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domingo, agosto 13, 2017

Lírios e Orquídeas

Leodegária de Jesus, na arte de Amaury Menezes


Lírios e orquídeas

Estive em Caldas Novas para contar e convidar para festejar – afinal, era 8 de agosto, o aniversário de Leodegária de Jesus, a poetisa pioneira de Goiás. Por 48 anos (1906-54) somente ela, dentre as mulheres versejadoras, publicara livros de poesia em Goiás. Nasceu na vila de Caldas Novas da Rainha (era assim que ela se referia ao vilarejo) em 1889, viveu em Jataí, Rio Verde e na Cidade de Goiás. Depois em Catalão e de lá para Minas – Araguari, Uberlândia e Belo Horizonte. Houve ainda breve passagem por Rio Claro, SP.
Com a decidida participação da bibliotecária Helena Carvalho, da presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, a musicista Stella Fleury, da secretária de Cultura Profa. Ms Gabriela Azeredo Santos e da radialista e acadêmica de Letras Naftali Gomes, pude curtir um dia em que proferi três palestras e concedi três entrevistas - ao radialista Tomatinho, ao âncora da TV Caldas Juscelino Silva e ao casal amigo Adriana Martins e Tyrone Saunders.
À mesa-redonda na Biblioteca Professor Josino Bretas compareceu o vereador Léo de Oliveira, contanto que tem pronto um projeto para instituir, a partir da Câmara Municipal, a data de 8 de Agosto como o Dia Municipal do Poeta e outras providências – com ênfase para a Comenda Leodegária de Jesus, destinada a personalidades de realce no meio cultural de Caldas Novas.
Listam-se em Caldas Novas alguns nomes expressivos da nossa história, como o do fundador Luiz Gonzaga de Menezes. Em algum momento, foi ensinado nas escolas que o tabelião Orlando Rodrigues da Cunha fora o primeiro professor da cidade – mas há aí um equívoco, pois José Antônio de Jesus, sim, pode ter sido o primeiro mestre em nossa terra.
Coroa de Lírios foi publicado em 1906
Como já narrei noutra crônica, a adolescente Leodegária produziu poemas suficientes para enfeixá-los em livro. Coroa de Lírios, o livro de estreia, foi lançado em maio de 1906, três meses antes que a autora completasse 17 anos. O libelo foi enviado a críticos literários de jornais pelo Brasil afora e assim obteve a mocinha expressiva fortuna crítica (gosto de destacar o fato de que Osório Duque Estrada, o autor do poema do nosso Hino Nacional, foi um dos que se manifestou sobre a obra).
As análises dos poetas-críticos levavam em conta a pouca idade (e, obviamente, pequena experiência) da menina poetisa. E a única restrição se fazia ao fato de que, em tempos de despertar-se o modernismo, ela escrevia na linhagem do romantismo e do parnasianismo – o que é facilmente explicável: as naturais condições da comunicação da época e a escassez das obras disponíveis mantinham as dificuldades de acesso às novas práticas.

Ganhei da profa. Darcy França Denófrio o Orquídeas, que foi publicado em 1928.

Seguiram-se anos de dificuldades para a família. A poetisa formou-se professora e aprendeu a costurar, ofícios de que se valeu para manter a família ante a invalidez do pai (uma cegueira incurável). Por isso, somente em 1928 ela voltou a publicar – foi o momento de Orquídeas.


Somente em 1954 outra poetisa goiana – Regina Lacerda, vila-boense – surgiu em livro (o próximo livro foi de Yeda Schmaltz, em 1964 e, em 1965, surgiu Cora Coralina, amiga de Leodegária desde a primeira década do Século XX).
Estive, logo pela manhã, na Escola Padrão Século XXI, e à noite, na UEG. Pouco após meu retorno ao lar, no dia seguinte, recebi de Naftali Gomes a notícia de que os vereadores Léo Oliveira e Saulo Inácio apresentaram o Projeto de Lei 130 que, uma vez aprovado pelo plenário e sancionado pelo prefeito Evandro Magal, institui-se a data de 8 de agosto como Dia Municipal do Poeta em Caldas Novas, e a Comenda Leodegária de Jesus, destinada às pessoas que se destacarem na área cultural do município.
Em breve, espero festejar esse feito com meus conterrâneos.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Um comentário:

Sueli Soares, professora e advogada. disse...

Quantas atividades gratificantes, meu poeta! Ler sobre as suas aventuras literárias enriquece meus fins de semana. Sinto-me privilegiada!