Páginas

sexta-feira, agosto 03, 2007

Discussão sobre o inútil



Discussão sobre o inútil


Não sou dos que se orgulham de ler cinco ou dez jornais todos os dias, ou de varrer a tevê e (ou) a Internet à cata de notícias. Potencializa-se a informação negativa; fala-se quase que só de desastres, batalhas, emboscadas (tocaia, no falar da minha terra), assassinatos... Considero-me medianamente informado. Por isso, sou capaz de deduzir.

Não se tem polícia boa em lugar nenhum do mundo onde o crime não beire a perfeição e não ocorra em grande volume, como Estados Unidos, Inglaterra, França, etc. e tal. Não há, em todo o mundo, classe rica sustentando a nação; o mesmo se dá com as classes menos favorecidas. Ou seja: a conta sempre é paga pela tal de classe média.

Sou um sujeito típico de classe média, que os economistas e estatísticos de qualquer lugar do mundo assim definem: tenho formação superior, um carro (de seis anos, financiado em 48 meses); tenho dois aparelhos de tevê em casa; dois computadores (rescaldo de uma tentativa de empresa que resultou falida), máquina de lavar roupa, frízer, refrigerador e um forninho de microondas de 1994. Pago Imposto de Renda na fonte, plano de saúde e taxa de condomínio, porque morar em apartamento sugere segurança. Sei que essa tal de classe média, em todo o mundo, vive apertos indescritíveis e tem de pagar a conta. Pagamos impostos para justificar escolas, saúde e segurança, mas não temos nada disso: pagamos escolas particulares, planos de saúde e segurança. Pagamos IPVA e IPI sobre automóveis, mas temos de pagar pedágio nas estradas decentes, pois as que deveriam ser construídas e mantidas com o IPVA não o são. No Brasil, sabe-se o que acontece com os impostos, pois podemos indagar: mas, e os brasucas no tal de primeiro-mundo? Por lá, também, a classe média vive oprimida, mas os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres são os que jamais podem abrir a boca.

Brasileiros emigrados adoram descer a mutamba no Brasil, a ponto de chamar a minha Pátria de seu ex-país. Ora: se é seu ex-país, porque se preocupam com o que se passa aqui? Aí onde você(s) vive(m) existe o direito de contestar? Vocês têm realmente informação sobre o que se passa? Batem palmas para um governo belicista, opressor e cínico, e falam mal do que deixaram aqui. E aqui há também os que ficaram por falta de coragem de emigrar. Estes são críticos de palavras, mas sem ação para melhorar algo.

Jogar tudo na responsabilidade de governos é covardia. Xingar e vaiar governantes é molecagem, é falta de educação, é vandalismo.Votar em alguém em troca de emprego ou qualquer benefício é cumplicidade. Quero ver esses críticos arregaçarem as mangas e contribuírem. Paguem seus impostos, mas ajam. Movimentem-se. Existem milhares de opções para o voluntariado, é só querer.

Que cada um faça o que sabe, ofereça o que pode. Tento fazer da minha: falo a jovens em escolas e instituições públicas, exponho idéias sem ranços ideológicos, porque não seria honesto de minha parte. Prefiro ensinar a pensar a oferecer o salgadinho com o suco de laranja. Mas é mais fácil falar do que agir; é mais fácil fugir do que enfrentar.


Mas provem-me que as mazelas sociais não acontecem nos EUA; provem-me que na Itália ou na Espanha, na China ou na França empregados, ainda que comandantes de aviões, não trabalham sob pressão. Provem-me que os governos do tal de primeiro-mundo não mentem, ou que não há corrupção nesses seus "novos países"; e que não há crime, porque as suas "novas polícias" se antecipam aos criminosos (isso seria tão impossível quanto a medicina antecipar-se aos vírus).

É: não tenho mais paciência nem tempo para discutir o inútil.

8 comentários:

Marluci Costa disse...

Faz muito bem, Luiz, em deixar de discutir (ler, ouvir) o inútil, principalmente quando se torna repetitivo. É bom sermos seletivos para nosso próprio bem-estar. Mas tem horas que é indignante ouvir falar mal de nosso país, de nossa cidade.

Ontem eu fazia exatamente esse comentário: detesto que falem mal da minha cidade e infelizmente é o que mais ouço, leio e vejo. Comentava que foi só acabar o PAN e as manchetes e fotografias de jornais retornaram com força total, dando destaque à violência. A própria imprensa faz o terrorismo. Acho que em tudo deve haver uma dose de equilíbrio, e não a forma exacerbada como mostram os acontecimentos, valorizando e destacando fotos e manchetes de horror.



Agora, querendo dar um pitaco e já dando, no trecho do texto "Pagamos impostos para justificar escolas, saúde e segurança, mas não temos nada disso: pagamos escolas particulares, planos de saúde e segurança."

Eu entendi: Pagamos ao governo, mas não temos retorno, por isso a necessidade de pagarmos "por fora". Na primeira leitura, pareceu-me que pagamos tudo isso e não temos retorno de nada. Não seria melhor mudar para ficar mais claro ou é apenas uma visão minha? Bem, foi apenas um "pitaco".

Marluci

Mario Waddington disse...

Oi, Luiz!

Li atentamente o seu texto sobre "a discussão do inútil". Entendi, com clareza, o seu ponto de vista, mas não sou tolerante com o estado de coisas que gradativamente vem destruindo esta pátria no que ela tem de mais importante: o Direito.

Nos tempos de Pedro II participei da luta contra a ditadura e, agora, com amigos desaparecidos e ignorados, que morreram por um ideal, vejo surgir do passado um grupo que, se utilizando dos mesmos discursos de outrora, se apoderaram do poder não para recuperar a pátria de sua desordem, mas para depredá-la e saqueá-la.

Sim, as palavras agora são inúteis, pois não prestam para mais nada. É uma idiotice ficar falando sobre esses temas como um papagaio, na mesa de um bar, tomando umas e outras, entremeando com assuntos sobre mulheres gostosas, futebol e carnaval, enquanto a miséria assola este país de ponta a ponta, de forma insustentável, e a corrupção engorda os ratos da Nação, que se multiplicam estupidamente.

Não quero falar de outros países, desviando minha atenção da cartola do mágico maganão, pois são raros aqueles que conseguem servir de exemplo. Fico atento à dialética da atualidade, assim como no rumo do barco que ostenta muitas flâmulas seguindo direções contraditórias e opostas ao vento real.

Pago, e muito bem, para que administrem este país, já que deleguei tal função através do meu voto (perda de tempo?). Quero que o meu povo viva dignamente e que haja esperança em todos os corações brasileiros, pois do contrário só à luta armada será a solução final. Basta!

Não me queira mal, meu amigo, e peço desculpas se a intolerância de minhas flechas o feriu de alguma forma. Passo a admirá-lo por vê-lo um poeta. Não devemos jamais perder a ternura de nossos corações, ou seja, endurecer sin perder la ternura jamás.

Abraços,
Mario Waddington

Luiz de Aquino disse...

Este comentário chegou-me por e-mail. Como a pessoa não o postou aqui, respeito suas razões e, assim, não a identifico. Mas deixo a opinião como uma exposição da diversificação de idéias. Ou de interpretação.
Luiz de Aquino:

"Que pena, um sujeito tão especial com vc escrever uma crônica tâo inútil
como egoista. Sinto dizer isso, como sua amiga e admiradora.
Eu continuo com a minha esperança teimosa... e na contramão... pelo menos na minha coluna semanal...

Nada de beijo que vc hoje nao merece!"

Vivi Damásio disse...

Luiz, gostei muito do texto Discussão do inútil, mas o que eu vim falar já foi dito com mais clareza pelo seu amigo Mario Waddington.
Concordo que falar demais , ler notícias demais , criticar demais, não adianta mais nada.
Mas acredito que estamos todos em situação parecida : sabemos que algo tem que ser feito, que não podemos mais ficar "na praça dando milho aos pombos", só não sabemos o que fazer de concreto e como fazer....
De toda forma, parabéns por sua postura.

Anônimo disse...

Luiz, parabéns pelo texto "A discussão do inútil"!!!
Imagino ter entendido seu ponto de vista, mas não vou "chover no molhado",pois acredito que seu amigo Mario Waddington disse tudo que penso dessa nossa triste e lastimável situação (realidade), portanto, se ele me permite, quero fazer minhas as palavras dele.
Mais uma vez parabéns a você.. E também parabéns a Mario Waddington por seu rico e consciênte comentário.
Beijo,
Lêida Gomes

digofab disse...

Gostei bastante do texto.

célia musilli disse...

Oi, Luiz, vc está coberto de razão.. Um grande abraço.

Maria Lindgren disse...

É verdade, Luiz. Parece que brasileiro reclama demais.
A não ser o carioca que engole sapo ( do prefeito)todo
dia só porque pode tomar um chopinho em dia de calor.
Maria Lindgren