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segunda-feira, agosto 20, 2007

Niemeyer, sim! Ele é nosso...



Niemeyer, sim! Ele é nosso...


A manhã era de sol, mas choveu na madrugada, e as máquinas de terraplenagem já nivelavam o que veio a ser uma "Esplanada Presidente JK", piso do Centro Cultural Oscar Niemeyer. A convite do governador Marconi Perillo, eu estava lá. Meses depois, uma grande visitação reuniu um sem-número de artistas e intelectuais; mais algumas semanas, e a obra, ainda por terminar, foi inaugurada. Faltam coisas, ainda; mas o principal está lá.

Por algum tempo, eventos musicais aconteceram por lá, com nomes da boa música popular que se faz por aqui e exibições de orquestras; nos primeiros meses deste ano, tivemos a exposição de gravuras eróticas de Pablo Picasso, demonstrando que, se houver arte, há público: perto de 10% da população de Goiânia visitou a mostra. E mais nada se fez ali.

Sexta-feira, 17 de agosto: Millena Lopes assina matéria de capa (no DMRevista) em que personalidades goianas questionam o nome de Oscar Niemeyer. Tenho sido cobrador incansável de homenagens aos vultos goianos. Não entendo, por exemplo, que aqui tenhamos ruas e praças que homenageiam barões e viscondes; quem, em Goiás, ostentou título de nobreza? Na iniciativa privada, temos escolas com nomes de educador suíço ou edifícios com homenagens a logradouros d'outros continentes. E daí? Muitos são os pais que dobram eles e enes e abusam de letras exóticas ao nominar seus filhos, como Pollyanna, Allynne, além de inserir um agá onde ele é absolutamente desnecessário, como Thiago, Thereza etc. Isso é da alma brasileira.

Tenho sido, pois, um bairrista teimoso. Não vi, ainda, questionamentos às homenagens a Castro Alves ou Rui Barbosa, mas uns poucos teimam em repudiar, com certa ojeriza, o nome de Niemeyer. E alegam que ele foi pago pelo projeto. Ei! Eu li bem? E algum desses que argumentam assim trabalham de graça?

Ora, gente! A homenagem se deu antes mesmo da concepção da obra; Marconi Perillo, Nasr Chaul e outros têm de memória o propósito daquela visita do governador ao arquiteto, em 1999, arranjada pelo bom baiano (e meio goiano) Luiz Antônio Gravatá Galvão. Niemeyer não é um carioca, apenas; ele é um brasileiro. Gustav Ritter, alemão de nascimento, viveu aqui e foi pioneiro nas artes da cidade; Niemeyer não viveu em Goiás, mas o conjunto de sua obra, em 100 anos de vida ainda ativa, falam por si.

Recentemente, encaminhei a Kleber Adorno, Secretário Municipal da Cultura, uma sugestão: que o Executivo proponha à Câmara o levantamento das praças sem nome em Goiânia (a quase totalidade delas) para que se homenageiem vultos da história da cidade. O Estado pode fazer o mesmo, e cada cidade pode e deve agir assim quanto aos seus vultos ilustres. Mas, infelizmente, em Goiás temos, por exemplo, uma Rodovia JK (Goiânia – Catalão) que a imprensa e os órgãos públicos teimam em chamar de GO-020, apenas. Isso equivale a substituir o nome da gente pelo CPF, ou pelo RG.

Não vejo, pois, razão para se questionar a homenagem a Niemeyer. O homem merece. E o governador Alcides Rodrigues, bem como a presidente da Agepel, Linda Monteiro, têm em mãos excelente instrumento para se projetarem no meio cultural , com repercussão além de nossas divisas. Existe a obra: faltam os equipamentos e, principalmente, os eventos.

Mas se (e isso me ocorre justo agora) a rejeição de alguns artistas se dá por questões de ideologia, digo-lhes que o fato de Niemeyer ser comunista não é obstáculo; afinal, ele concebeu muita coisa para o mundo capitalista, não é mesmo? Mas esses opositores deviam, isto sim, mostrar suas verdadeiras (e ridículas) razões.

6 comentários:

Deolinda disse...

Caro Luiz,
Desta vez não vou me prolongar, apenas quero considerar que está correto em sua avaliação.E de quebra, dá o que pensar, o disse-me-disse sobre quem homenagear, além do quase centenário autor da obra. Quem tem gabarito para isso? Por que será que tenho a sensação que muita água ainda há de passar antes que algum outro tenha o gabarito do grande arquiteto brasileiro.

Dalcione disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dalcione disse...

Concordo plenamente com Luiz de Aquino. Por que um renomado arquiteto como Oscar Niemeyer não pode ser homenageado em Goiás com uma obra sua? O que era para estar sendo discutido é a utilização do espaço, que não teve ainda nem suas obras concluídas. Agora fica lá, tamanha obra sem atividade nenhuma. Enquanto isso, nossos artistas podiam reivindicar o uso para poderem executar o que sabem fazer de melhor, tornando assim, merecedores de homenagens futuras. Aliás, que tal mais espaço para divulgação de nossa cultura??

Luiz Augusto Paranhos Sampaio disse...

Luiz de Aquino, meu amigo e confrade.
Tenho lido todas suas crônicas, e vejo em você o porta-voz da goianidade. E
não é só isso, você aborda com muita inteligência e cultura os assuntos que
dizem respeito aos problemas que nos afligem no cotidiano.
Um abraço,
Luiz Augusto Sampaio

Mara Narciso disse...

As homenagens assim como as listas, sejam de cem ou de mil pessoas, sempre deixarão contentes e descontentes, lembrados e esquecidos. Os que sentem-se injustiçados lamentam que esse ou aquele fez muito menos e está lá. Os sempre lembrados não precisam de mais homenagens, dirão alguns. Vamos colocar nome de quem fez muito e está no momento esquecido. Essa discussão será eterna. Sendo assim " aos vencedores as batatas" e aos perdedores-- ou esquecidos-- resta espernear.

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz, a arte está acima de qualquer sistema social... E Niemeyer merece todo o respeito e admiração. Beijos.