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domingo, janeiro 06, 2008

O ministro e o desencanto

Como estragar o Ano-Novo




Manhã de primeiros dias do ano, tempo favorável, de ar úmido e pouca chuva, céu azul com esparsas e encantadoras nuvens alvas. Ligo a tevê e vejo Ana Maria Braga a bisbilhotar, como se invasora fosse, a casa do biguebróder, toda redecorada. Profusão de espelhos daqueles em que se pode invadir impunemente a privacidade das pessoas... ah, mas não é o caso da casa: as pessoas que ali se instalam abrem mão, formalmente, do direito à privacidade. Ali, não se faz cocô sem ser visto.

As câmeras estão aí, por toda parte. Somos invadidos nos espaços comuns dos nossos condomínios, em pontos estratégicos das ruas (a pretexto de se controlar o trânsito), em bancos e estabelecimentos de indústria e de comércio, tudo em nome de uma segurança que não se mostra eficaz. Mas é o nosso tempo.

As câmeras indiscretas já derrubaram ministro; doutra feita, mostrou que nem mesmo o presidente da República sabia cantar o Hino Nacional (e isso é uma exigência da Lei) e muitas mulheres foram flagradas em elevadores e calçadas, em xópins e sacristias e ajeitar a calcinha que teimava em invadir o vão das nádegas etc. Há seis meses, era um ministro da República em flagrante top-top, no fiel estilo do extinto O Pasquim, festejando o fato de que o avião que bateu no posto de gasolina não o fez “por culpa do governo”.

Políticos em flagrante é sempre muito bom. Afinal, eles sempre são responsabilizados pelos males que nos são infligidos (como taxar, sem dó nem piedade, salários maiores como se fossem renda, enquanto isentam ricos empresários sob a máscara não muito disfarçante de que “vão investir o que parece ser lucro”). O Brasil popular festejou, com indisfarçáveis sorrisos e com estrondosas gargalhadas, o escândalo que culminou com a queda de Renam no Senado. Aliás, o Brasil festejar é redundância... festejamos até mesmo o fato de que a “nossa” Mônica é bem mais bonita que a “dos” americanos. Sim, aquela que guardou sem lavar o vestido azul com a “prova” advinda das entranhas do presidente Clinton. E a Mônica de lá, na época, tinha a metade da idade atual da “nossa” Mônica, tsc, tsc, tsc...

Pois é, gente... estou desfilando uns poucos fatos nacionais de 2007 apenas para que vocês saibam que eu também aprecio rememorar o ano que se acabou. Adorei o Pan do Rio, alguns especiais musicais da Rede Globo, alguns filmes nacionais que demonstram que, quando deixam, sabemos fazer. Visitei escolas, algumas delas; e a todas compareci por mais de uma vez; ou seja, tive um ano muito escolar. Participei de muitos saraus de poesia, alguns com música; em todos eles, pude mostrar meus versos e curtir os dos companheiros; participei de mais uma antologia...

Duro, mesmo, é constatarmos que, por isso, temos de aceitar ser chamados de colegas por uns e umas aí que... Bem, melhor deixar. Se temos críticos que não se atrevem a publicar suas análises, não serei eu quem porá o dedo na ferida. Mas, para não ficar de todo omisso, critico os escribas de larga estrada que, no afã de papa(rica)r alguma jovem “poetiza”, engrandecem-lhes talentos invisíveis ou contestáveis (sim, creiam-me: algumas poetisas não sabem que poetizar é fazer poemas e que o feminino de poeta é “poetisa”).

Mas tudo isso é fichinha. Para se estragar mesmo um Ano-Novo, nada como fazer do ministro Mantega (aquele vaselina) porta-voz de medidas sacrificantes, com a justificativa de que “o presidente fez aquela promessa para 2007; agora, estamos em 2008”.

Mudou o Natal ou mudou Machado? Estou procurando um nome para qualificar a fala do ministro Mantega, aquele vaselina... Será que posso chamar de cinismo?

16 comentários:

Angélica disse...

É, Luiz, entra ano e sai ano relembramos fatos e feitos, mas nossos políticos sempre arrumam um jeitinho de piorar nossa situação!É um desencanto só...

ON THE É (nada do que não era antes, quando não somos mutantes) disse...

Sim, o que pulveriza o coração é o efemêro. Do que a alma corre ligeira, se abrigando por entre nossos gestos e atitudes. O mundo, como um grande e labirintesco moinho e lampadário, se esforça em compreender toda essa parafernália que o sistema, stablishment, vocifera. Parabéns Luis, por sua sempre precisa lente que expõe a ferida da qual todos nós estamos expostos.

Saramar disse...

Não consigo entender. Quanto mais individualistas os seres humanos se tornam, mais querem se mostrar.
Esse BBB é o cúmulo da bobagem!

Quanto aos políticos brasileiros, são a vergonha nacional. Estou cansada deles e muito envergonhada.

beijos, boa semana para você.

Mara Narciso disse...

Elogios fáceis e descriteriosos( existe essa palavra?), perdem o efeito logo de saída. Críticas bem fundamentadas aos políticos metamorfoseantes, numa hora loquazes a favor e num outro momento exatamente a mesma retórica, apenas que contra, não é apenas necessário, mas nossa obrigação. Na falta de um outro, Guido Mantega(o mesmo que manteiga) faz o dever de casa econômico, mas resvala no discurso. Lembra do "Ultimo Tango em Paris"? Pois é...
Mara Narciso

Cris disse...

Até quando iremos lembrar do ano que se foi com exemplo de corrupção, sujeira etc desses políticos?? MUdam-se personagens, contextos, enredos, mas o fim em geral é o mesmo... nós nos damos mal!!

Feliz 2008 meu amigo poeta!!

pedro disse...

Graças a Deus, ainda existem pessoas com bom senso...
Por vezes, somos obrigados a engolir informações deturpadas que enganam facilmente aqueles que não conseguem diferenciar poetiza de poetisa...
Bom, não vou dizer que já desisti do Brasil, mas de muitos brasileiros abro mão!

Irinéa Maria disse...

Sabe, poeta, quando uma coisa não é boa, me apresso em despacha-la pelo ralo da virada do ano!
Claro, no íntimo, por consciência, não me permito esquece-la, porém,procuro encher minha alma de boas energias e sopra-las aos amigos!!!
Isso me dá a sensação de "Tudo Novo de Novo"...como canta o Moska,um filósofo de nosso planeta Brasil.
ps-vou estar mais perto de seu blog em 2008!

Sonia Maria Santos disse...

Luiz de Aquino,
não há como não lhe cumprimentar pelo "Como estragar o Ano-novo". Seu texto, sempre admirável, traz uma lupa sobre o que nos rodeia e tantas vezes nos incomoda. Tenha um 2008 (apesar de tudo) de muitas realizações, como sempre.
Um grande abraço,
para você e família, muita saúde, alegria e paz.


Sônia

Ligia disse...

Vc é demais!!!Tocaq fundo as verdades que devem ser ditas com a elegância de poeta.
Um Feliz 2008

ibernise disse...

Caríssimo Luiz De Aquino, gostei das analises, retrospectivas na política, para alertar-nos. Lembrar-nos sempre a cumprir a nossa parte que é avaliar, cobrar e participar de alguma forma, qualquer forma que signifique, cumprimento do dever cívico, ajuda e voluntariado. Nosso espaço para arregaçar as mangas, prestar serviço social é o imediato, o mais próximo possível. A carência está ao lado... E tem urgência. Gostei demais da crônica. Elucidativa, linguagem clara e objetiva. Valeu! Parabéns!

Luísa Müller disse...

Oi Luiz
Li suas crònicas. Excelentes. Não nega a origem escolar do fabuloso CPII. Deu para ver que aproveitou bem os ensinamentos de lá. Gostei mais daquela em que você fala da visita do seu filho à velha sede da Marechal Floriano (onde passei 7 anos inesquecíveis da minha vida). Cada vez que passo pela rua Camerino, ao lado do casarão, as memórias brotam em cheio. Se o sinal de trânsito demorar muito, até choro de saudade...
Gostei, também, daquela do pôr do sol e da que fala das mazelas de Brasília. Parabéns e um 2008 repleto de belas crônicas. Beijos pedrossegundenses da Luísa.

Marluci Costa disse...

O Natal não mudou, nós é que mudamos, acho que para pior !

Também não vejo outro nome a não ser "cinismo".

Neste mês de janeiro o salário das domésticas do Rio de Janeiro vai para R$ 470,34 e o desconto da alíquota de contribuição à Previdência Social vai subir para 8% devido ao fim da cobrança do CMPF.

E mais uma vez eles subestimam nossa inteligência.

Madalena Barranco disse...

Luiz, feliz blog novo para você!!! Por que eu sei que teremos belas letras em crônicas e poemas seus, ora em críticas construtivas à sociedade, ora em deliciosa nostalgia ao seu melhor estilo, para o deleite desta sua admiradora. Ao contrário dessa turma indigesta do governo que “esquece” as promessas de acordo com os interesses próprios... Beijos, e sucesso para 2008.

sylvinhoqueiroz.brothers disse...

Meu brother poeta,
Mudaram-se o uso das manteigas...
antes sabíamos pra que serviam...
haviam,no mínimo,a coragem e a vergonha...
Hoje, só a cara de pau e o óleo nojento com enorme estragos,claro, em nós...brasileiros... trabalhadores...eternos batalhadores pela vida digna cristã.
abraços fraternos "musikkais" queirozísticos...

"O ministro e o desencanto"
//sylvinhoqueiroz//

Paulo Ruben disse...

Caro Luiz
Estive viajando e apenas hoje li a sua crônica. Achei excelente o retrospecto e agradeço por externar o que nós achamos do "políticos".
Um grandde abraço,
Paulo Rubem

Anônimo disse...

Realmente, Luiz, mal começamos o ano e já apareceu o Big Brother e certos ministros para ratificar a mesmície... povo apático tb! É um crime o que a Globo faz ignorando a sua incontestável função social. Parabéns, vc é um poeta de muita sensibilidade e bom senso! Sucesso!
Cristina Dumont - Orkut