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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Invasão à dor de outrem


Invasão à dor de outrem


A comoção é a tônica do Brasil, agora. A barbárie no Rio de Janeiro, o assassinato do menino João Hélio Fernandes ganhou, de pessoas do povo, entrevistadas nas tevês, comparações com as práticas da Roma Antiga e da conquista do Oeste dos Estados Unidos.

A insanidade humana não tem limites, ela é do tamanho da própria ignorância. Nem mesmo a religiosidade tem poder, diante da bestialidade racional dos que, parece, já nascem predestinados a serem ferramentas do mal: pelo menos dois dos assassinos tiveram educação religiosa. Nada demais: a Igreja Católica Romana cometeu crimes de igual envergadura. Ainda dói nas nossas memórias o que faziam os rapazes da TFP (protegidos por um segmento da Igreja); e o braço-mãe da TFP, pelo que se diz à boca miúda em alguns segmentos políticos nacionais, tentou eleger o presidente do Brasil, no ano passado.

E nós, espécimes do “bicho sapiens”, falamos de leis e práticas penais. Somos, nós, individualmente, exemplos de virtudes? Exemplos, para mim, agora, são os jovens mãe e pai de João Hélio. Na entrevista a Fátima Bernardes, aprendi com eles que nem mesmo a dor da perda de um filho (diante dos próprios olhos, com toda a crueldade jamais imaginada e tendo por parceira na dor a filha adolescente) foi capaz de induzir aquela mãe a um clamor por vingança. Rosa Cristina Fernandes só pede Justiça! E o pai, Hélcio, também.

A dor não tem idade: a carta de Aline, a irmã de João Hélio (ela a chama “o meu bebê”), nos ensina. Aline também não prega vingança nem crueldade contra o “homem de dezesseis anos” que matou João. Aline só quer Justiça.

À imprensa compete não deixar o país esquecer. A Sociedade quer Justiça, mas não a justiça minúscula que deixa adormecer nas estantes processos como o da morte de Reginaldo Cunha Rispoli, há exatos oito anos, em Caldas Novas. E este é apenas um símbolo entre milhares em todo o país (Reginaldo fez 52 anos no dia 14 e foi morto por onze balas de dois pistoleiros no dia 22, era fevereiro de 1999; um dos pistoleiros é sargento da PM do Distrito Federal).

Aprendi que há jornalistas com conteúdo, como Fátima Bernardes. Ela definiu a entrevista: “Ao entrar naquele apartamento, senti-me invasora da dor alheia”. Sei como é isso, o quanto dói no repórter estar diante de uma dor que pode vir a ser sua. Mas, na mão contrária da de Fátima, há pessoas que difundem bandeiras anacrônicas, como pena de morte, vingança em vez de Justiça, legitimidade na ação de milícias e outras mesquinharias.

A gente tem sempre muito ainda a aprender. E é preciso aprender que, quando o povo não ocupa as praças (como conclamava Castro Alves), quando os estudantes não tomam as ruas (como o fazíamos até durante a ditadura militar), quando a população prefere ser disciplinadamente omissa, dá vez aos bandidos. Campo que não dá chance à flor, dá vez às ervas daninhas.

Enquanto isso, os políticos... Ah, o Congresso! O Congresso Nacional agita-se logo após um crime que causa comoção, mas adormece em seguida e dá prioridade a coisas menores, como a sucessão de suas mesas diretoras. É indispensável que o deputado Fernando Gabeira, um dos mais lúcidos, leia a carta de Aline, com ênfase para o apelo que a menina faz “ao presidente ou aos políticos”, no sentido de providência que coíbam crimes assim. Aline entende que a omissão é de quem “ou não têm filhos ou não têm alma”.

A carapuça é nossa, também. Cobremos do Congresso e da Justiça.

8 comentários:

Anônimo disse...

Poeta, não sei se lhe falo da teimosa lágrima que rola pelo sentimento omissão e impotência ou se somente parabenizo você pela maneira que tocou em nossa ferida. O importante é que pessoas como você ainda nos mostram que merecemos um pouco de crédito e quem sabe ainda iremos melhorar o nosso Brasil?
Lindo e verdadeiro.

Bjos.

Mel

Mel disse...

Muito bem escrito poeta! Uma teimosa lágrima de omissão e impotência está rolando no eu rosto.
Pessoas como você, mostram que ainda vale confiar na humanidade.

Bjo

Mel

annaeli2 disse...

Acho que estamos cercados.
Cercados de criaturas que tiveram poucas chances na vida, nenhuma oportunidade, nem família.estamos ceracdos, sim.Mas muitas dessas criaturas cobram de nós essa falta.São esses que não nos dão chance nenhuma, como não deram à mãe do João.O menino não tinha nenhuma importância para eles, assim como a vida que eles levam...nada disso tem importância.E agora os vemos protegidos pelas leis desse país, entrando e saindo da delegacia, longe do povo, que é claro, gostaria de fazer a "justiça com as próprias mãos".Havia um menor no bando...menor em quê?Na hora em que nos enfrentam e nos intimidam, a violência que usam não tem dimensão!E no final das contas, sabemos todos que esses menores ficarão no "parque de diversões" por 3 aninhos, mais ou menos.Qto aos maiores, as leis tb protegem seus atos...dependendo de como se comportarem na prisão, sairão de lá pra visitar a família em dia de Natal, ou no dia das Mães.Cercados estamos, por eles e por leis...será que não vamos conseguir fazer nada?

primavera disse...

Pelas ruas eu me sinto arrastada também. Dói-me tanto, entretanto,
que do cinto, muito em breve, não se lembre mais ninguém.

Eliane disse...

É meu amigo, como é triste ver q a dor aflora no peito de pessoas do bem. Como é triste saber que nossos irmão incorporam o capeta e cometem atos monstros como este. Como é triste sabermos disso tudo e que a impunidade permanece. Está na hora de pararmos de lamentar essas ações e agirmos para detê-las. Bjão, com saudades...ateh...

Lenita disse...

Caro poeta.
Ainda me comovo e sei que vou me comover muitas vezes a cadea episódio como o de Jão Hélio. Sua crônica diz tudo.
Quero apenas acrescentar que se pessoas com 16 anos têm discernimento (??) para eleger o nossos governantes têm também para saber o que é errado e poder arcar com as consequências de seus atos errados.
Esses monstros, na verdade, são criadso por uma conjugação de fatores que devem ser atacados todos, mas se vê que falta vontade política e por isso ouvimos o presidente da República dizer que reduzir a maioridade penal não adianta assim ocmo não adianta endurecer as leis para os maiores que os usam para a prática de crimes. É que o Governo teria de investir alto em educação, socialização desses bandidos já escolados nas escolas do crime e falta vontade política para isso.
Assim, vamos ver muita smães ainda chorando a perda de seus filhos até que a hipocrisia seja vencida pela sociedade que deixar de ser omissa.
Abração

Wilza disse...

Como sempre você escreve lindamente e com muita propriedade. Uma amiga me enviou essa sua mensagem talvez como se eu não lhe conhecesse, não soubesse do grande escritor que você é, e fiquei muito feliz por saber que era um texto escrito por você, pessoa por quem tenho tanto carinho. Esse assunto foi mesmo muito dolorido para cada um de nós e consigo ver também pelo outro lado. Tão difícil quanto o lado da família do João, é o do pai que entregou o filho assassino porque não suportou ver o nível de degradação a que o filho chegou. Não sei qual é mais difícil ser: pai do que morreu ou pai de um filho vivo em tão deplorável estado de crueldade íntima. Acho que a pergunta clássica "onde foi que eu errei?" deve pairar o tempo todo sobre a mente desse pai, além da dificílima decisão dele em entregar seu próprio filho. Todos os dois lados são dignos de reflexões.
Um grande e saudoso abraço
de sua amiga de sempre
Wilza

marilda confortin disse...

Continue usando sua pena (ou teclado) para documentar a história e lutar pela justiça, Luiz.
Beijão
Marilda