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sexta-feira, março 09, 2007

O amor dormiu à força



Foto: Marluci Costa

Manhã novíssima à beira-mar, jornal passado e lido, um barco a vagar lento, como que sem leme, ocultando discretas amarras. O sol beijava o mundo e eu. Final de março, dias ainda sob as medidas de equinócio, olho a linha do sol, o horizonte arqueado do azul oceânico, adivinho África além, lembro Martinho da Vila: “Nestas praias de sol tão intenso, onde há liberdade no ar...”. Lembrança de anos verdes e rebeldes, Brasil 1968, sonhos de futuro, de amor e... Liberdade!

Vislumbro o mar e o tempo. Não o tempo geográfico, o do clima, mas o tempo das lembranças: história. Naqueles anos, vivi um amor de sonhar e fazer planos. E como era temerário, na época, fazer planos! Não se sabia sequer se concluir os estudos seria viável, tão incertos eram os dias e as noites. Nas salas de aulas, bem como nos locais de trabalho, era comum a falta de algum colega. Doía em cada um aquela ausência, muitas vezes sabida (“Foi preso na madrugada, um caro escuro com quatro ou cinco brutamontes”); outras vezes, era impróprio até de se questionar.

Sonhava sobreviver, ao menos. Se possível, sem prisão, sem suspeitas, sem obstáculos ao quotidiano, que por si já era difícil de ser vivido. Éramos assim, ansiosos e atemorizados. Mas, nem por isso éramos omissos. O mais comum era nos vermos, ela e eu, no intervalo maior, entre a terceira e a quarta aula do dia. Ela cursava História Natural e eu, Geografia. Os encontros, às nove horas, eram uma ilha na angústia.

Sim, tínhamos aquilo de todo jovem, ainda mais quando apaixonados: olhos brilhantes, corações acelerados, pelos eriçados e uma inquietação profunda, no sangue, a sugerir ansiedade e alegria. Havia a paixão, mas sabíamos que o amor a precedia e se anunciava mais duradouro. O pátio da faculdade era um dos raros locais em que se podia estar em multidão de iguais. Mas nós o sabíamos infiltrado de espias e escutas.

E a voz de Martinho da Vila cantava, no moderno bar em frente: “Felicidade! Passei no vestibular...”. Ela me dava a mão, eu lhe tomava cadernos e livros para aliviar-lhe o peso (eu mesmo, raramente carregava algum caderno ou livro) e atravessávamos a praça, rumo ao Chafariz, o bar no meio da Praça Universitária, em Goiânia. Era a nossa rotina de todo sábado, ao final das aulas. Era certo ficarmos por ali até o começo da tarde. Depois nos despedíamos no ponto de ônibus, e era certo nosso encontro de rotina no começo da noite.

Agora, olho a massa de oceano que se interpõe entre mim e Angola. Helena escolheu ir para lá, motivada pelo som lusófono e os mistérios da grei escrava que nos antecede nesta nação de mestiços. Nesta manhã, Copacabana parece-me mais clara, as cores são mais firmes e felizes. Olho o relógio. Olho o jornal, outra vez; não tenho mais o que ler nele. São oito e quinze, ela virá as nove horas. Bebo água de coco, e espero mais. Quatorze anos, desde aquela visita inesperada, brutal e barulhenta, madrugada de domingo. Acusações vagas, argumentos incontestáveis e aquilo: ela teria que ir-se daqui, e ir-se daqui implica exílio, fora do país.

Penso em fumar... não, não! Deixei o vício há anos. Rôo as unhas, mordo os lábios, que teimam em ficar secos. Dói na alma, alguma coisa incomoda muito e forte. As ondas parecem mais fortes, quebram mais perto, um vapor me abençoa. Volto à calçada, ao quiosque. Outro coco, os ponteiros, oito e meia... e então, inesperado, um frêmito me incomoda, feito um pressentimento. Sem dúvida, é ela! Atravessou a rua junto ao sinal luminoso, na faixa; ergue naturalmente o pé direito, sobe à calçada, mas vejo aquele movimento com a lentidão de quem revive a paixão interrompida há quatorze anos. Nunca, antes, nem depois, conferi tanta beleza num suave e discreto movimento de mulher subindo um degrau.

Passos firmes, bem marcados, serenos. E me olha. E vem. E chega.

Ah!...

7 comentários:

célia musilli disse...

Belo texto, fortíssimas lembranças.. um beijo.

Anônimo disse...

Que delícia de ler esse texto, flui suave como uma brisa...
O meu beijo,
Lu

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, puxa, que interessante, o texto todo se apóia num movimento suave e feminino, assim como é a faceta mais gostosa do sentimento de saudade! Ah, e parabéns pela marca de 9000 visitas ao seu lindo blog. Beijos.

primavera disse...

Hummmmm! Lindo, lindo, lindo!!! História linda, a de vocês. Tenho respeito profundo por quem viveu a ditadura e não se rendeu a ela. Sei-me livre graças a você, e a Helena, e a Olgas, Joões, Antônios...
Tenho respeito profundo, ainda, e mais, por que ama sem medo, e grita isso aos 4 cantos.
Ave Helena, a ver Luís, a reviverem o sonho, o espasmo.

Andreia disse...

Lindo Texto, Aquino!!!

REGINA disse...

Oi, caro poeta!
Sensibilidade, recordações, saudades, é o que me toca ao ler
"O amor dormiu à força.
Muito lindo!
Um abraço.

katia disse...

Estou lendo,o maximo q.posso;teus contos e poesias.Sao os momentos e instantes mto.gratificantes p.mim.Adoro-os!Bjskkkkk,Menina Katia