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quinta-feira, março 22, 2007

Vida, poesia e... Vida!



Vida, poesia e... Vida!



Minha amiga querida, a professora Conceição Matos, carioca goianizada, intimou-me para um encontro com seus alunos da Escola Municipal Pedro Ciríaco de Oliveira. Seria no 14 de Março, natalício de Castro Alves, dia consagrado à Poesia Nacional; sabiamente, adiaram o encontro para 21 de Março, começo de Primavera no Hemisfério Norte, que a Unesco elegeu Dia da Poesia Internacional.

A escola, na Vila Concórdia, surgiu da teimosia de um cidadão analfabeto, mas consciente, e seu nome batiza o educandário. População adventícia e humilde, à época da ocupação, invadiu para fixar-se; e Pedro Ciríaco (conta a diretora, Marineze Santana) escolheu um terreno triangular, bico de quadra, onde construiu em pau a pique o colégio que, em 1986, o prefeito Daniel Antônio construiu com pré-moldados, “em caráter provisório”. E o provisório perdura.

Mas o descaso que, sucessivamente, os prefeitos destes 21 anos oferecem à Vila Concórdia não esmorece a alegria dos estudantes. Ziraldo me disse, há dois anos: “Nessa idade, atualmente, não há como serem feios”, qualificando a adolescência contemporânea (contrária às que antecedem os jovens atuais). Aqueles meninos têm olhar seguro e sorriso franco; não reivindicam melhorias para a escola porque não conhecem outras, mais adequadas (a propósito: o que fizeram dos eventos esportivos e culturais que facilitavam aos estudantes conhecerem outros estabelecimentos? Esse isolamento é lixo autoritário).

Falei de poesia como o mais fino ornato da fala e tempero da vida; falei de amor, e a platéia (detesto “galera”; parece menosprezo) queria ouvir de erotismo, e atendi para mostrar que a flor dos bichos é o sexo, tal como o sexo das plantas é a flor; e que não há pecado no sexo se houver respeito das duas partes.

Ouvi dos alunos falas e poemas; falei ditos de Bandeira, Pessoa e Vinícius. A professora Lindalva chamou Jacson (sem K; gostei! Afinal, o som nacional não precisa de letras exóticas como K, W e Y), de onze anos, poeta; ele declamou para eu ouvir e fiquei encantando com sua técnica de cadência e de som; presenteei-o com um exemplar do meu “Sarau” e ele, falastrão como qualquer bom poeta, contou aos amigos. Vai daí, sofri um assédio de pedidos, a começar de Luís Felipe; recomendei-lhe discrição e levei-o até o carro, para presenteá-lo; mas a ação foi percebida e, em pouco, mais de vinte nos cercavam. Distribuí uns poucos livros e prometi voltar, caso me chamem.

Noite-madrugada, 22, primeiros minutos, chega imeio do poeta Ademir Bacca, de Bento Gonçalves (RS). Ele é o organizador do congresso brasileiro de poesia e editor do Garatuja (jornal literário); recebe muitos pedidos de doação de livros, de bibliotecas em formação. Mas uma carta, recebida justo nesse 21 de março, emocionou-o:

“Meu nome é Edilaine da Rosa Silva, tenho 11 anos e estudo no Colégio Julia Wanderley. Adoro ler, porém na minha escola há poucos livros. Estou participando do projeto "Descubra um Escritor", da professora Marly. Adoraria receber um livro seu, pois até agora, todos os escritores para quem escrevi, nenhum me mandou livros. Quero te divulgar aqui na escola, mas para isso preciso de revistas, fotos, jornais, livros, etc. Vou ficar aqui ansiosa para receber sua resposta. Beijos, Edilaine”.

Ademir arremata: “Numa época em que tanto se batalha pela formação de novos leitores, espero que vocês se sensibilizem e mandem seus livros para esta leitora em potencial”.

O endereço dela: EDILAINE DA ROSA SILVA. Rua José Cândido Filho, 186. JABOTI – PR. CEP 84930-000.

Assino ao lado de Ademir Bacca.

5 comentários:

lili - RJ disse...

Meu amigo Luiz!
Imagine quantas meninas destas existem por nosso país afora!

Que maravilha vc poder ter podido doar poesias e poemas!!
Isto é demais, qdo só se vê violências!!!!

Eu gostaria até de ajudar, mas tenho muitas dificuldades para poder enviar para tão longe e em segurança qualquer coisa!

Mas amei sua crônica, é bom saber que ainda existe esta turminha que já ama os livros !

Um beijo grande!

Anônimo disse...

A pena quando afiada, demonstra renovação no espírito do poeta. Parabéns!
Eneida.

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, que crônica linda! Então... Faltam livros para as crianças, para que elas possam conhecer melhor e amar as letras da vida... Beijos! Ah, em minha homenagem do mês à blogs e sites culturabelíssimos, o Pena e Poesia está sendo festejado em meu blog Morango. Confira.

primavera disse...

Vou mandar meu livro pra Edilaine, poeta! Beijo.

Anônimo disse...

(comentário na Edição Online do Diário da Manhã, 25/03/2007 às 08h28) Dizem que o destino não se rende ao acaso. Como explicar então o acaso que uniu os ideais de Luiz de Aquino e de Ademir Bacca? Não é caso para se rir, embora eu não consigo me conter! Que peça pregaram no destino! Duas vidas, duas histórias, dois escritores, uma missão: Levar a cultura aos leitores carentes. Além disso, como sempre o faz de forma bem peculiar e recheado de opiniões, o texto de Luiz demonstra mais uma vez um grande conhecimento histórico sobre Goiânia e uma preocupação explícita de difundir a poesia. Bom texto - não poderia ser diferente vindo deste "escritor-humano", que é Luiz de Aquino!

Professor Luciano Byron