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sábado, agosto 11, 2007

Atravessando no choro

Atravessando no choro

O prédio do Grande Hotel, na esquina da Avenida Goiás com a Rua 3, sepulta lembranças de fastio social e político que perdurou até a década de 1980, mas com a inevitável decadência causada pelo surto de conforto advindo com a tecnologia da segunda metade do Século. O Grande Hotel é marco de memória de uma cidade ainda jovem, no septuagésimo ano de sua vida de capital e a apenas 65 anos de sua inauguração oficial. Naquela festa que se chamou Batismo Cultural, o edifício já se posicionava como marco de luxo e poder. Entregue ao INPS em paga de contas previdenciárias, é, hoje, uma trava na goela goianiense, em especial para os que efetivamente amam a cidade, por não estar, como deve, nas mãos da Administração Municipal. Espera-se que o presidente Lula, num gesto de grandeza e respeito à cidade, entregue o imóvel à Prefeitura de Goiânia.

Enquanto isso não acontece, nós, os goianienses “históricos”, reunimo-nos aos primeiros minutos da noite, às sextas-feiras, para ouvir o som brasileiríssimo do choro em primorosas execuções, sob a direção musical do maestro Oscar Wilde. Nesses momentos, imagino que o grande literato que lhe empresta o nome regozija-se: o músico goiano, nascido em Porto Nacional (hoje, Tocantins), dignifica o escritor irlandês.

Centenas de pessoas, “de mamando a caducando”, reúnem-se no calçadão diante do velho hotel. A Prefeitura interrompe o trânsito na pista do lado par da Avenida Goiás, entre a Rua 3 e a Avenida Anhangüera, para segurança dos ouvintes. Até mesmo um ponto de táxi, na Rua 3, entre a Avenida Goiás e a Rua 7, é liberado pela Superintendência Municipal de Trânsito, pois após o horário comercial não compensa, aos motoristas, pemanecer nos locais.

Porém, na noite de 3 de agosto, um guarda da SMT atravessou no samba, quero dizer, no choro. Disse ele que um taxista, ao ver carros particulares ocupando o espaço do ponto, reclamou com o guarda. Este, de imediato, sacou um bloco e decidiu multar os veículos estacionados.

A um pedido da jornalista Marley Costa Leite, assessora de imprensa da Secult, os proprietários removeram seus carros antes que o pretensioso guarda agisse. O taxista, então, estacionou; mas permaneceu pouco tempo: outros automóveis, chegando após o “affaire”, estacionaram ali. Em minutos, o chofer de táxi se foi. Ora, o ponto é uma concessão do governo municipal e cabe a este, quando tem necessidade do espaço, dar-lhe nova destinação momentânea.

A festa dessa sexta-feira, porém, ficou maculada pela ação obediente, mas sem iniciativa, do guarda da SMT. Nenhum dos freqüentadores quer descumprir leis ou afrontar autoridades. O que se quer é reviver o Centro, ouvir boa música e reencontrar amigos. Isso, Kleber Adorno e Coronel Sanches têm em mente, propiciando, todas as semanas, bons momentos que dão qualidade à administração de Íris Rezende.

Sou tão goianiense quanto o Kleber, a Marley, o Oscar, o prefeito Íris e milhares de outras pessoas que aqui chegaram para compor o quadro social da cidade. A Goiânia devemos nosso crescimento, boa parte de nossa formação, nosso trabalho, nossas alegrias e dores, nossa arte e nossa contribuição para o futuro. Esse guarda precisa ser mais bem orientado (ele retardou o começo de seu trabalho e atrasou o xou em cerca de uma hora, naquela sexta, 3 de agosto). E o Coronel Sanches, que tem propiciado mudanças respeitáveis e profícuas no trânsito da cidade, há de escolher um profissional de melhor percepção para colaborar com a retreta das sextas-feiras no calçadão do Grande Hotel.

9 comentários:

mario waddington disse...

Meu amigo
Vejo que a crise de autoridade é um problema que atinge todo o Brasil. Como tumultua um desorientado dentro de uma farda, quando o desinteresse do governo pelo bem estar do cidadão é visível. Esquecem que trabalham para servir e não para serem servidos.
MW

Deolinda disse...

Luiz, se me permite discordarei de você em parte sobre os benefícios do “choro” na porta do Grande Hotel.
Primeiro, até onde se sabe, é proibido aos proprietários de bares e restaurantes a ocupação de calçadas por cadeiras e mesas da forma como é feita durante os shows programados pela grande "jornalista" Marley.
Segundo, o taxista estava certo em reclamar e o guardinha atendeu ao que era legitimo e por isso deveria ser parabenizado.
Terceiro, quem se beneficia dos momentos agradáveis às sextas-feiras, na calçada defronte ao Grande Hotel, ingenuamente imagina que o Grande Hotel se engrandece com o fato de servir de deposito de palcos e instrumentos do grupo de choro e de se transformar ocasionalmente em sanitário público.
Quarto, o projeto representa mais uma iniciativa da Prefeitura de Goiânia, de favorecimento e enriquecimento de ocupantes de cargos comissionados, neste caso específico a “jornalista” e de privatização de espaços públicos. E veja que não estou aqui discordando da idéia em si “ocupar a calçada do Grande Hotel com atividades culturais”, mas sim que tais idéias sejam “pensadas” para beneficiar financeiramente alguns. E o publico que comparece encantado com música está mais do que certo em desejar tais eventos e que sejam de iniciativa pública. E não tem como saber que neste caso, o público se mistura com o privado.
É caso como o do CINE OURO só que invertido, lá a propriedade é privada e o poder público investe recursos públicos para garantir o seu funcionamento, no Grande Hotel o espaço é público e torna-se privado garantindo o enriquecimento da idealizadora do projeto, proprietária do som e agenciadora do grupo do choro. Enquanto o público aplaude feliz, mais feliz ainda se torna a grande “jornalista” com a sua conta bancaria acrescida semanalmente de muitos reais.
Enquanto isso, as casas de shows, bares e restaurantes da cidade sofrem blitz visando a cobrança de impostos e a garantia da liberdade de ir e vir dos transeuntes sobre as calçadas, e dos taxistas de legitimamente ocuparem os seus espaços reservados, como manda a lei.
Enquanto isso a limpeza do prédio do Grande Hotel é feita semanalmente, por uma equipe de mutirão da COMURG, embora oficinas de artes e de literatura estejam acontecendo diariamente, atendendo todos os dias em média 250 pessoas – adultos e jovens – que passam a conviver com um problema sério de higiene dos banheiros e do prédio. Mas para essas pessoas, que não ostentam glamour e para essas oficinas, simples e sem ostentação, os olhos do poder público não se abriram. E como poderiam se abrir? Os freqüentadores não possuem o poder da pena, não são elite e nem são chorões!
Beijos com carinho e a admiração de sempre.

Mara Narciso disse...

O abandono dos centros das cidades, local onde há a melhor infraestrutura, tornou-se um grave problema contemporâneo, pois de onde sai o poder público, entra a medicância, e violência e os drogados. Essas ações populares, privilegiando a cultura numa movimentação nos centros têm extrema importância na tentativa de reversão desse quadro. Fala-se tanto em rivitalizar os centros.

Vejo com muito bons olhos o que se passa em Goiânia. Apreciei que as pessoas estão prestigiando, e lamento o abuso de poder acontecido, porque não muda nada para a autoridade que exige a saída dos carros e muda tudo para quem é incomodado e pode não mais voltar.

O cumprimento de algumas leis para mero efeito burocrático, mostra algumas vezes uma grande falta de inteligência. No caso citado não foi razoável, sendo mesmo como "atravessar o choro", e não o samba, como você Luiz De Aquino, se permitiu brincar.

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz, se a Prefeitura trabalhasse como o povo merece tudo teria sido melhor e os riscos dos problemas, amenizados! Infelizmente, em várias partes do país, tudo é feito de qualquer jeito e sempre falta algum elemento jurídico ou não para o bom desenvolvimento do show - onde no fim se dá um jeitinho, mas, se por acaso aparecer um servidor da Lei, assim como o guarda, o povo acaba sofrendo as conseqüências... Beijos de sua admiradora.

Anônimo disse...

"Atravessando no choro".
Luiz adorei atravessar nesse seu "choro" sem lágrimas... E se elas houveram
foi de boas emoções.Agora, vou discordar de você em algumas partes
e vou concordar também em partes com a Deolinda."O guardinha"...O guarda e o taxista estão certos.Concordo também de que o o uso do Grande Hotel e das calçadas
estão errados.Mas no entanto, faço
algumas resalvas.Infelizmente, o uso e costume da coisa pública pelo privado ou vice vera é do
conhecimemto de todos nós, e concordando ou não é assim que as coisas acontecem nesse país(o
que é uma pena), mas, nesse caso específico, mesmo vendo a lei ser descumprida e sem conhecer a referida jornalista, sem saber se ela está enriquecendo as custas do patrimônio público ou não, vejo nesse caso algo diferente dos demais que acontecem em todas as esferas, isso porque diferentemente dos outros, o " atravessando o choro" está propiciando laser e cultura para a comunidade goianiense, algo incomum para nós, já que o mais comum é o uso e abuso da coisa pública sem que a comundade receba nenhum benefíco em troca.Não quero com isso fazer apologia ao uso da coisa pública e o descumprimento das leis, longe disso, mas é que o povo brasileiro está tão triste, só lê, ouvi e vê coisas ruins que um poco de "choro" não fará mal a ninguém, pelo contrário, só fará bem.
Parabéns pelo texto!!!
Beijo,
Lêida Gomes

Sylvinho Queiroz disse...

sylvinhoqueiroz:
meu brother poeta,
atravessando o choro...
é assim que se ensina aos outros jornalistas e autoridades,
quando se dá o exemplo da autonomia e do entretenimento do povo.
parabéns...esse é o meu garoto...
excelente domingo e tb pra nós Papais...com muito orgulho...
abraços musikkais queirozísticos...quânticos...

Luiz Alberto Machado disse...

Olá, Aquino amigo, o seu maravilhoso blog está agora linkado nos blogs poéticos do meu Guia de Poesia. Para conferir é só acessar o Guia na minha home abaixo.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br

Marcia Padilla Gatto disse...

Que viva o choro, Luiz.
E como diz o ditado, "quem
não chora, não mama!"
Abraços

Marcia Padilla Gatto disse...

Que viva o choro, Luiz.
E como diz o ditado, "quem
não chora, não mama!"
Abraços