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sábado, julho 16, 2016

Para que não seja ausência

Não sei porque não publiquei esta crônica - ela
"adormeceu" entre os rascunhos que costumo
apagar e data de 7 de maio de 2016,
véspera do Dia das Mães... L.deA.






Para que não seja ausência


Eu escolhi não escrever uma crônica, hoje. Esta foi uma semana ruim, pesada, cheia de nuvens turvas, plúmbeas – não nos céus, o que nos alegraria muito por conter a baixa umidade atmosférica, mas no cenário político, nos horizontes econômicos e, inevitavelmente, na nossa esperança. Escolhi reproduzir uma crônica em que homenagearia a condição quase santa da mulher – isso de ser mãe. Não apenas gestar e parir, mas envolver-se, emocionar-se, aceitar a missão não só de gerar, mas de formar os novos seres.

Nas páginas do blog (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) uma foto especial entrou-me pelos olhos e sacudiu-me o peito. Sou sensível às boas lembranças – essas a que chamamos de saudade, ou seja, o lembrar sem dor, o recordar para se fazer feliz. E essa foto, escolhi-a para ilustrar esta crônica (que decidi escrever).

Padre Alcides celebrou uma missa no quintal de nossa casa, em Caldas Novas, era 22 de outubro de 1994, a data em que, 50 anos antes, meus pais se casaram ante o juiz de paz. Por razões daquele momento da história ou das circunstâncias locais, o casamento religioso não se deu. Coube, pois, ao reverendo Padre Alcides, merecedor da minha admiração especial, celebrar aquela missa em que, com propriedade, ele falou mais ou menos assim:

– Não houve um sacerdote para ungir este casamento, mas Deus o fez, ou os teria separado. Quem sou eu, pois, um humilde padre, para negar o óbvio? Deus os casou, eu apenas O referendo e celebro, neste aniversário de 50 anos.

E disse à minha mãe, Dona Lilita (nos papéis, Élia Borgese de Aquino Alves), que desse a Comunhão ao meu pai – e o gesto é claro.

Nesta sexta-feira de maio, antevéspera do Dia das Mães, viajo a outro maio, 60 anos atrás. Fazia, então, dois meses que eu chegara ao Rio de Janeiro para morar e estudar. Minha avó Inês (ou Ignez, como se escrevia nos tempos de seu registro) acordou-me cedo, no nosso sobrado histórico de Marechal Hermes:

– Levante e se arrume, vamos a Niterói!

Fomos. Era o que ela me prometera. Nesse dia, tomamos o trem até a Central do Brasil, e então a primeira novidade: um bonde – o Praça XV – e na tal Praça XV saltamos para tomar a barca – segunda novidade em tão pouco tempo!  Emocionei-me na travessia da Baía de Guanabara mas ainda conheceria o ônibus elétrico (a terceira novidade do dia). Em casa da tia-prima Iná, encontrei os primos Inazinha e Colombinho Vieira de Sousa. E foi a Inazinha, de sete anos (eu tinha 10), quem me mostrou a canção que começava assim: “Ela é a dona de tudo / ela é a rainha do lar” – e contou-me que estávamos no Dia das Mães (aqui em Goiás não sabíamos disso; ou melhor, em Caldas Novas não sabíamos que havia um Dia das Mães).

Meus pais não estão conosco. Inazinha também se foi, recentemente (17 de novembro, 2015, dois dias antes de seu aniversário) e deixou dois filhos e netos. Sentirei a falta de muitas outras mães neste domingo, dia 8 – como minha sogra e, há bem poucos dias, a Adriana, cunhada caçula. Mas não estarei triste. Aprendi, com o tempo, a aceitar a morte como a transferência da alma para o outro plano, pois a matéria é perecível, tem curta duração. Tento, pois, guardar o que pude apreender da essência de cada um dos meus queridos.



Fiquemos, então, com essa de minha mãe a oferecer a Hóstia Santa ao seu velho companheiro (à esquerda, Pe. Alcides). Para mim ficaram os livros e os acordes que recebi na infância.


*****

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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