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sábado, março 21, 2009

A Língua em risco

A Língua em risco

Luiz de Aquino

 

“Inicializar; vivenciar; experimentalizar”. Está na moda inventar palavras. Tão modal quanto “gerundiar” para construir frases em Português tal como em Inglês, ou seja, instituir no Brasil um “presente contínuo”, tempo de verbo fartamente usado no idioma do Príncipe Charles.

“Variabilidade”. Poxa! Essa, ouvi-a de uma cientista do tempo, quero dizer, uma meteorologista (na tevê). Claro, isso não me surpreende porque, ao longo de seis décadas, sempre ouvi os mal falantes dizerem que sua profissão nada tinha a ver com a Língua. Ledo engano! Todos nós temos de proferir e compreender bem a Língua, ou não nos comunicamos bem e, não nos comunicando bem, comprometemos nosso próprio trabalho, seja o da coleta de lixo ou o das orações de fé.

A propósito, como a gente ouve religiosos falando mal, hem? Também, não é para menos: recentemente, recebi, pela Internet, a oferta de um curso, nivelado a mestrado, que se conclui em apenas noventa dias. Que curso? O de pastor. Claro, isso não acontece em todas as “denominações” (apelido novo para seitas protestantes; é que as pessoas acham que “seita” é uma palavra pejorativa). Mas será mesmo possível formar-se um sacerdote em apenas noventa dias? Sei não... Vá lá, depende da qualidade do profissional que se pretende.

Já vi, em textos, até mesmo professores da Língua confundirem as palavras “há” e “a” (claro, as vogais “a” e “o” são palavras, em alguns casos). Já vi engenheiros corrigindo o linguajar de bacharéis de Direito (esta semana, um advogado, obviamente com carteira da OAB, escreveu-me; havia sérias confusões de regência e concordância e uma mistura triste de “mau”e “mal”). Profissionais das áreas de biologia e exatas costumam dizer que “Língua Portuguesa não é do meu ofício”. Mas é, sim. E como o é!

Viajemos no tempo. Em dezembro de 1961, publicou-se a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação no Brasil. Os professores de Grego, Espanhol, Latim e Francês tiveram de migrar para o ensino de Português; os de Canto Orfeônico e Trabalhos Manuais perderam seus empregos (só alguns anos mais tarde apareceram as disciplinas ligando arte a educação). Parece-me que os professores das esferas das ciências exatas e biológicas ligaram suas antenas e conseguiram realizar uma importante reserva de mercado. É que, dez anos depois, outra reforma deu força estranha aos cursinhos pré-vestibulares, instituindo o tal de vestibular único, que exige dos candidatos às universidades conhecimentos cada vez mais profundos de física e de química.

Os professores de Português, não. Acharam que, por ser o idioma indispensável à comunicação no Brasil, teriam sempre o seu lugar, mas, ao fraquejarem nesse comodismo, permitiram a queda brusca na qualidade da Língua falada e escrita pelos profissionais nacionais. Chegamos ao ponto de um profissional de nível superior não compreender o que lê. Então ele pede que alguém leia e lhe explique verbalmente o escrito. Já vi médico pediatra escrever “frauda”e jornalista publicando texto assim: “A loja promete trocar todos produtos com defeitos” (no caso, “todos” vem a ser a combinação das palavras “todos”e “os”, assim: “tod’os”; isso parece ter sido a lógica de raciocínio do autor do texto, se é que isso tem alguma lógica).

Enfim, alguma coisa precisa ser feita, e já! Ou continuaremos a ouvir os ícones do telejornalismo nacional a repetir “sofria da doença havia seis anos” ou a tentativa de nos convencer de que “risco de vida” está errado, que o certo é “risco de morte”.

 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. (E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com).

 

6 comentários:

Anônimo disse...

Luiz, magnífico e soberbo este texto. Digno de ser publicado em todos os jornais do país, não somente no DM. Neusinha.

lau siqueira disse...

Belo texto, amigo. Deveria servir de guia para alguns jornalistas, tambem. Tenho colecionado manchetes absurdas. Por exemplo, com a separação de Luana Piovani e Dado Dolabela, um jornal cariocou esta: "Luana não tem mais Dado em casa". Aqui em JP, um acidente3 maritmo provocou esta: "Lancha desgovernada leva menino ao hospital".
hahahahaha
abraço!
Lau

PS. Desculpe, mas estou sem acento agudo no meu teclado.

marcos caiado disse...

Nas palavras da Neuzinha, sem tirar nem por, as minhas.

Alda do Crítica... disse...

kkkkkkkkkkkkkk
Eita meu amigo e eu que adoro inventar palavras! A-do-ro! Outro dia coloquei no Crítica " a população do mundo está sofrendo uma mutação pirandela, pirandeloica, pirada...
kkkkkkkkkkkkk
E você lindoooooo, escreveu bem, como sempre, nota mil para você poeta.
Abraços, Alda

Mara Narciso disse...

Tocou no nosso ponto nevrálgico, a língua e não o bolso, pois dói em quem ouve. Falou tudo pois, como diz o publicitário Rodolfo Dantas, "Comunicação não é o que você diz, e sim o que o outro entende". Assim, escrever razoavelmente bem é dever de todos.

Outras palavras "novas": compartimentalizar, operacionalizar, elencar, alavancar, maximizar, espetacularizar, todos verbos, e por fim "imexível".

O gerundismo é caso de polícia. Ouvindo-o já nivelo o falador por baixo.

Quanto ao "risco de morrer" é de uma imbecilidade ímpar. A mídia está impondo um novo modo de dizer, quando o correto e mais simpático é "risco de vida".

Muito bem Luiz.Ótima crônica!

Maria Helena Chein disse...

Gosto de ler suas crônicas. A que fala das calçadas vem de acordo com o que o Dr. Carlos (amigo, paulista,advogado, morador em Goiãnia há muitos anos) e eu achamos. Elas são, na maioria, um perigo para nossos ossos e músculos. Podem se quebrar, rachar, cortar, etc. Dê mesmo um passeio, nos nossos passeios, com o prefeito Iris Rezende. Ele ficará horrorizado e, na certa, tomará providências.
" A Língua em risco" é um chamamento para tantas inconveniências ditas, como se vê e ouve na televisão: "o menino, ele veio aqui", "o remédio, ele irá curar seu dedo". Acho um enjoo (arre, a nova grafia) esse tal de "o menino ele"
ou "o remédio ele" e por aí vai. E o " na verdade"?
Lu, que surpresa ver meu nome junto de Quintana e perto de Pessoa e Drummond, B. e Camões. Meu Deus, fiquei entre o sem graça e aquele sentimento bom de alegria, entende? Os poetas são demais e assim a honra é minha.
Um abraço bem grande.
Maria Helena ( ou Lena).