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Miguel Jorge, autor de todos os gêneros. |
Miguel Jorge, autor de todos os
Era um domingo,
1977 (acho que outubro), quando um grupo de amigos apaixonados por contos e
poemas formou-se nas imediações do BEG, na Praça do Bandeirante. Éramos Taylor
Oriente (recém chegado de Paris, onde concluíra o Mestrado), Roberto Fleury
Curado (que naquele ano estreara com o livro Cemitério de Gritos –
contos), Miguel Jorge e outros. Acho que o artista plástico Gomes de Sousa
estava nesse grupo; e havia também um jovem mal chegado à mocidade, isto é,
pouco mais que adolescente, chamado Carlos DaCruz (ele, então, já emendava
assim as partículas de seu nome e já se fazia conhecido, o DaCruz).
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L.deA., em 1977... |
A conversa era
muito, muito animada! Miguel revolucionava o meio artístico da cidade; ele
vinha de ser o Secretário Geral da UBE – a nossa União Brasileira de Escritores
em Goiás, quando o presidente era o jornalista (e poderoso empresário de
comunicação) Jaime Câmara. Os impedimentos na agenda do presidente exigiam de
Miguel muita dedicação e trabalho; ao término do mandado de “seu Jaime”, Miguel
foi eleito presidente.
A entidade dos
escritores de Goiás viveu, então, um rico período em sua existência. Miguel
Jorge, farmacêutico, advogado e licenciado em Letras, vivia, como é de sua
personalidade, tempos de muitas atividades: professor de Farmácia e de Letras,
gestor cultural e autor – nós o temos na conta de um “autor de todos os
gêneros”, considerando seu trânsito do teatro ao conto, da poesia ao romance, a
ocorrência de obras suas levadas para o cinema e até mesmo para a ópera. Na
década anterior (a de 1960), integrou o Grupo de Escritores Novos (o GEN) e foi,
por duas vezes, seu presidente. Esse grupo marca a entrada definitiva das
letras de Goiás nos tempos modernos – com um indiscutível atraso de 40 anos.
Como se não
bastasse, registro também a elevada competência de Miguel Jorge como crítico
literário e artes, com projeção – e o equivalente respeito – de que desfruta
nos maiores centros de letras e de artes do país.
O presidente da
UBE, como era de se esperar, sabia obter espaços na mídia, na época, constante
de alguns jornais impressos: Folha de Goiás, O Popular e Cinco
de Março, os principais, pela ordem cronológica de seus surgimentos. O
quadro de associados da UBE cresceu bastante, com o despontar de novos autores,
especialmente contistas e poetas. E Miguel assustou a cidade, então com cerca
de 400 mil ou 500 mil habitantes, com a realização de vários eventos. Dignos de
maiores registros estão as exposições de poemas-cartazes e a criação do Troféu
Tiokô. A palavra tiokô, da linguagem dos carajás, quer dizer “boneca”, e
Miguel recorreu à artista italiana Dina Cogolli, radicada em Goiânia, que
esculpiu a estatueta. O troféu passou a ser entregue a personalidades que se
destacassem nas artes e na comunicação em Goiás.
Quanto às
exposições de poemas-cartazes: o poeta aliava-se a um artista plástico e a
dupla oferecia seu trabalho; o poema era transcrito no cartão, com a
interpretação plástica do artista (esclareço, antes que me cobrem: não sou
adepto do “português ideológico”, ou seja, aplico aqui o masculino como
genérico).
Foi no tal domingo
do inesquecível encontro que mostrei ao Miguel uma folha datilografada e lhe
ofereci, indagando: “O que acha disto?”. O hiperativo presidente respondeu-me:
“Um belo poema”. E, ato contínuo, passou-o ao jovem pintor: “Veja aqui, DaCruz,
vocês podem fazer essa parceria” – foi o modo como ele nos inscreveu, a mim e
ao moço artista, para a exposição que aconteceria dali a poucos dias num bar da
avenida 24 de Outubro, em Campinas.
Nessa exposição,
recordo-me, o poeta Ademir Hamu também estreou em eventos da UBE; e nos dias
seguintes, Miguel nos ofereceu o formulário para que nos inscrevêssemos como
escritores filiados à entidade. Desse mesmo evento, e estou quase certo de que
sim, Ubirajara Galli também participou, posto que estreara, como Roberto
Fleury, com livro em 1977 – Roberto com contos e Galli com poemas. No comecinho
da década de 1990, Ubirajara Galli presidiu a UBE por dois períodos; hoje,
preside a Academia Goiana de Letras.
No biênio 1996-98,
sucedi Galli na presidência da UBE. Resgatei a outorga do Tiokô, interrompida
por dificuldades financeiras que inviabilizavam quase tudo na esfera cultural,
e, ao fazê-lo, tive o zelo de propor à diretoria dois contemplados: Eli
Brasiliense, então já com limitações locomotoras, pelo Conjunto da Obra; e ao
Miguel Jorge (que já fora contemplado com uma boneca carajá), mais um
troféu do mesmo feitio, e justamente por ter sido o criador do que ele
mesmo apelidou “o Oscar do cerrado”.
Conversando com a
escritora – e confreira acadêmica da AGL – Maria Helena Chein, pedi-lhe uma
referência ao Miguel. Lena (como gosto de chamá-la) foi – como bem cabe a uma
autora talentosa – suscinta e ampla, neste texto:
– Miguel
foi professor na Faculdade de Farmácia da UFG. De manhã mexia com cremes,
pomadas, remédios e, à tarde, com poesia, prosa, livros. Depois que se
aposentou, intensificou o trabalho nos vários segmentos da criatividade. Viajava
a São Paulo e ao Rio de Janeiro, pelo menos duas vezes ao ano, para assistir a
peças de teatro, ver exposições de artes plásticas e encontrar-se com
escritores. Ainda hoje, mantém-se sempre atualizado no mundo cultural.
Sim, é isso mesmo!
Somos, todos nós, os que tivemos o privilégio de conhecê-lo naqueles
primórdios, testemunhas capazes de corroborar essa descrição da nossa amada
Lena. Atrele-se a isso, ainda, as inegáveis, sempre, palavras de estímulo – e
correção, quando necessário – que Miguel proporciona aos principiantes; ou
mesmo a companheiros tradicionais, sempre que necessário.
Depois dele, e na
ordem do tempo, presidiram a UBE Aidenor Aires, Luiz Fernando Valladares,
Kleber Adorno, Brasigóis Felício, Coelho Vaz, Iuri R. Godinho, Ubirajara Galli,
eu próprio, Coelho Vaz novamente, Maria Luísa Ribeiro, Edival Lourenço e o
atual, Ademir Luiz. Acredito que estes (espero não ter pulado ninguém)
concordem com o que proponho agora ao presidente Ademir, que certamente exporá
o tema à Diretoria: acompanho os feitos de Miguel há exatas seis décadas
continuadas de atividades literárias (sei que há alguns aninhos mais, pois
estou falando do período em que o conheço) e pelo tanto que já proporcionou às
letras e às artes de Goiás, uma homenagem especial: o título de Presidente
Ad Vitam, da UBE de Goiás, ao incansável Miguel Jorge.
* * *
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* https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/miguel-jorge-autor-de-todos-os-generos-pra-toda-a-vida-503659/
(Jornal Opção, 02/07/23)
15 comentários:
Valdir Ferreira
Miguel Jorge, sem sombra de dúvidas, é um marco na cultura goiana. Incansável, caminha por todas vertentes das artes (contos, romances, poemas, teatro, cinema, crítico de artes etc.). Autor da 1ª ópera genuinamente goiana, e em breve nos brinda com sua 2ª ópera, "ANA PEDRO".
Parabéns, amigo Luiz de Aquino, por sua sugestão de *Presidente Ad Vitam*, Miguel Jorge é merecedor dessa homenagem por tudo que fez e faz em prol da cultura.
Essa crônica, por sinal muito bem escrita, é de grande relevância porque estamos necessitando de pessoas da grandeza de Miguel Jorge nos dias atuais. Vivemos em tempo onde tudo é superficial, descartável e efêmero. Somente a cultura tem ainda a magia de mudar a dinâmica da aventura humana na Terra. Parabéns, Luiz.
Boa tarde! Merecido reconhecimento 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
Ótima sugestão. Miguel merece.
Está aí um texto que já é parte da história cultural de Goiás. Traz à nossa memória fatos relevantes, que ficam registrados para as novas gerações.
Parabéns, Aquino, pela prospecção do belo texto memorial que visita importantes fazeres da trajetória realizadora do Miguel. Gestor, produtor, protagonista de preciosos bens culturais, generoso acolhedor de iniciantes literários, nos recebeu na Ube, oportunizando nossos primeiros intentos públicos de manifestações poéticas. Curiosamente, nos dois, vivemos a inimaginável responsabilidade ao sucedê-lo no exercício presidencial da Ube. Sim, Miguel é merecedor de todas as honrarias. O dinâmico condutor da nossa Entidade, Ademir Luiz, com certeza, materializará sua feliz sugestão, honorificando Miguel como Presidente Ad Vitam da Ube-GO.
Perfeito faço coro com vocês Miguel é um orgulho para todos nós
Parabéns Aquino, registro de boas memórias literárias. Importante grupo e excelente resgate. Miguel merece cada linha de bons elogios. Joga nas 11 e ainda atua como técnico.
Miguel merece, e como merece, ser lido! Escritor de tempo integral, de todos os gêneros! 👏👏Bravo, Luiz!
Lu, excelente seu texto sobre Miguel Jorge e a caminhada do autor no universo incrível das palavras, que ele tão bem conhece, para vivê-las com a mente e o coração! Você viu, ouviu e sentiu os voos do poeta e escritor, daí a importância de sua bela crônica: lírica e real.
Parabéns Luiz de Aquino. O Miguel merece ser lembrado pela sua grande produtividade.
Parabéns querido escritor e jornalista, Luiz de Aquino, pela excelente relevância usada na descrição da tragetória vivida por nosso querido, Miguel Jorge. Ele merece sim, o título de Presidente Ad Vitam, da UBE-GO. Parabéns aos dois!
Maravilha de crônica! Rica em informação e gostosa de ler. Viva Luiz e Jorge!!!
Muito bom, mestre Luiz. Que a ideia seja levada adiante.
ERRATA:
Na quinta linha do segundo parágrafo, onde se lê "mandado de "seu Jaime" ", leia-se "mandato de "seu Jaime".
PERDOEM-ME PELO LAPSO! (E muito obrigado, querida Tânia Rocha, por indicar-me o erro).
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