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terça-feira, junho 10, 2008

Crítica do Prof. e Acadêmico José Fernandes

Poesia de amor e natureza

Por José Fernandes (*)

Publicado no Diário da Manhã, edição de 10/06/08, página 13 - http://www2.dm.com.br/digital/index2.php?edicao=7522&contpag=13&posjornal=1616

A poesia moderna exige do poeta criatividade e cinzelamento do discurso, para que o poético se instale e se tenha um texto diverso daquele utilizado para a prosa. A capacidade de criar uma linguagem inteiramente nova, mesmo que seja atualização de temas, formas de textos antigos, constituirá a marca, o signo, a poética de cada poeta, como se verifica na realização do moderno de Bandeira, Mário, Cassiano, Oswald, Quintana, Manoel de Barros, Gilberto Mendonça Teles... e, hoje, em Poemas de amor e terra, de Luiz de Aquino, inserido na Coleção Goiânia em prosa e verso. O poema Som e alvorada é um exemplo dessa modernidade, vista na visualização dos versos, a fim de enfatizar determinadas palavras colocadas em posições estratégicas dentro da estrofe. Na primeira, o vocábulo morena, ao conformar um verso, praticamente sozinho, uma vez que o outro é apenas um conectivo, confere um tom semântico inusitado ao ser dotado de pele azeitonada. Não é sem motivo que ela se coloca em uma posição que ultrapassa as expectativas do sujeito lírico.

O mesmo recurso do encadeamento se nota na terceira estrofe, em que o pronome minha assume um tom de posse total, uma vez que a alma, consoante a metafísica oriental, é estritamente individual, porquanto confere identidade ao ser que a encarna. Na última estrofe, os três vocábulos posicionados ao final dos versos têm a sua semântica avultada, agora em decorrência apenas do encadeamento, pois se desconectam de seus respectivos aditivos oracionais. Recursos ligados à visualização dos versos fazem parte da poética aquineana, à medida que joga com eles em quase todos os poemas, como se vê no haicai Impressão com a palavra beija-me, formando verso, entre dois versos maiores.

O imperativo beija-me materializa a tônica do lirismo que perpassa o discurso de Poemas de amor e terra, percebido sob aquela ótica de George Bataille, como um processo metafísico de complementação do sujeito. O sujeito, para incorporar esta qualidade essencial ao humano, necessita do objeto; não naquele sentido de coisa, mas no sentido de interação, de realização ontológica. Não é sem razão que, em termos estilísticos, o poeta utiliza, consciente ou inconscientemente, em quase todos os poemas o conetivo aditivo [e], para substantivar esta soma imprescindível à plenificação do ser lírico: eu + tu. Este procedimento é verificado tanto sob a ótica do lirismo confessional, em que o sujeito dialoga com a amada, quanto sob a do lirismo passional, em que o sujeito dialoga, ou monologa, consigo mesmo.

Do sentimento e da emoção do lírico nasce, quase como uma decorrência lógica, na atualidade, o espírito de natureza, impresso na palavra Terra, explícita no título do livro. Se o amor é uma conseqüência física e metafísica de se ser humano, a preocupação com a natureza advém também desse mesmo sentido ontológico, pois ser humano em plenitude implica estar e ser em natureza. A conseqüência desse estado de ser natureza é uma poesia plena de luz, em que os vocábulos sol, luz, estrelas, tal como eram usados durante o maneirismo, marcam os tons dos dias e, como efeito, do ser do sujeito lírico.

Resultante da luminescência, surgem os outros elementos responsáveis pela vida nesse planeta. Assim, a definição de vida como lago, numa imagem em que o poético se instala de forma nítida, pois, assim como no lago se escondem formas biológicas, como um mistério, também na vida eles estão sempre presentes; ainda mais quando esta vida provém de alguma manifestação do ser lírico.

Valorizar o escritor goiano é imprescindível à formação do sentimento de goianidade. Sejamos goianos! Deo gratias!

(*) José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras.

A seguir, o poema:


Som e alvorada

Isso de ser assim
e morena
é algo além do que vejo e almejo.

É jeito de voz, movimento,
música e dança: espaço
ocupado com graça. E reverbera.

Presença e toque que prendem
e encontram. Alma que aquece
a minha.

Feito luz
que vem do mar
e vira dia.


8 comentários:

Mara Narciso disse...

Luiz,

Pena que o blog esteja com esse problema de formatação--ou algo que o valha. Assim, muito de perde da estética do poema, pois os sinais gráficos sem sentido comprometem a compreensão dos versos.

O professor José Fernandes entende do tema: assunto que desconheço. No entanto desacredito que seja intencional cada detalhe de som, de sentido e de métrica. Alguma coisa sai por acaso, mesmo que haja um intenso burilamento dos vocábulos.

No texto crítico de Madalena Barranco, já tinha notado o uso da palavra "luz" nos seus novos poemas. Gosto deles, e sinto que está iluminado e iluminando.

Parabéns Luiz!

Gilberto Mendonça Teles disse...

Parabéns aos dois, a você pelo artigo do José e a ele pela boa linguagewm empregada.
Gilberto

Herondes Cezar disse...

Luiz,
Gostaria de cumprimentar a ambos. A você, pelo belíssimo poema; ao prof. Fernandes, por ter se ocupado com o seu poema, que revela uma sensibilidade universal. Creio que não faria diferença se o autor (do poema) fosse irlandês ou croata.
Abraço do
Herondes

Eric Ponty disse...

Caro Luiz De Aquino

parabens meu amigo você merece

Eric

Nane Lemos disse...

Bacana a crítica, parabéns! Você sabe o que faz e sou tua fã, não por isso suspeita pra elogiar teu trabalho. Um beijo e até...

Leda Selma disse...

Hum... meu amigo está com a bola cheia, benza Deus! Gostei muito do artigo do JF, além do mais, sua poesia merece comentários desse porte, pois é densa, lúcida e respinga humanidade em cada verso. Parabéns! Beijão. Lêda

Marluzis disse...

O professor José Fernandes deve ter tido dificuldade para escolher o poema de seus comentários, entre tantos tão bem estruturados e capazes de nos produzir efeitos impactantes, cheios de beleza e emoção.

E ele estende suas observações aos goianos, clamando-os a reconhecer os seus valores, que estão além de qualquer fronteira.

Para nós, humildes apreciadores do estilo aquineano, resta-nos ficar embriagados em sua poesia.

Merecidíssimo, grande poeta Luiz de Aquino. Orgulho-me de poder fazer parte do rol de seus leitores.

Meu carinho.

Madalena Barranco disse...

Luiz, querido poeta e amigo, confesso que sou suspeita para falar, porque eu AMEI seu livro "Poemas de amor e Terra", mas aí está a análise do Prof. José Fernandes, que prova em sua experiência com a poesia, que os elogios ao seu trabalho são merecidos. Beijos, com carinho.