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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Árvores... Testemunhas, às vezes; memórias, outras vezes.

Árvores da memória


Hoje, não apenas as noites do Centro Histórico são tristes: suas árvores também. Para os que teimam em doutrinar que tudo gira em torno do dinheiro, o fenômeno da decadência dos centros das grandes médias cidades brasileira deixa claro o equívoco: o fato de se transformarem as casas familiares em escritórios e lojas, ou de desapareceram para dar lugar a espigões comerciais condenou tais logradouros a um ambiente funéreo.

Curiosamente, recorre-se aos boêmios no afã de “revitalizar” os centros. Quem diria, hem? Tal como o violão (há um século, era símbolo de vagabundagem; na década de 1950, tornou-se símbolo da bossa-nova e da música dos bares da MPB), os boêmios de cinqüent’anos antes são os respeitáveis senhores grisalhos (ou carecas) a quem se recorre para dar aos velhos centros uma cor de vida e humanidade.

No Rio de Janeiro, revitaliza-se a Lapa, a Gamboa, a Cinelândia e outros referenciais de antanho (para “revitalizar” uma palavra que só ouvi, de viva voz, pronunciada pela vetusta Cora Coralina, numa tarde de posse na União Brasileira de Escritores); em Goiânia, o primeiro passo se deu na calçada do Grande Hotel, um dos prédios pioneiros da cidade, na década de 1930. Ali hospedaram-se Pablo Neruda, Monteiro Lobato, dizem que Getúlio Vargas (estranho: pensei que o Presidente da República seria hóspede oficial do Palácio das Esmeraldas; enfim...) e, segundo Genesco Bretas (in “Memórias de um botocudo”), foi morada de João Cabral de Melo Neto, lá pelos primeiros anos da década de 1940, quando o grande poeta pernambucano era funcionário do DASP (Genesco lecinou-lhe Inglês para o concurso do Itamarati).

Bem à porta do hotel, um flamboyant resiste. Suas raízes saltaram, enérgicas, da caixa de alvenaria que lhe protegeria; seu tronco forçou-se a uma bifurcação, tantos foram os cortes violentos que os homens da fiação elétrica lhe aplicaram que a solene árvore, das primeiras da nova capital, resume-se, hoje, a um horrendo V. Segundo li de Jesus de Aquino Jayme (“O Cometa de Halley”), sua fronde era abrigo de moços estudantes (hoje, veneráveis senhores de oito décadas). Certa vez, o maestro Jean Douliez (foi João Batista Zacariotti quem nominou, há mais de trinta anos, o grupo que inspirou meu talentoso parente a produzir o romance) lançou as mãos a um galho acessível; em seguida, tentou lançar as pernas, tinha o propósito da galgar a galhada. Mas não o conseguiu: do esforço resultou uma série de sonoros flatos, gaz de chope retido nos intestinos. Um dos rapazes não vacilou em dar à árvore um novo nome “científico”, em latim de improviso: “arbor flatulentis”.

Reverencio-me ante aquele flamboyant do Grande Hotel. Como a moreira da Rua 24, agora tombada, a cidade lhe deve loas e louvores. As flamejantes árvores de origem africana ambientaram-se bem no Planalto dos cerrados. Cilene Andrade, paulista que se enamorou de Goiânia-menina, encantou-se por chegar aqui em outubro e, num dos andares superiores do Grande Hotel, vislumbrar as flores cor de fogo que ornavam as avenidas centrais. E vistas do alto, tais árvores formavam alcatifa multicor. Faltava-lhe... Não, não faltava: naquela mesma noite, seu primeiro pouso em Goiânia, ganhou de Júlio Alencastro Veiga uma serenata inesquecível, infalivelmente encomendada pelo marido, José Andrade.

Duas árvores: a moreira serviu de gabinete ao ar livre ao interventor Pedro Ludovico, o construtor de Goiânia; o flamboyant do Grande Hotel, de referência à primeira juventude boêmia da cidade, bem como de adorno romântico a um jovem casal que tantos bons serviços prestou à cidade (Cilene Andrade foi vereadora e, ao lado do marido e dos filhos, representou a VASP em Goiânia por mais de quarenta anos).

Há outras, há outras... Algumas gameleiras, por exemplo; e outros flamboyants, alguns ipês e mais espécies nativas. A Prefeitura e a Câmara precisam, com urgência, levantas essas árvores e pontos de referências para possíveis tombamentos.

A memória de hoje agradece. E, tenho certeza, o futuro também.

5 comentários:

Sueli disse...

VOCÊ É UM HOMEM LETRADO POR NATUREZA. SUAS PALAVRAS ME PRENDEM AO TEXTO COESO E ME TRANSPORTA PARA UMA VIAGEM COMO SE ESTIVESSE PRESENTE COMO TESTEMUNHA DO QUE VOCÊ RETRATA TÃO BEM EM SUAS CRÔNICAS. PARABÉNS!!!

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz, eu adoro flamboyants! Suas flores se parecem a orquídeas misturadas com a aurora. Mas, fico imaginando a situação da pobre árvore tendo que efetuar a fotossíntese daqueles gases... heheheh! Beijos - sua crônica está linda.

Mariza Castro disse...

Oi Luiz

Gostei muito de "Árvores da Memória"! Assim se guarda a história de Goiânia, através de gente como você, cioso (e amoroso) de nossas peculiaridades, de nossas trajetórias, de nosso patrimônio...
Queria também dar-lhe os parabéns pelo lindo poeta-menino, que está seguindo as suas pegadas... Soube que ele fez o maior sucesso na festa dos lançamentos dos livros goianos. Um beijo para ele!
Mariza

Mara Narciso disse...

Individualizar e nomear esses marcos naturais os faz ainda mais importantes, além de alertar pela preservação e o plantio de novas levas. Nem só as frutíferas têm gostosas sombras, histórias e suas graças. Boas descrições e lembranças das verdadeiras goianas de raiz.
Mara Narciso

Marley disse...

Deixando um pouco os flamboyants para fazer uma referência a Cilene Andrade...Era filha de Tia Amélia, compositora, contemporânea e amiga de Ernesto Nazareth,ganhou uma composição de Altamiro Carrilho "Choro para Tia Amélia" é a segunda maior referência feminina no Choro, depois apenas de Chiquinha Gonzaga... Em Goiânia nenhum chorão toca músicas dela e são raros os que já ouviram falar dela... Tive o prazer de ser a última jornalista a entrevistá-la... Beijos!!!