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quinta-feira, janeiro 14, 2010

Glossário de goiano

“Só goiano entende”…


Luiz de Aquino










Recebi pela Internet, obviamente enviado por forasteiro que finge nos admirar, mas divulga isso aí com um indisfarçável tom de deboche. Transcreverei apenas alguns tópicos, porque o glossário é variado. Os conceitos, para mim, soam suspeitos.

“Os verbetes abaixo servem para todo o estado de Goiás.
Arvre - Árvore (isso me lembra 'As arvres somos nozes') Arvrinha - Árvore pequena. Arvrona - Árvore grande. Madurar - Amadurecer. Corguim - Lê-se córrr-guim. Diminutivo de corgo. Corgo - Lê-se córrr-go. Córrego. Quando é fé - Algo como “de repente” ou “até que”. Ex.: 'Estava no consultório do dentista, ouvindo aquele barulhinho de broca, e quando é fé sai um meninin chorando de lá.' Deixa eu te falar - Com a variação “Ow, deixa eu te falar”. Introdução goiana para um assunto sério. Nunca, mas nunca mesmo, chegue para um Goiano falando diretamente o que você tem que falar. Primeiro você tem que dizer “ow, deixa eu te falar”, para prepará-lo para o assunto. Em Goiás você precisa seguir o ritual de uma conversação. Ex.: 'E aí, bão? E o Goiás, hein? Perdeu! Tem base? É por isso que eu torço pro Vila. Oww, deixa eu te falar, lembra aquele negócio que eu te pedi...' A forma abreviada é “te falar”.



Fiz um grande salto. Vejam essa jóia:

“Barriga-verde - como já ouvi aqui em Goiás, 'pra baixo de São Paulo todo mundo é gaúcho'; portanto o termo barriga-verde nada tem a ver com o usado no sul, que significa 'catarinense'. Barriga-verde aqui é um novato, alguém que ainda está 'cru' numa determinada coisa.” Nota-se (pelo menos, eu desconfio) que a coisa foi registrada por um sulista, talvez catarinense. Nunca ouvi, de goianos legítimos, a expressão barriga-verde para significar o que o autor anônimo conceitua aí.

“Disco - Um tipo de salgado frito”. - Desatento, o autor. Disco é um bolinho de carne achatado. Como se amassássemos uma almôndega. Do modo como definiu o autor, ficou muito vago.

“Voadeira - Voadora (o golpe, agressão)”. - Errou de novo. Se a palavra foi usada nesse sentido, vale como analogia, pois “voadeira”, tal como na Amazônia, é canoa com motor.

“Final de tarde - Sabe aquela mania chata das propagandas de uma marca de cerveja de tentar mudar a quarta-feira para Zeca-Feira e o Happy Hour para Zeca-Hora? Pois é, ao menos o Happy Hour já foi aportuguesado por aqui. Chama-se 'Final de tarde', e na prática é o happy hour: você sai do trabalho e vai tomar uma com os amigos. Acompanha espetinho e feijão tropeiro, é claro!”. - Não posso asseverar que se trata de uma expressão legitimamente goiana, mas já tivemos, e certamente ainda temos, bares chamados “Fim de tarde”. A intenção é prevenir os fregueses de que a casa não se estende aberta madrugada adentro. Ou afora.

Fi - Creio que vem de 'Filho', é usado no fim da frase, como se fosse um 'tchê' gaúcho ou um 'meu' paulista. Ex.: 'Esse é o melhor, fi!', 'Nossinhora, fi! Bão demais da conta!” – Vem, sim, de “filho” e a escrita deve ser Fii, com duplo i, pois a letra ganha, na pronúncia, dois sons, o primeiro mais agudo que o final.

Coca Média - Refrigerante médio é o de garrafinha de 290ml. Ou seja, o menor que costuma ser vendido em restaurantes. Nota do Gump: Na última vez em que estive em Curitiba pedi uma coca média, por costume adquirido em Goiânia, e a mulher ficou me olhando sem entender. :)”- Esse conceito é bobinho. No Rio Grande do Sul, chamam pão francês de pão-dágua, nem por isso os demais brasileiros ficam ridicularizando gaúchos.

Pronto! Creio que com esse pequeno glossário, você já pode ir no Goiás, comer no Pit Dog sem dar rata e, quando é fé, sentar à sombra de uma arvrona na beira do corguim!”. Finalizando, a gota d’água: “você já pode ir NO GOIÁS”. Duplo erro. Goiás, o Estado, não leva artigo. Talvez o pretenso humorista se refira ao glorioso Verdão da Leda Selma.

Meu espaço, aqui, é exíguo. No blog http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/, amplio o meu comentário, citando expressões de outros estados brasileiros que costumamos ouvir e respeitar.

Não vejo a razão por nos olharem como bichos de zoológico.


* * *


Nota do Autor: Por conta do espaço em jornal, o texto acima seguiu resumido. Meu comentário completo sobre o “glossário de goiano” deveria ser este:


Do modo como os forasteiros analisam nossos glossário e sotaque, parece até que todos os modos de falar lá-fora, seja Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Rio de Janeiro (a cidade), Amazonas ou São Paulo são corretíssimos e nós, goianos, falamos errado. Em Santa Catarina, antes dos cartões telefônicos, a ficha se chamava moeda-de-poste. Também é de catarinenses a expressão jacaré-de-parede para lagartixa.

Em Pernambuco, jamelão é chamado de azeitona.

O que aqui chamamos de ata chama-se fruta-do-conde no Rio de Janeiro e pinha no sul e no nordeste.

O Brasil inteiro acha bonito gaúcho chamar mexerica (tangerina) de bergamota.

Carioca fala galhardete e o nome, para os pequenos cartazes alongados no sentido vertical, é totalmente desconhecido no restante do Brasil.

Quitanda, em Minas e Goiás, é biscoito e seus assemelhados. No Rio, eram as lojinhas de frutas e verduras (desaparecidas com o surgimento da rede Hortifruti).

Escapamento de automóvel (Goiás) chama-se silencioso no Rio e surdina no Rio Grande do Sul.

Lanternagem (Goiás) é funilaria (RJ).

Essas diferenças, para mim, são o que mais me encanta no processo linguístico brasileiro. Não fosse o Brasil, a Língua Portuguesa já teria se tornado mais um dialeto espanhol. E é bom notar que somos cerca de 200 milhões de falantes da banda de cá do Atlântico, enquanto a nação-mãe não chega a 10% da população do Brasil. E temos muito, muito mais vocábulos do que eles, porque acrescentamos, através da História, palavras indígenas (de várias linguagens) e africanas (ainda mais rica), sem contar a influência dos imigrantes.

Enfim, somos mesmo maravilhosos. E se assim me sinto como brasileiro ante as nações lusófonas, sinto-me também muito orgulhoso como goiano ante o Brasil. Apesar de sermos, na média, 4% do Brasil (essa média se faz do PIB, da população e mesmo do território), temos o nosso peso e a nossa força. Infelizmente, paulistanos e cariocas (não falo de paulistas e fluminenses) são fomentadores de um odioso preconceito geográfico, tentando ridicularizar tudo o que não lhes é pertinente.

Por isso, e para que sejam coerentes, defendo um ponto de vista: cariocas e paulistanos não deviam, jamais, sair do Rio e de São Paulo, respectivamente. Assim, não morderiam a própria língua ao criticar, sem um bom senso crítico, os que se lhe diferem.

Obrigado pelo envio, estou pensando seriamente em aumentar esse glossário. As cidades históricas de Goiás têm expressões muito apropriadas, além de um sotaque sui generis que nos remonta a Goiás de muitas décadas passadas.


Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

27 comentários:

Wanda disse...

Sim,
Eu já conhecia esse glossário goiano.
Tem uma maldadezinha, sim, por detrás. Eu também notei.
Valem as suas correções.

Que foto fantástica!! Quem é a fotógrafa?
Bjinhos.
Wanda

Mariana Galizi disse...

Mas olhe só, meu amigo, o preconceito fere, mas não nos mata, não.
Sou paulistana da gema e pecaria muito em não admitir, e admirar, a riqueza de nossa língua.
Andando em qualquer cidade ouço nosso "brasilianês" quase dialetado e curto isso, amo a individualidade de algo que é social. Os códigos falados carregam as intenções como carregam história de tempos remotos.
Desde o nosso Nheengatu até hoje herdamos uma poderosa língua, com influências ricas de povos altamente miscigenados e devemos agradecer, nossa língua é linda como é lindo nosso povo; seja ele do sudeste, centro-oeste, nordeste, norte ou sul.
Triste é ver hoje ainda um grande preconceito linguístico, típico de alguém que merece pegar uma boa estrada e aferir a realidade por trás de mitos mal posicionados e formulados.
Bora tomar umazinha no final de tarde? rs

Bruno Hedi disse...

O Preconceito e o chiste vem de três bases: crenças; sentimentos e tendências comportamentais.

Assim pode se notar que ou é total falta de "cultura" ou um tremendo desrespeito este tipo de "glossário goiano".

Bruno Hedi.

Maria Luiza de Carvalho disse...

Quando cheguei a Goiânia, aplicando um daqueles testes chatos para crianças.

Perguntei ao menino: O que tem aqui dentro desta arvore?
Ele responde:
“Uai, tia um trem grande com um monte de trenzinho dentro”
-“só do conta disso...”
E eu respondi: Ah! Ta bom!(sem entender nada)
E assim fui logo incorporando o Dá conta!!.....
E hoje poeta acredita que dei conta de fazer poema e entrar no seu blog...
RsRs.......
Muito boa suas observações.... Um abraço desta paulistinha da gema...


Afetivamente,
Malu

Conceição Matos disse...

Respeitável Luiz de Aquino:

A leitura de seu e-mail me remete a uma verdadeira crônica, como só você sabe desenvolver.

Entretanto, pretendo trazer para cá minha resposta .

Convido você a realizar um passeio pela cidade de Goiânia. Mas não é de carro. Caminhando pelas ruas da periferia, conversando com professores da periferia, andando de ônibus nos horários de pico, acessando os terminais provavelmente, como homem sagaz, entenderá o que eu relato. E se você estiver aberto ao diálogo, poderemos chegar a uma profunda (e não menos poética) reflexão.

Portanto, não considere minha avaliação como algo pessoal. Nem desperdice sua energia me agredindo, porque eu não me aproprio da agressão de ninguém.

Você conhece pouquíssimo sobre meus valores e minhas crenças. Afinal, a habilidade de ouvir não é a sua maior característica. No entanto, procurei acolhê-lo com respeito e compreensão.

Peço ,apenas, humildemente, que tenha cautela com pré-julgamentos, afinal a tarefa de ser soldado de Deus (ou do Diabo) dá muito trabalho. E acredito que você tenha outras prioridades...

Se você fosse menos passional, provavelmente contribuiria para diminuir meu sofrimento com tanta miséria moral e espiritual que encontro todos os dias nas cidade de Goiânia.

Lamento profundamente a crise de identidade de Goiânia, criada historicamente, assumindo o papel de uma metrópole enquanto seus valores rurais são negados pela classe dominante.

Não considero desrespeito ao Estado de Goiás. Penso que Goiânia faz muito mal para o povo goiano. E que os intelectuais e artistas goianos não podem se omitir dessa discussão!!!

Goiás está sendo minada, silenciosamente, com essas políticas assistencialistas.

Dessa forma, eu não inimiga de Goiás. Nem quero ser inimiga de nada. Creio que já existe muita guerra do mundo.



Com minhas considerações,

Paz e Bem.



Conceição Matos

Luiz de Aquino disse...

Conceição,

É possível que eu realmente não saiba ouvir, mas quando eu disse que a timidez de sua filha a qualificava como "uma goianinha", você me interpelou dizendo que não a ofendesse, lembra-se?
Se não sou capaz de ouvir, porque fui chamado inúmeras vezes por você para palestrar aos seus alunos?
De onde colhi eu as informações sobre a vida dos lugares em que vivi e vivo?
Bem, você afirma que não quer conflito, mas exerce-o com eficácia no silêncio e na dissimulação - eu não preciso ouvir muito para concluir isso. Enganei-me com você desde o começo, mas concluí pelo contrário justamente por muito ouvi-la. Você se inclui entre os cariocas que lamentam ter deixado o Rio, não valorizam a cidade e a sociedade que a acolhem como um dos seus e dispara contra nós.
De minha parte, Conceição, preferiria não ter de lhe responder, mas não é do meu feitio deixar as pessoas sem respostas.

Mara Narciso disse...

Adoro ouvir todos os sotaques e presto bem atenção nos regionalismo, algumas vezes impenetráveis para os forasteiros. Em Natal-RN, algumas vezes não consegui decifrar o assunto. Lá, "pé-de-moleque"(ainda tem hifen?), é um bolo feito de farinha preta, e não o doce de rapadura e amendoim, de Montes Claros, minha terra, no norte de Minas. "Frisar o esmalte" é tirá-lo na extremidade com o dedo para evitar estragar. "Torar o braço" é apenas quebrar o osso do membro. Canjica é "munguzá" e mingau de milho verde é "canjica". Falo do que ouvi, e de cabeça. Então, isso os torna menos inteligentes que o restante do país? O preconceito sim, nos envergonha.

Luiz, o assunto apenas começa. Dê andamento a ele nas próximas crônicas.

Iracema disse...

Luiz, gostei do seu texto “Só goiano entende”. Sou filha de paraibana com potiguar. Nasci no Paraná, tenho 2 irmãos mineiros, um cunhado pernambucano e um goiano. Companheiro gaúcho e filho goiano. Imagine você a miscelânea na hora de conversar. Dia desses fui ao Rio de Janeiro e, para minha surpresa, pedi pão francês e disseram: Aqui é cacetinho. Eu caí na gargalhada. Afinal, cacetinho nos remete a outra coisa, não é mesmo? Em Porto Alegre, numa padaria, fiquei me perguntando o que é 'cueca- virada'. Estou azogada porque não consigo descobrir o que significa “correr os banhos”, expressão usada por minha mãe, em 1951, quando ela estava se preparando para casar. Estou com dor no ispinhaço e nos quarto porque me aboletei a fazer um vídeo sobre a vida dela e do meu pai e estou me esbarrando em algumas expressões usadas apenas no Nordeste. Tenho ainda que desarnar muita coisa.

Moro em Goiânia há tempos. Aqui fiz amigos e até ganhei o texto "Do goianês", do escritor Leonardo Teixeira, publicado no DM, em 08/10/2009. Ao lê-lo, sugiro especial atenção ao último parágrafo.

Luiz de Aquino disse...

Iracema,
Gostarei muito de conversar com você e sua família! Aí está um reduto legítimo de brasilidade, de linguística, de costumes nacionais. Obrigado pela dica sobre o artigo do meu amigo Léo Teixeira, não o li, mas vou fazê-lo ainda hoje!

Já viu o meu e-mail? poetaluizdeaquino@gmail.com, escreva-me.
Muito obrigado!

Leda(ê) Selma de Alencar disse...

Ótima resposta, Luiz! É isso aí, nada de deixar que curtam cm a gente ou que ridicularizem nosso falar. Idiota quem o faz, ignorante mesmo. Precisava, no mínimo, estudar filologia e linguística. Você se saiu muito bem. No RS, atochar é mentir, bundinha é pão pequeno, burro/a refere-se a grande tamanho (de algo) e por aí vai... Tenho até pronto um texto, modelo pegadinha, usando esses termos. Ih! agora, não o pego mais... Beijocas. Lêda

Leda(ê) Selma de Alencar disse...

Ótima resposta, Luiz! É isso aí, nada de deixar que curtam cm a gente ou que ridicularizem nosso falar. Idiota quem o faz, ignorante mesmo. Precisava, no mínimo, estudar filologia e linguística. Você se saiu muito bem. No RS, atochar é mentir, bundinha é pão pequeno, burro/a refere-se a grande tamanho (de algo) e por aí vai... Tenho até pronto um texto, modelo pegadinha, usando esses termos. Ih! agora, não o pego mais... Beijocas. Lêda

Luiz de Aquino disse...

Obrigado pelo apoio, Leda! Você é profissional da área, excelente poetisa, contista, professora de Letras, especializada em Linguística e sobretudo um excelente exemplar de "gobaiana"... (Preciso explicar o neologismo? rsrs).

Jacqueline disse...

Olá, amigo Luiz Aquino.
Eu acho pouco inteligente uma pessoa como a autora do texto em questão dar a resposta que deu a você aqui neste espaço, e você bem respondeu. Penso que a pior situação é andar pelas ruas da cidade, em sua periferia, no ônibus, como ela solicita a você que o faça, e, mesmo assim, vir com um discurso totalmente preconceituoso, disfaçado. Nosso problema (brasileiro) é a educação em si e o preconceito linguístico existente. Não se intimide, Poeta, e deixo aqui meu protesto contra textos mal elaborados, pois até defendo o direito da autora "criticar" o regionalismo linguístico, mas deixo claro que a pessoa que domina a escrita deve, também, saber se expressar de maneira respeitosa, deve perceber que talvez não tenha escrito um bom texto, é o caso de Conceição Matos.
O problema, para mim, é apenas esse, foi um texto probre; critica, mas não conduz a nenhuma reflexão positiva, apenas leva a um humor que talvez ela não perceba, mas agride!

Tiago Peixoto disse...

Luis, sou Tiago - filho da autora do texto em questão - Conceição Matos - lembra?
Acho interessante as pessoas comentando sobre a opinião da minha mãe acerca do assunto.
Mas não acha estranho você postar uma e-mail pessoal da sua até então amiga, sem a permissão dela e principalmente, totalmente fora do contexto?
É fácil fazer comentários sejam eles com ou sem nexo quando já pegamos a carruagem andando não é mesmo?

Não sei se a sua vasta experiência ainda deixa espaço para comentários de jovens como eu, mas espero que reflita com carinho.
O que minha mãe quis quiser - opinião a qual, eu compartilho - é da situação caótica que vive Goiânia, uma cidade em expansão.
Não julgamos pessoas pelos sotaques - modo de falar. Eu e minha irmã somos paranaenses, puxamos o ´r´ entre várias outros aspectos em comum com os goianos. Viemos todos da mesma terra e pra mesma terra voltaremos!
Se você quiser esclarecer certos pontos dos diálogos que vocês compartilham, ligue para ela, mande um e-mail. Acho que a amizade que vocês compartilharam e compartilham durante todos esses anos merece esta atenção.
Não coloque o que é privado na esfera pública, as pessoas não vão entender!

Luiz de Aquino disse...

Caríssimo Tiago,

Tenho-lhe muita admiração, justamente por ser jovem e, como tal, compreender que não é tão difícil o convívio e a possibilidade de se conseguir harmonia entre seres "diferentes" pela Geografia. Você não se sente estranho em Goiânia, imagino que também sua irmã se adapte bem. Sua mãe, no entanto, censurou-me quando eu "xinguei" sua irmã de goianinha. Por isso, não a vejo como alguém capaz de se sentir bem entre goianos, coisa que deveria ser comum em Goiânia, considerando-se, como se sabe, a variedade na origem das pessoas.
Eu poderia, sim, acertar diferenças de opiniões com ela, mas note que ela é quem afirma que eu não sei ouvir. Não a ofendi, jamais, e como você bem diz, comportávamos como amigos, mas aos poucos ela se mostrou "diferente" da massa que parecia integrar, qual seja a sociedade em que vive há cerca de quinze anos.
Quando a publicar o texto dela, não o vi como privativo. Caso ela o confirme, prometo a você que o removo imediatamente.
Abraços fraternos (conversarei sempre com você sem a barreira das idades, meu amigo).
Aguardo nova informação.

Anônimo disse...

Caríssimo Luiz de Aquino,

É a primeira vez que visito o seu blog e, de saída, vejo que as discussões por aqui são bem quentes. Na condição de estudioso das culturas é que irei me colocar neste debate. É importante deixar isso claro, para que os falsos intelectuais de infantaria, que neste espaço habitam, não compreendam essas palavras com equívoco, e/ou, simplesmente, com ignorância. Pelo tom da conversa percebo que Conceição Matos é uma pessoa próxima de você, possivelmente sua amiga, é isso? Você como poeta que é, de fina estampa, ama por demais a sua cidade, seu Estado, e, por extensão, sua cultura, assim como eu amo, pois, afinal, sou goiano; porém, você estremou demais essa situação a ponto de agir com sentimento demasiado, pois impelido pelo seu ímpeto de fúria, lançou pérolas aos porcos: o poder e a ética. Por poder é compreendido, de acordo com a pensadora política Hannah Arendt, que ele brota do dissenso, da capacidade que homens e mulheres têm de levar, à exaustão, o exercício da fala e da compreensão mútua. E isso, pelo que noto, foi rejeitado neste espaço. Porque todas às vezes que o dissenso é abolido e em seu lugar vem à tona o imperativo narcísico do eu, o poder é exaurido, posto que ele é germinado em par, nunca ímpar. E é assim que a ética testemunha o fracasso do humano, pois, nas relações estabelecidas entres os pares, onde um se impõe ao outro por meio da técnica e não da persuasão, a coerção imediata é estabelecida. E isso pode ser sentido na forma como os freqüentadores deste espaço acolhem suas palavras, Luiz de Aquino. Pior que isso é a carência de leituras sérias destes freqüentadores, e nisso você está inserido, Luiz de Aquino; leituras estas que são capazes de detectar as contradições dos discursos, isso deflagra a ausência de pensamento, de questionamento, e de problematização e nesse espaço virtual esse elemento é ausente. E se ele é ausente, se faz necessário repensar suas diretrizes funcionais. Pois, se não há diálogo, persuasão e compreensão mútua, então, o que temos é um monólogo entre homens e mulheres. E se essa tentativa se levanta, qual seja a de calar o dissenso por meio da imposição do monólogo, isso evidencia um ranço herdado do período militar, que você bem viveu e sentiu na pele o horror deste período, não é mesmo?
(CONTINUA...)

Anônimo disse...

(CONTINUAÇÃO)
O pior de toda essa situação descrita em seu blog foi fazer o que Hannah Arendt denunciou: misturar os assuntos que são de interesses privados com os que são de interesses públicos. Pois, para lembrá-lo, em um blog, tratamos de assuntos de ordem coletiva. Que tal debatermos sobre a corrupção da política no Estado de Goiás? Ou então, a crise de identidade cultural assola não só Goiânia, mas o mundo em que vivemos? E também o impacto da ausência de identidade cultural no espírito do artista, ou, se preferir, do poeta? E se houver disposição, fôlego e coragem, acima de tudo, para tanto já vou logo avisando que em diálogos também existem dissensos, Luiz de Aquino. E por qual motivo houve um embaralhamento dos assuntos privados e públicos, ocasionados pelo mediador deste blog? Simples, abuso de poder! Abusou do espaço de poder que tem na internet para condenar a fogueira Conceição Matos, em praça pública, aos seus seguidores que, assim como você, carecem de pensar a cultura goiana a fundo, e mais ainda, de parar para pensar, como também lembrou a filósofa Hannah Arendt “no que vocês estão fazendo”. Isso porque ela, Conceição Matos, apontou um problema que a cegueira irrefletida de todos dos discípulos desta seita, a da ausência do pensar, os impediram de ver, que a cultura goiana precisa ser revitalizada pelo nosso olhar, e para que essa revitalização aconteça é necessário o contato com a experiência do pensamento, mas, para isso é necessário atrelar a realidade a nós mesmos, para que a mudança possa ser contemplada por inteiro. Acho que foi nesse horizonte que Conceição Matos fez o convite para você conhecer a outra margem da cultura goiana, a Goiânia da periferia, das contradições sócio-culturais, dos terminais, dos espaços de poder local, a Goiânia que fomenta violência, como essa, a que foi cometida Conceição Matos, pela sua fé cega, faca amolada.

Anônimo disse...

(CONTINUAÇÃO)
Essa cultura, como bem lembrou o antropólogo indiano Homi Bhabha, a cultura dos subalternos, também deve integrar a cultura goiana oficial. E se Conceição Matos tem dificuldades de se reconhecer na cultura oficial, tão cara a você, (mesmo que ela tenha ou não a acolhido no instante de sua chegada a este Estado de forma legítima ou não), é porque ela, a cultura goiana oficial, é excludente.
Daí o clamor de Conceição Matos às massas. E a violência é o que faz negar o outro e sua origem, sua cultura e sua identidade. DAÍ GOIÁS - ASSIM COMO AS DEMAIS METRÓPOLES BRASILEIRAS – VIVER DA AUSÊNCIA DE DIREÇÃO, DE NORTE CULTURAL, POIS ESTÁ EMBASADA NA VIOLÊNCIA FÍSICA E SIMBÓLICA, ASSIM COMO ESSE ESPAÇO, QUE NEGA O DISSENSO E CELEBRA APENAS O CONSENSO. Pois, a identidade goiana que procuro assumir pra mim mesmo é aquela que se aproxima do reconhecimento dos vícios e das virtudes do passado do meu povo, da minha gente, e que, por meio deste reconhecimento, procuro agir em sintonia de mim mesmo e do outro (o meu semelhante), é claro, buscando equilíbrio das relações por meio do diálogo e da persuasão.
Isso também deve ser colocado, pois Goiás vive uma crise de identidade cultural muito forte, posto que os goianos marginalizados pela tirania da cultura oficial, tão defendida irrefletidamente por você, não se reconhecem na cultura celebrada pela minoria despótica, basta olhar pelas ruas, pelas comemorações culturais oficiais para vermos o quanto é vazio de significado e de sentido. A antropologia denuncia isso, a sociologia também e a história também não fica atrás. Fica aí o convite para você trazer para o debate mais substâncias, mais argumentos e menos espetáculo! Pois, o show tem que continuar, mas com brilho e dignidade! Despeço deste artigo parafraseando Hannah Arendt, que disse que há pessoas que viveram demais e compreenderam de menos.
É tudo!
Abraços e axé, darling,
Alexandre

Luiz de Aquino disse...

Alexandre,

Quando escrevi essa crônica, procurei apenas mostrar minha insatisfação ante a ironia refinada de uns tantos forasteiros que aqui aportam em busca de sobrevivência e não se cansam de buscar ridicularizar-nos. Não imaginava que o assunto iria render tanto. Enfim, mexi na ferida, pois.
Respeito a defesa que faz o Tiago, não só pela sua posição de filho da Conceição, que me escreveu sobre a crônica que já estava no ar - e, portanto, não vi caráter particular no comentário dela - como também pela dignidade com que me arguiu. Ele não tentou me ofender nem aos termos do que escrevi e do que ela, sua mãe, escreveu.
Você acusa os que aqui pronunciaram, considera-os desprovidos de leitura séria - e, por leitura séria, hei de entender a sua leitura, não a dos demais. E insere-me aí, certamente com propriedade, porque não sou dado mesmo ao que, parece-me, você chama de "leitura séria".
Acho também que Conceição não exerce esse tipo de leitura, já que confiou em minha má leitura e em meu mau hábito de não ouvir (disse ela) e permitiu-me conviver com seus alunos, ou seja, eu participei da deseducação de seus alunos, e aí ela se contradiz profissionalmente.
Achava, sim que éramos amigos, até me sentir alvo das ironias dela, do preconceito geográfico que busca exercer sem muitos cuidados.
Não defendo cultura elitista alguma, Sr. Alexandre, e considero totalmente injustificado o convite de Conceição para eu conhecer a periferia da minha cidade, esta em que vivo desde 1963. Fui professor em escolas da periferia, fui repórter policial e de cidade por longos anos, vivendo e convivendo com as periferias não só de Goiânia, como também de várias cidades do interior. Não estou aqui em defesa de nenhuma cultura erudita e discricionária, e você, sim, parece exercê-la. Não é meu proposto criar um ambiente de debate tal como você me sugere, e acho que lhe cabe bem cuidar disso, já que traz consigo a leitura que não tenho, essa tal de leitura séria, que também não me interessa (não sou seu aluno, nem seu orientando em cursos de pós graduação, logo isso não me vale como dever de casa).
Aos 64 anos, dos quais 47 em Goiânia, cansei de ouvir chacotas e comentários que têm o único propósito de ridicularizar-nos por causa do nosso modo de falar e de viver. Numa comunidade no Orkut - "Cariocas em Goiânia"- criticavam até o fato de gostarmos de "feijão marrom".
Conceição sempre foi tratada por mim com a dignidade que mereceu, até postar-se com o mesmo senso crítico contra goianos.
Meu espaço não é só meu, Alexandre, é também seu, como vê.
Agradeço seus cumprimentos e até mesmo a tentativa de ofensa no tratamento "darling", bem como o tom irônico indisfarçável (certamente, Conceição lhe falou da minha aversão a termos estrangeiros, especialmente os que nos remetem ao péssimo hábito da imitação barata).
Mas agradeço (e isso é muito sincero) o seu comentário, pois tanto eu quanto os leitores de pouca ou nenhuma leitura séria, aprendemos muito com você. E agradeço também a sua visita, ainda que sabendo que isso se deve ao propósito de fazer a defesa de Conceição - para mim, desnecessária, porque até o momento em que li seu artigo estava disposto mesmo a remover os comentários a ela atinentes, muito mais em atenção ao Tiago do que a ela ou a você.

Anônimo disse...

Eu sou goiana e nao falo nada desse "glossário de goiano"! E minha famìlia e amigos também nao! Será que sou goiana de outro planeta?rsrs...
Também nao sabia que a "miséria moral e espiritual" era "privilégio" de Goiânia!
????????????????????????

Quer saber: Goias é lindo, a Bahia é linda, Caetano é lindo, e o Brasil é maravilhoso com toda essa diversidade cultural e linguistica!

"Os preconceitos são a razão dos imbecis."(Voltaire)

Grande abraço, Luiz. Sei grande!

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, menina! Faltou assinar, né?

Luiz

Pat Chanely disse...

Somente hoje pude ler o texto "Só goiano entende" e acompanhar a discussão que foi gerada em torno dele. Sou cearense e vivo em Goiânia há quase 19 anos. Só queria lembrar aos forasteiros como eu que duas coisas fundamentais que precisamos cultivar pela terra que nos acolhe é entendimento e respeito. Sem contar que um dos traços principais da goianidade, parece-me, é justamente a modéstia, que não devemos confundir com complexo de inferioridade. Querer culpar a "cultura oficial goianiense" por todas as mazelas culturais do nosso (porque me sinto goiana) Estado também é infrutífero. Todos os lugares têm uma cultura oficial que exclui muitas manifestações autênticas de seu povo. Isso não é um mal exclusivamente nosso. Querer responsabilizar a vc, poeta, por um crime de exclusão cultural e, em última instância, social, por ter trazido à tona a discussão sobre o glossário goiano e por unir o público com o privado em seu blog, é, no mínimo, simplista e injusto. Não é culpa sua que a sociedade e a cultura (e não somente a goiana) sejam constituídas justamente pela contradição entre o individual e o coletivo, entre o erudito e o popular. Vejo isso como uma contigência, e não como uma arbitrariedade de alguns eleitos. Também não tem cabimento a prescrição no sentido de que o blog seja sempre um espaço para assuntos de interesse puramente coletivo.Gostaria de agradecer-lhe pela resistência e pela coragem, que são mesmo as de um poeta: mente, alma e coração (tudo "junto e misturado") a serviço não do "pensamento", mas de algo maior a que chamo vida,com tudo o que ela possa ter de conflitante. E que isso não seja entendido como uma sacralização ou "eleição" da figura do poeta. Falo de sua ousadia em falar do coletivo a partir do individual, que, a meu ver, é elemento ideológico da maior importância. Ademais, em tempos de 'reality show', já está mais que escancarada a tal da pretensa neutralidade.

Abraços!

Patrícia

Jacqueline Santana disse...

Olá Poeta... não dá pra deixar de comentar! Nasci em Goiânia, minha família de Goiás Velho, minha avó materna descendente de fanceses e.... nossa! Eu reintero o que falei anteriormente e depois que li o comentário desse senhor Alexandre, aí que fiquei intrigada: não é que o ser humano não quer saber mesmo do respeito e humildade! Gente "leitura séria"? Agora somos desprovidos disso porque lemos o seu blog e partilhamos de sua opinião nesse caso específico. Acho que Sr, Alexandre também entra na fila daqueles que não conseguem reconhecer quando erram e nem admitem o erro. Refiro-me a erro aqui não por expressar o que pensa, mas de não saber fazê-lo de maneira correta! Nossa... Amigo poeta, minha admiração por ter a coragem de colocar aqui essas reflexões pois elas nos ajudam a "ver" como as pessoas são... Aliás, Alexandre de quê?

Anônimo disse...

Eu recebi e tive muito prazer em repassar essa mensagem eletrônica. Até incluí muitos outros exemplos que conheço.
Quem não tem sotaque? Quem não tem expressões regionais.
Sua atitude foi de dor de cotovelo, por não ter feito o glossário antes do forasteiro.
Aproveite e faça um, com o falar de qualquer outro estado, se se sentiu tão ofendido. A mim não ofendeu, de modo algum. Serviu para fazer uma carinhosa propaganda do Estado de Goiás.

Luiz de Aquino disse...

Anônimo,

Não me ocorreu qualquer dor de cotovelo por não ter feito esse glossário. O que penso está dito aí. Não tenho nem tive, jamais, qualquer pretensão nesse sentido, acho que é uma bela iniciativa e há uns dez anos sugeri-a ao Goiamérico Felício, que é graduado em Letras e tem doutorado (agora, tem também pós doutorado) em Literatura. Ser dicionarista nunca foi meu propósito e aos que se interessarem em fazê-lo fica o meu estímulo, pois a área ainda é inexplorada.
Antes de tentar me ofender (não o conseguiu), identifique-se; aceito críticas, mas que venham assinadas porque o principal resultado é o meu crescimento, e por isso sou muito grato.

Maria Luiza Guimarães disse...

Boa noite,
Sou goiana, casada com um gaúcho, morando no Rio.
Aprendi nas minhas andanças Brasil afora e na convivência com marido, cunhados e amigos, que mais do que o sotaque, que é aquele jeitinho especial de falar que o povo das diversas regiões do país possuem,aprendi que as palavras ganham um sentido diferente na medida em que são usadas nesse ou naquele canto desse país de dimensões continentais. Na faculdade aprendi que a isso se dá o nome de variação linguística. E é essa variação que torna o nosso povo tão rico linguisticamente falando. Lembro-me do meu professor de linguística dando-nos o exemplo clássico da mandioca que é macaxeira no nordeste e aipim no sudeste. Lembro-me também de dicutir com meu marido o significado da palavra tacho: para ele, gaúcho, é um utensílio de guardar leite e para nós goianos, é utensílio usado na fabricação de doces...Mas essa variação não torna um povo deste ou daquele lugar mais ou menos culto, somos diferentes sim, e é por isso que temos, como disse acima, essa tão rica e diversificada linguagem.

Luiz de Aquino disse...

Maria Luiza,

Muito obrigado pelo rico comentário! Você, a exemplo dos que efetivamente se interessam pelo tema, compreende bem o processo linguístico, de que nossa nação é bastante rica.
Agradeço-lhe pelo comentário. Esta crônica tem, já, dois anos de publicada e se lhe despertou interesse é porque o assunto, de fato, não se esgota.
Seja bem-vinda! Se lhe convier, traga mais comentários...