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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Cavalhadas com as raças certas


Cavalhadas com as raças certas


Vem aí o carnaval, que dizem ser a maior festa brasileira. Aliás, vem aí o Ano-Novo tupiniquim, porque, dizem também, o ano, no Brasil, só começa ao meio-dia da quarta-feira de Cinzas. Curioso é sabermos que, nas capitais nacionais da Festa de Momo (que já foi tríduo; hoje, é decanato), como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e outras menos referidas, trabalha-se o ano inteiro para que aconteça a grande e expressiva festa pagã. Pagã, mas de inspiração católica, porque tem data variável, conforme o calendário canônico.

Pois bem: menos de três meses após o carnaval, com a Semana Santa bem ao meio, acontece a festa do Divino Espírito Santo em Pirenópolis. Essa festa, embora de inspiração cristã, tem também seu lado profano. E o ponto alto está nas cavalhadas, que vêm a ser a encenação, a céu aberto, da batalha travada pelo rei Carlos Magno, no Século VIII, contra os mouros que, ao longo de oito séculos ocuparam a Península Ibérica. Carlos Magno tinha por objetivo expandir o cristianismo e o Império Romano do Ocidente.

Segundo a História, os mouros impuseram amarga derrota ao rei dos Francos, matando seu sobrinho Rolando e a guarda conhecida como Os Doze Pares de França. Mas a literatura fez de Rolando herói e, cerca de 500 anos depois, Portugal (que, à época não existia como Estado) passou a encenar, com sabor de vitória, aquele feito. Assim, exaltava um herói, consolidava o cristianismo e estimulava o ódio aos mouros.

Mas o que me ocupa, aqui, é o fato de que, ainda que o carnaval seja o marco nas nossas “calendas”, o “carnaval” de Pirenópolis, quero dizer, as cavalhadas, também são preocupação do ano inteiro. Duas dúzias de cavaleiros, divididos entre “mouros” e “cristãos”, ensaiam, preparam seus cavalos e suas “vestimentas” (não, Sônia: não é fantasia, mas vestimenta) e os arreios e ornamentos dos cavalos.

Mas alguma coisa me incomoda: se o que se encena é uma batalha campal, de cavalarias, entre árabes e europeus da península Ibérica, porque usam cavalos quarto de milha se no Brasil, e muito especialmente na própria região (Pirenópolis e Anápolis) há cavalos das raças andaluz e árabe? Certamente, mouros montariam cavalos árabes e cristãos, andaluzes.

Perambulei na Internet e achei, devidamente inseridos em páginas de haras específicos, vários dados sobre ambas as raças. Do andaluz, dizem ser o mais antigo dentre os cavalos de sela que se conhecem, pois o homem o domesticou há cerca de cinco mil anos (fala-se em quatro mil anos, também). Daí afirmarem, também, ser o cavalo o “primeiro amigo do homem” (antes do cão). Estátuas e desenhos antigos mostram o cavalo andaluz como o preferido do homem ibérico. Em Pirenópolis, há um haras que se dedica à cria dessa raça.

Quanto ao cavalo árabe, assim chamado por ser o que melhor se adaptou à dura realidade dos desertos, servindo a contento aos beduínos, mas coube a Maomé domá-los e deles fazer uso doméstico e em campanhas bélicas. Mais tarde, Napoleão viria a ser o segundo “arabista” do mundo. E consta que, ao proclamar a Independência, Dom Pedro I montava um corcel árabe. Em Anápolis há pelo menos um haras de cavalos árabes.

Fica, pois, em mim, essa dúvida, que gostaria de ver esclarecida pelos cavaleiros hábeis dos dois exércitos: por que os mouros vermelhos não montam cavalos árabes, e os azuis cristãos não selecionam cavalos andaluzes? A arte, imitação da vida, pode bem continuar sendo arte. Mas ambas as raças merecem realce, por suas qualidades e pelo rigor histórico.

4 comentários:

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, seu texto histórico me levou às lembranças da terra da vovó, Andaluzia...E me fez refletir no esquilíbrio ying & yang (vermelho e azul). É muito bom ler você! Beijos.

Marluci Costa disse...

Querido Luiz, quando menos se espera lá vem você mais uma vez nos surpreendendo.
Agora com essa crônica que nos dá um banho de história. Excelente forma de contar mais um pouco sobre o nosso Brasil, com texto rico e costurado de uma forma gostosa de se ler.

Mas ficou-me uma curiosidade: por que essa batalha é lembrada em Pirenópolis? Há alguma dominação árabe nessa região ou será apenas para mostrar mais uma vitória do cristianismo?

Conta mais um pouco, vai ...!!!!

Marluci

maris stella disse...

Oi,Luiz
Gosto da forma atraente e criativa utilizada por você quando a proposta é descrever, informar , valorizar.
Específicamente neste tema,grande parte é novidade e também atende ao interesse, dos que são de outras regiões do país.
Ler você é aprender,com certeza, um pouco mais.
Um beijo!

Anônimo disse...

Boa tarde poeta!
Luiz, você mais uma vez com uma surpresa, e que grata e bela
surpresa.
Adorei,
jamais me interessei por cavalos, mesmo sendo um dos animais que
acho mais bonito.Mas, depois de ler sua crônica fui pesquisar também, e fiquei encantada com a
história de origem e criação de cada raça, e com as belíssimas esculturas que encontrei e tive o prazer de aprecia-las.
Não sou amazôna, mas pelo que entendí o Quarto de Milha já era
treinado na Ámerica, e foi um dos primeiros cavalos montados pelos peões ,e que depois do trabalho, eram levados para pequenas batalhas de lazer (402 milhas), daí o porque do nome: Quarto de Milha. Ah,poeta, deixe isso de raças e uso de Andaluz, Árabe, Quarto de Milha pra os cavaleiros explicarem, afinal, eles é que entendem e devem explicar,você e nós , queremos é saber o porque disso, né?
Quanto ao ano novo você está corretíssimo, 2006 foi embora há muitos dias, mas o 2007 só começará no Brasil depois do carnaval. Que pena.No entanto , já que nada podemos fazer contra o nosso calendário "Tupyniquimomo", que tal sairmos na escola "Cai... cai", ou talvez fazermos um passeio turístico pelas agências de turismo:"Vai...Vai... no seu",ou na "Vai..vai...no nosso" Rs,rs.rs!
Luiz, parabéns pela riqueza literária, e obrigada pelo banho de cultura.
Beijos,
Lêida.