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domingo, março 04, 2007

De valores e estilos


De valores e estilos



Nos meus tempos de faculdade, ou seja, na década de 1970, arrepiei-me ao ler num quadro-negro a palavra “recurço”. Pensei ser descuido, mas não; duas linhas abaixo, o professor a repetiu, com o mesmo Ç escandaloso. O mestre, diante de vinte ou trinta alunas, foi gentil: “Se gosta do nosso tema, por favor, entre”. Tentando não ser mal-educado, adverti-o, falando baixo, sobre a grafia correta. A aluna sentada junto à porta ouviu e me repreendeu: “Mas isso (sic) aqui não é aula de Português e nóis (sic) não quer (sic) ser professora (sic)”.

Foi o bastante. Saí, envergonhado. Envergonhado por eles. O homem de jaleco branco no tablado era médico, devidamente chamado de doutor pelas alunas deslumbradas. Só que ninguém ali se interessava pela língua, mas pelo conteúdo científico (?) que o doutor lhes passava.

Entendo que qualquer indivíduo que consiga aprender sua língua e os rudimentos da matemática básica será capaz de aprender qualquer coisa. Sempre refutei a assertiva de que alguém “vai mal na matéria porque não consegue desenvolver esse tipo de raciocínio”. Ora, gente! Como é que alguém assiste novelas, entende tramas e tece considerações vem dizer-se incapaz de aprender História ou Geografia? É pura questão de preguiça mental. É nos estudos que se tem o caminho da sobrevivência e da melhoria da qualidade de vida.

Semana passada, falei de gente famosa que fala errado. E não se trata só de falar errado no estrito rigor gramatical, mas que demonstram não dominar 10% do que se pede a um vestibulando em termos de conhecimentos gerais. A nação é rica de casos pobres: são atletas de salários milionários falando bobagens incompatíveis com o seu sucesso; são locutores (esportivos, na maioria) mudando a regência dos verbos, a dizer que “o Flamengo perdeu DO Madureira”; alegam que quando falam de ganhar, dizem “ganhou do”, e então querem a mesma regência para outro verbo. Pergunto-lhes: E quando se trata do verbo vencer, hem? Vão dizer “venceu DO”?

É um argumento tão falso quando o dos paulistanos teimando em dizer que a letra E tem som fechado. Eles nos perguntam: “Tem acento?” (alias, perguntam: “Tem acêinto?”). Não, não tem. Tal como os nomes das letras L e S não têm acento e se pronunciam com som aberto. Ou os paulistanos querem dizer “Letra ele” ou ainda “Letra esse”? Mas os piores casos, para mim, cometidos por eles quanto às pronúncias é dizerem “éstra” em vez de extra, “contróle” em lugar de controle e “às avêissas” em vez de “às avessas” (que tem som aberto), além de “pôças” no lugar de poças (aberto). Dia desses, deixei de comprar um cedê de músicas antigas porque o cantor, moderno e goiano, cantou “Na rua há uma pôça d’água”. Dava-me a impressão de que ele cantou “pouça”.

Uma amiga contou-me que estava prestes a embarcar nos galanteios de um don-juan de Internet, até que ele escreveu: “Estou ancioso”. Esse C foi a gota... Tal como meu amigo Marcelinho Pão e Vinho, delegado de uma pequena e pacata cidade do interior. Uma moça, num restaurante chique da capital, muito bonita, bem vestida mas que não inspirava muita confiança quanto à inteligência, “dava em cima” do meu amigo, autoridade dura. Mas às tantas, a moça contou que seu irmão, casado há cinco anos, “véve” bem com a esposa.

Perdeu.

7 comentários:

Madalena Barranco disse...

Puxa, Luiz, eu já vivi situações parecidas... Onde as pessoas se incomodam se lhes corrigimos a grafia, mesmo que discretamente, alegando que o importante é o conteúdo e que de fato não é uma aula de português... Beijos.

Lenita disse...

oi,Luiz, boa noite..
Dando sequência a essa sua série sobre a língua portuguesa que tal comentar, sempre com sua competência - sobre aquela "novidade" horrorosa dos repórteres de mudarem o assento das palavras ??
Abração
Lenita

Sandra Falcone disse...

Luiz

(mesmo com os vícios de linguagem paulistanos) penso que estas abordagens sempre enriquecem e vão "de" encontro (rs). Seria interessante vc abordar a diferença entre e vícios de linguagem e erros de português.

Eita!

Sandra

Andréa Augusto - angelblue83 disse...

AnCioso é até relativamente comum, LUiz. Tenho amigos formados que vievem escrevendo assim. Agora absurdos mesmo, vc encontra em fóruns de informática com o pessoal de tecnológica. Meu Deus, tem cada coisa tão impossível que preciso ler alto para entender o que a pessoa quis escrever. Uma coisa! ;)

bjimm querido
Andrea (angelblue83)

Anônimo disse...

Oí, poeta, boa tarde!
Luiz, adorei essa sequência
sobra sobre a língua portugesa.
Infelizmente, não domino a nossa língua, mas, consigo perceber se
está escrito corretamente e adoro ouvir pessoas que falam de maneira
certa.
Lí seu artigo em voz alta para a minha netinha, e juntas demos boas gargalhadas. Eu ria de Anna Luísa
que falava: "Vovó,lê de novo"!Uaí, vovó, essa moça não quer ser inteligente não"?Isso depois que lhe expliquei como a moça deveria ter falado,rs,rs,rs!E para meu deleite ela aínda me perguntou: "Mas, vovó, ela gosta de ser burra"?
Luiz, parabéns!
Continue, está sendo ótimo!
Beijo.
Leida Gomes(Lêida),risossssssss !!

Anônimo disse...

Caro poeta, Luia de Aquino, boa noite!!
Poeta, para Jesus nun eziste o impoçiveu? Mas craro que eziste.
Falo cun ele mas nun tem "recurço", todo veiz que leio
ocê ficu rripiada,mas nun deve de sê só eu, todas nóis gosta do qui ocê iscrevi, i muntas de nóis aqui num que ser "poetiza", só queremu ler ocê.Nu meu caso num oió novelas,mas a "jente" ficamu dislumbrada cum suas "crôinicas", "testos", i poisia, só que em meu caso amo história e geografia, mas... também a "jente" "véve" pra lermos as suas crônicas, textos, contos e poesias.Rs, rs, rs, rs, rs!!!!!
Poeta, você está mais do que certo, os meios de comunicações e grande parte dos educadores de hoje
são péssimos, seus ouvintes, telespectadores e alunos muito piores. O ensino no país acabou, os jovens chegam ao vestibular, se formam e não sabem escrever nem um bilhete, é o caos, não sabemos onde vai dar tanta incompetência. Coisa boa não vai dar, pois todos nós sabemos que é por meio da ecucação e cultura que uma nação se desenvolve e melhora a condição de vida da sua população.
A internet em vez de melhorar o nível intelectual dos jovens piorou e muito, fico horrorizada com o que meus sobrinhos universitários escrevem,dizem eles, que na net, pode e deve escrever errado, que é livre.Livre, coisa nenhuma, escrevem errado por pura preguiça e porque não sabem escrever certo mesmo.Ahh, poeta, desde 64 que que o ensino no país só tem deteriorado, tenho saudades do tempo dos Estudos Sociais(historia, geografia), saudades dos questionários com centenas de perguntas, do exame de Admissão, esse exame era um verdadeiro vestibular, quem passou por ele para entrar no antigo ginásio ou científico, sabiam e sabem mais do que os professores e bachareis de hoje.Salvo algumas excessões.
Quando você fala de pessoas famosas, tais como: Jogadores de futebol com salários milionários, apresentaderes de televisão, atores e radialistas falando errado, fico imaginando, será que não está aí a raíz do problema? Hoje a grande maioria dos jovens não querem estudar, ouve uma inversão de valores, eles querem é ser, jogadores, atores, apresentadores ou locutores, que ganham fábulas de dinheiro sem precisarem de estudos."Viche", poeta, tenho pena de nosso páis com essa grande massa de analfabetos ou semi alfabetizados.
Quanto aos paulistas e cariocas com seus "Ele" e "esse", não penso que seja regionalismo ou vícios de linguagem,falam assim porque devem
achar que é mais chique,e diferente dos demais povos do Brasil, rs, rs, rs, rs!
Bem, poeta, você está no caminho(tema) certo, você sabe muito, por isso, siga enfrente e "chumbo grosso" pra cima desses estupradores da língua portuguesa.
Parabéns e sucesso sempre!
Beijo,
Ana Guerreiro Carvalho.

PS:
Me desculpe pelas vezes que atropelei o vernáculo.

Analfabeta digital (afinal, como quase todos nós) disse...

Eu gosto muito do poema do Oswald de Andrade "Erro de Português".
Mas indico uma leitura mais sofisticada para alimentar esse debate repletos de discursos tão competentes, no sentido que Marilena Chauí deu à expressão "discurso competente".
O livro é Vídia e Óbria de Seu Creison. Não sei o que dizer mas minha mãe muito amada usa sempre o verbo na conjugação abominada pelos seletos comentadores: "nóis véve". Indico, com certeza, a leitura do grande mestre Margos Bagno, que desafia os vigias do uso do bom português. Isso tudo é muito importante, mas pensando nas relaçãoes que conhecemos sobre escrita, língua e poder, temos que estar vigilantes com relaçãos aos nossos atos que alimentam a hierarquização dos usos da palavra. A língua portuguesa, corretamente usada, serviu e ainda serve para a criação, divulgação e uso dos estereótipos.
Foucault é outro que ajudaria a nós todos.
Um abraço