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domingo, janeiro 24, 2010

Reviver o Centro et cetera


Reviver o Centro et cetera


Luiz de Aquino


Saudade das noites de sexta-feira banhadas a chorinho na calçada do Grande Hotel. Isso é saudade nova, mas já dói. Saudade do iluminado e colorido Centro de Goiânia, ao tempo em que as lojas mantinham à mostra suas vitrinas de tantas coisas, antes do advento dos xópins. Saudade de muita gente e até saudade de mim naqueles anos verdes de esperança e felizes ante tanta inocência.

De repente, o Brasil das maiores cidades começou a falar coisas comuns. Muitas coisas comum a todas, mas, para mim, a mais expressiva delas é a “revitalização do centro”. Isso vale para quase todas as capitais brasileiras e para um grande número de cidades de maior porte. É que os tais centros, núcleos pioneiros da formação urbana, esvaziaram para dar lugar à expansão dos comércios e serviços. As famílias foram morar longe.

Parênteses: alguns leitores virão dizer que, nestas linhas, exerço minha inegável nostalgia. Pode ser. Mas em lugar de massagear as lembranças como alguns atletas estimulam adrenalina, pretendo mesmo é propor soluções. Ou, ao menos, remendos duráveis (e, creio eu, saudáveis).

No meio desta semana, curti umas horas poucas em conversa solta com o amigo Luiz Ungarelli, goianiense nativo, dos tempos em que o Ateneu Dom Bosco ficava fora do asfalto. O bar, no Setor Oeste, é daqueles em que lamentamos apenas não haver um mar para completar a paisagem. E por sobre os telhados despontava, a uma distância de três minutos a pé, a solenidade de um edifício da Rua 85. Todo vazio, o prédio. Vazio de se pagar o IPTU à toa... E assim está há alguns anos.

Lembrei-lhe que no Centro da cidade, o nosso carinhoso Centro Histórico, muitas são as casas e até mesmo alguns grandes edifícios totalmente vazios. Vou citar apenas dois: a velha

sede do Banco do Estado de Goiás que, desde a aquisição do BEG pelo Banto Itaú, é ocupado apenas no espaço térreo, talvez a sobreloja e o subsolo. O outro, na Avenida Goiás com a Rua Dois, já foi a sede regional da Caixa Econômica Federal e encontra-se, há mais de dez anos, totalmente desocupado.

No meu entender, revitalizar o Centro equivale a reocupar espaços com moradias. E as noites, com atrações artísticas, trariam de volta o glamour de outras épocas. Se novas moradias houver no Centro, virão também lojas de subsistência. E havendo arte e entretenimento, as noites retomarão suas luzes e cores. E, havendo mais pessoas de bem, obviamente haverá mais segurança etc. e tal...

Ungarelli lembra que o poder público comete um equívoco ao buscar assentar famílias em locais remotos. Isso implica vias de acesso, rede de ônibus, de energia, de água e esgoto, escolas e postos de saúde e segurança. Sairia mais barato desapropriar alguns quarteirões centrais, estrategicamente escolhidos, e criar a ocupação familiar novamente em zona já estruturada.

Concordo: os colégios estaduais da região Central da cidade estão à míngua e com poucos alunos – até mesmo o tradicional e secular Lyceu tem pequena população estudantil e o Colégio Rui Brasil, no Setor Oeste, já foi fechado. Edifícios como os dois citados – o do antigo BEG e o da CEF – são perfeitamente adaptáveis para moradia de estudantes ou de casais sem filhos, por exemplo.

Uma coisa puxa outra e vem-nos à lembrança a Avenida T-8, ou melhor, a passagem sobre o Córrego Vaca Brava. Naquele ponto, que une o Setor Bueno ao Jardim América, as pistas se estreitam e a avenida se torna perigosa e feia. As propriedades junto à passagem bem podem ser desapropriadas parcialmente, apenas na medida do alargamento das pistas sobre o córrego, abrigando também a calçada para pedestres. Isso se faz sem desembolso, negociando-se o gabarito de construção (a administração municipal tem toda informação e poder necessários para isso), sem prejuízo para os proprietários. O resultado será a valorização dos referidos imóveis.

Nestes tempos em que a frota de veículos aumentou assustadoramente, nesta cidade em que o sistema de transporte público deixa muito a desejar (até porque, parece-nos, escapa em grande parte da competência da municipalidade, com o envolvimento do poder estadual e as decisões da iniciativa privada), muito há que se fazer para se evitar o deslocamento de pessoas, e viver no centro facilitaria muito esse esforço. E não nos esqueçamos de que alguns dos nossos córregos, como o Botafogo (além dele, expande-se muito rapidamente o Jardim Goiás), o Capim Puba, Cascavel e o Vaca Brava, como exemplos, exigem mais pontes.

Espero eu, e comigo não só os goianienses, mas toda a comunidade da região metropolitana, que possamos, brevemente, voltar a curtir o chorinho, o samba, a bossa-nova e riquíssima MPB goianiense nas calçadas e casas de xous do Centro (viva o Goiânia Ouro!). E o futuro agradecerá, certamente!



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com).

18 comentários:

Noemi disse...

É com razão que o autor fala da depreciação do Centro da capital, mas, não é só Goiânia que tem esse des-privilégio,e sim, quase todas as capitais. Centro de cidade virou sinônimo de comércio barato, lojas de 1,99, cheias de bugingangas e porcarias inúteis, que viram lixo rapidinho e vão entulhar o Aterro Sanitário. No centro se vê lojas populares que serve as populações menos favorecidas dos bairros periféricos de Goiânia. Isto se deve ao sistema de transporte público a preços acessíveis(Eixo Anguera), e as grandes chamadas de marketing das lojas direcionadas as classes C,D e E, com preços pra lá de bom, quase de graça e prestações a sumir de vista, parece até financiamnto de casa própria. Mas,graças a estas estrtégias, a população carente está tendo acesso a produtos que lhes oferecm mais conforto e "status" de novo rico. Quanto ao resgate cultural várias tentativas estão sendo feitas, como o chorinho no final de tarde na porta do Grande Hotel, o Goiânia Ouro, apresentações culturais na rua do lazer, etc. O que falta é cultura de um povo não habituado a valorizar tais atitudes. Assim se vai re-vivendo o centro, no centro.

José Carlos Barbosa disse...

Gostei, e muito, Luiz.

Zé Carlos

Luciene Silva disse...

Luiz,

Infelizmente esta revitalização dita, pedida e aclamada por nós saudosistas, a cada dia parece mais uma utopia.
Hoje os xópins nos dão segurança, ar condicionado, mas não nos dá o gostoso gostinho da liberdade, estamos tão seguros dentro dos xópins que ficamos engessados, limitados a sentar, andar e comprar... Principalmente COMPRAR... Nos poucos eventos musicais dentro dos caixotões, não se vê ninguém levantar e puxar a companheira pra uma dança de rostinho colado... eu gostava disso.
Sinto saudades de andar pelas ruas de Anápolis, reencontrar amigos passeando com os filhos, hoje raramente os encontro nas ruas, e quando reencontro, agora, só passeiam com cachorrinhos mimados deixando cocôs pelas calçadas.



Luciene Silva

Mara Narciso disse...

Pareceu-me uma ideia possível e executável. Quando o poder público some, como é o caso dos centros abandonados quando o sol se põe, a droga faz seu pouso. A volta das famílias para um local onde há a melhor infraestrutura da cidade, abre um leque de pssibilidades, atraindo o tipo de pessoas que interessa ao município. Vale a pena bater nessa tecla sempre. Muitos de nós passamos pelo mesmo problema em nossas cidades. Adiante, Luiz!

Mariana Galizi disse...

Parece que este tipo de revitalização deve ser feito de dentro para fora (da consciência dos mandantes), não é?
Porque quando vemos nossas capitais se destruindo por seu crescimento desordenado e outros fatores, percebemos que o investimento em cultura e espaços que possibilitem o conhecimento humano é inviável.
Hoje os espaçoes públicos se aproximam mais de ciberespaços do que na verdade o são.
Puxa vida viu, aqui próximo ao meu bairro um botequim cultural ainda insiste no chorinho típico de segunda-feira, mas ele é um sobrevivente que teima em aproximar pessoas e a trazer um pouco de sensibilidade e poesia onde nos cercam de concreto.

Luiz Antônio Ungarelli disse...

Caro Xará,


Li e achei formidável, fantástica.
Pode fazer centenas dessas que são ótimas e, com certeza acabaram surtindo seus efeitos.
Parabéns.
Ah!!! obrigado por ter citado meu nome.
Outra coisa, pode sempre mandá-las para mim que ficarei agradecido.


Grande abraço.

Luiz Antônio Ungarelli.

Maria Luiza de Carvalho disse...

Caro poeta!
Sempre com idéias inovadoras! (Precisamos resgatar a história, não é só nostalgia).
As saudades nós aproveitamos para não nos permitir o abandono da memória e fazermos dela o fermento, para lutarmos por melhores dias de vida!Lazer é fundamental...

Espero sim, que possamos ter mais espaços para encontros intimistas com a manifestação da arte.
Acredito nas mudanças pela mobilização popular!
Assim, levarei sua crônica para as minhas pacientes, alunas e alunos.
A verdadeira sensibilização vai ocorrendo aos poucos.
Por hora vamos ficando com o CINE OURO no Centro e ainda a Feira do Cerrado... (Uma ótima opção para escutar uma boa música (M.P. B) aos domingos pela manhã).
Parabéns!
A comunidade de Goiânia te agradece.
Afetivamente,

Malu

Iracema disse...

Luiz, fazendo eco ao seu "Reviver o Centro et cetera", segue abaixo meu "Nostalgia":

Nostalgia
Sigo em frente.
Vejo um sinal.
Uma nostalgia!
Fico nela
indefinidamente valsando.
Arrastando sonhos.
Me despojo.
Me resguardo.
Me inebrio...
Para mim não há ontem.
Não haverá amanhã.
Há apenas o momento.
Apenas o agora!
Sigo.
Prossigo.
Persisto.
Amo.

Iracema disse...

Luiz, posso fazer uma pequena observação? Quando você copiar o texto para seu blog, por favor retire a expressão: "Escreve aos sábados nesse espaço". Pois a mesma se refere apenas ao jornal onde o texto foi publicado. Confere?

Continue escrevendo porque leitores você tem. E muitos. Sou um deles.

Luiz de Aquino disse...

Iracema, muito obrigado pela lembrança... Cuido de remover isso aí, mas às vezes me esqueço (e, convenhamos, fica muito feio, rsrs).

Wanda disse...

Luiz,
Você, como sempre, preocupado com nossa cidade. Gosto disso! Suas ideias são ótimas. Quem dera pudessem se realizar... Torcida aqui não falta.
Beijos!

Wanda

Sonia Marise disse...

Que oportunas suas considerações! Saudade...quem não tem, não é? Nostalgia, saudade da gente mesmo, eu também tenho e nunca tinha lido alguém admitindo isso.
Hoje amanheci com saudade daquela vidinha de interior, da genuína simplicidade das pessoas que vivem nas cidades pequenas, daquelas mais simples ainda que moram na roça...e sabem tanto! Daí , fomos, minha mãe e eu. à Matriz de Campinas para curtir Folia de Reis! Foi uma beleza! Assistimos à missa das 7 e a algumas apresentações de folias daqui e do interior. Foi imersão mesmo! Conheci tanta gente interessante... Até convite eu recebi para integrar uma delas ..rs rs rs. Tô pensando seriamente....rs sr. Não toco rabeca, nem acordeon, nem zabumba, mas o surdo e o pandeiro, sei não... eu tenho um pandeiro, moço! Là não tem lugar para órgão...
Também descobri que dou conta de ser "Embaixadora" ou "Capitã", aquela que puxa a música, chegando lá no tal ponto... rs rs rs.
Um barato! Foi um domingo diferente. Agradável, saudoso... Minha mãe precisava de fazer uma pesquisa para enriquecer o tabalho dela - é pintora- e está fazendo umas telas que remetem às folias na roça, festas juninas , esssas coisas. Juntamos o útil ao agradável. Chato lá foi encontrar aquela gente oportunista , políticos (um deles bordejou rápido, leu um trecho na missa, mas estava no contexto), uns outros baba-ovos, uns prováveis folcloristas ect., umas senhoras formais, outra representando alguém, o secretário Kleber Adorno... Ah, havia também um povo chato entregando papelzinho de político tipo prestação de contas, santinho... um porre! No mais, me agradou.

Maria José Lindgren Alves disse...

Caro Luiz
Só assim, fico conhecendo um pouco mais de Goiânia.
Um grande abraço e vivam as revitalizações de bom gosot, porque aqui no Rio impera o mau gosto.
Bjos
Maria

Luiz de Aquino disse...

Maria José, não é bem assim. O que expus aqui é uma proposta, mas o que se fez, até agora, é coisa mínima. Coisas como o Goiânia Ouro (o velho cinema que foi dividido em vários ambientes - cinema, teatro e bar), o aproveitamento noturno do Mercado Popular, onde há xous de música todas as noites e o Grande Hotel, com a sexta de chorinho (infelizmente, desativada). E ficamos quase que só nisso.
O que proponho é o poder público intervir para transformar grandes edifícios abandonados em moradias para estudantes e pequenas famílias, além de edificar condomínios habitacionais no velho centro.
Um beijo, muito obrigado!

Sinesio Dias de Oliveira disse...

"Oh que saudades eu tenho da aurora da minha vida
da infância querida que os anos não trazem mais."

Around The World disse...

Olaaa Luiz De Aquino...
Mto lindo seu p[oema e acho seu blog incrivel e inspirador....
Estou estudando Jornalismo nos Eua...
Sou de Florianopolis - Santa Catarina
Gostaria de manter contato
adicionei seu blog no meu!
Abracos de mais um leitor seu adquirido,
Rafael Martins

Around The World disse...

SaudadeS?
Saudades tenho eu de Floripa e quando ai morava mto notava como nao damos valor ao paraiso em que vivemos
vivendo aqui longe do meu pais e da minha ilhota querrida, aprendo e entendo o quanto a amo.
Saudades do meu lar... minha familia e amigos... SAUDADES!
obrigado pelo momento compartilhado ;)
Rafael Martins

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, Rafael Martins!

Olha, vamos, sim manter este canal de correspondência! Meu e-mail é poetaluizdeaquino@gmail.com e gostarei de saber notícias suas.

Abraços,

Luiz