba lembra desse amigo.
Abraço.
Amaury Menezes.

Guido Heleno disse...

Amigo Aquino:
Obrigado pelo retorno ao texto que fiz pelo aniversário centenário do meu pai, que será amanhã.
Li também seu texto, sobre o casal de namorados fujões. Realmente a questão é educacional, em suas raízes.
A alegria da família, por imaginar o pior, suaviza um problema maior.
Valeu, cara!