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quinta-feira, julho 05, 2007

Nariz de madame

Nariz de madame

Tempo, tempo!... Quantas vezes, num só dia, pronunciamos a palavra, seja para expressar o tempo climático que interfere e modifica nossas rotinas, seja para deixar bem claro que o minuto passado não se recupera. É o tempo que faz a história ou que nos destrói a pele e apavora os que rejeitam a velhice ou temem a morte: tempo que transforma a sedosa pele do bebê em áspera carcaça de menino moleque peralta.

Peralta, travesso, levado, traquinas... Palavras que o tempo levou. Tempo que faz da pele resistente na infância um fino veludo de juventude sadia, apelo de Eros! Mas o tempo atuará outra vez sobre a pele... Vai manchá-la de crostas em tom de ferrugem, denunciando os anos de vida que me alegram, mas que se tornam desespero na vaidade dos que nada têm a oferecer além da aparência.

Vejo na tevê que as senhoras na casa dos cinqüenta anos, faixa a que chamados de “meia-idade” (até parece que conhecemos muitas pessoas com cem anos!), ostentam elegantes “écharpes” para ocultar os pescoços enrugados. Nada de mais: mais um argumento em defesa da elegância!

Meia idade... Terceira idade... Eufemismos desnecessários: velhice é prêmio, sim; e não conheço quem oculte troféus. Mas conheço quem esconda a idade, como se fosse possível... As pessoas têm memória e corrigem, à boca miúda, declarações falseadas. Conheci senhores de alta patente política e administrativa (claro, do poder público) que falseavam idade para conservarem-se em cargos importantes após a marca fatídica dos setenta anos, quando se é obrigado a deixar a cadeira. Mas conheço pessoas que falseiam a idade a ponto tal de inserir-se em dicionários enciclopédicos com cinco ou mais anos a menos (mas não conseguem mudar o registro de nascimento em cartório ou as anotações no órgão de identificação; ou seja, a carteira de identidade continua verdadeira, cruel).

Rejeitar o tempo é fugir de si mesmo. É expor-se a atitudes de desrespeito e “descarinho”. Quantos, dentre nós, não nos orgulhamos dos avançados anos dos pais e dos avós? É preciso entender que, aos poucos, somos nós que ocupamos esses lugares: nossos filhos crescem e se tornam pais; regozijamo-nos nos netos, vemo-los crescerem e surpreenderem-nos. Mas se não lhes damos o devido exemplo de dignidade e cidadania, corremos o risco de, por exemplo, torná-los falsários também, não no que parece ingênuo (isso de ocultar a idade), mas de agirem em confronto com os preceitos que estabelecem as relações de harmonia e equilíbrio com os demais.

Penso que alguma coisa parecida aconteceu nas famílias daqueles rapazes que saem na madrugada da sofisticada Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a espancar pessoas. Um dos pais chamou-os de “crianças”; uma senhora os entendeu “adolescentes”; mas eles têm entre 18 e 25 anos, ou seja, perante a Lei e a Constituição, estão perfeitamente enquadrados como adultos, sim. Bandidos, porém adultos.

E lá se vai o espaço desta crônica, que o jornal tem medidas e o leitor, também. Então, preciso resumir: admito que ninguém vive sem mentir (Noel Rosa, jovem e gênio, já discorreu sobre isso numa canção, há quase oitenta anos). Mentiras são necessárias para proteger o amor (seja amor romântico, seja amor de amigo ou de família); são também indispensáveis na política e nos negócios, bem como nas estratégias militares; mentiras são peça primordial, pois, na diplomacia, na conquista amorosa (“Você é única!”; ou “Você é lindo e inteligente...”); mas a mentira, se tem pernas curtas, pode ter efeito desastroso.

Triste mesmo são as mentiras em entrevistas. O mentiroso expõe-se ao ridículo.

9 comentários:

Herondes Cezar disse...

Amigo Luiz,
Acho que entendi o raciocínio que você desenvolveu. Mas esse terreno, a meu ver, é ingrato. Toda cautela é necessária para não se sugerir que existam mentiras defensáveis. Não creio que haja mentira defensável. As situações exigem, às vezes, que omitamos a verdade, ou que douremos a pílula, como se diz; assim como os nossos elogios podem não ser totalmente lastreados pela realidade. Mas não consigo imaginar que haja "mentira" positiva, defensável. Mas é só um ponto de vista, afinal.
Grande abraço
Herondes

Cicca Dorini disse...

O tempo e a mentira

Acredito que a sua idéia entre tempo e mentira se concatenou de forma extremamente equilibrada. O tempo e a mentira são essenciais. Entendendo-se como mentira aquela omissão que poderia fazer sofrer inutilmente. Mas o tempo é cruel quando se trata de formar o caráter do ser humano; há que se passar muito tempo, para que pais (que geram seus filhos tão jovens) possam discernir entre o tempo cruel, mas necessário para se educar uma pessoa e o tempo desta mesma pessoa apreender o que lhe foi ensinado.
Infelizmente a formação do caráter leva tempo, mas o comportamento não precisa de tempo, mas de EXEMPLO!

Parabéns, meu querido amigo, pela matéria!

Mara Narciso disse...

Sobre mentiras, saiu-se muito bem Cazuza com "mentiras sinceras me interessam". O que é mesmo a mentira?

O tempo foi magnificamente documentando com seus doces e amargos sabores. Destaco: "Eufemismos desnecessários: velhice é prêmio, sim; e não conheço quem oculte troféus." Bela frase e não serve apenas para consolo. Nós os velhos, somos por vezes maltratados pela juventude. Ao perguntarmos ao jovens se querem morrer ou envelhecer, certamente ouviremos a segunda opção. Pois envelheçam, mas procurem não ser amargos.

Mara Narciso

Ritelisa disse...

Querido Aquino,
acho meio injusto voce julgar as mentiras femininas (Nariz de madame), segundo Fernando Veríssimo os homens mentem mais que as mulheres. Eu... ainda não consegui entrar num acordo sobre isso. Vamos equilibrar - tanto os homens quanto as mulheres, mentem!
O pior é negar a idoneidade do filho incutindo-lhe a palavra "criança", se o filho adulto não cresceu imagina o pai como é... um eterno mentiroso!
Um grande abraço.

marisa disse...

Querido amigo.
É certo que vaidade exagerada chega ao ridículo,mas confesso que,não me causa indignação esta forma de mentir e, acho até que há pessoas,vaidosas,ridículas, que têm sim muito a oferecer.
Com relação à violência dos jovens,fato é que falta o alicerce nas famílias (MODERNAS).
Mas, o que me causa indignação são as mentirosas leis que vogam neste País...

Lília Andrade disse...

Amigo, a página está ótima! Em forma e conteúdo. A Marluci deu um upgrade bem legal.Gostei da virada, eu toda light acompanhando tuas considerações temporais e de repente, porrada. Essa história do espancamento da moça é o retrato de uma infeliz classe média que vive uma vida de mentira na Barra, poderia ser em outro lugar qualquer, mas lá é sem dúvida o local com a maior concentração de cretinos do Rio de Janeiro. O paraíso do consumo e da ostentação, pessoas fingindo ser o que nunca serão, vivendo numa Miami sem esgoto... Não podia dar em outra coisa.
Lilia

primavera disse...

Estou com ritelisa viu, sinhô?! Por que relacionar mentira com nariz de mulher? Hummmmmm! Abraço da fã!

Anônimo disse...

Ah! Meu poeta, estes eufemismos... Tenho falado muito neles, pois acho que quando "douramos a pílula" com palavras ditas, politicamente corretas, estamos na realidade querendo fugir da realidade que isto nos traz. Olha bem o que te digo: agora, falamos "afro-descendentes", em vez de negro; "hanseníase", em vez de lepra;nós, que vivemos com Aids não queremos ser chamados de "aidéticos" e, sim de pessoa vivendo com HIV e, agora a situação do velho que tão bem falaste. E, eu te pergunto: no que muda a situação destas pessoas, de todos nós, a simples mudança de uma palavra por outra? Nada. Fica tudo na mesma, a discriminação, o preconceito, a rejeição, a exclusão... Então, te asseguro, eu preferiria que continuássemos a falar as palavras que agridem, mas que mudássemos os atos... Apenas os atos! Assim, repito, só estamos "dourando a pílula", não é mesmo?!
Um beijo, com saudade!
Neca

cristalmais@hotmail.com disse...

Que surpresa boa, poucos são os que valem a pena e este com certeza é um deles, mas confesso foi uma boa surpresa.