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quinta-feira, agosto 19, 2010

Chorinho e civilidade


Chorinho e civilidade



Eu e a cantora Karine Serrano no calçadão do Grande Hotel





Era 1984 e o Brasil se agitava: queríamos as “diretas, já!”, que algum redator publicitário achou lindo divulgar sem pontuação: Diretas já. Para mim, a grafia não passava a emoção que o momento espalhava, mas… Certa noite, como repórter da Folha de Goiás, fui cobrir um movimento no centro de Goiânia; um secretário da Comunicação do governo estadual e seu chefe de gabinete colavam cartazes no coreto da Praça Cívica. Disse eu ao chefe de gabinete que deviam poupar os prédios e monumentos públicos, que aquilo parecia coisa de vândalos. O homem, orgulhoso de ser da esquerda, respondeu-me enfático:

- Aquino (não gosto de ser chamado pelo sobrenome, mas uns poucos ainda insistem nisso), democracia é isso, é tudo sujo. Cidade limpa é do facismo, não vê nos filmes? Berlim...

- Kremlin... – acrescentei.

Sexta-feira, 13 de agosto, calçadão do Grande Hotel: o secretário Kleber Adorno cumpria uma promessa feita a mim e muitos outros “chorões”, levando de volta as rodas de instrumental e vozes de finíssima música popular. Em pouco, o trecho entre a Rua Três e a extinta Praça do Bandeirante era todo tomado pelos sons de harmonia e doçura, além de centenas de pessoas. Um moço cuidava de uma caixa de isopor e aproximei-me, queria uma latinha, já trazia cinco reais na mão. O rapaz respondeu-me que era de “uso particular” e agradeci, pedindo desculpas. Ao me voltar, deparo-me com a candidata que prega democracia mas tenta censurar jornais, como Chávez faz na Venezuela. A moça, que usa a mesma sigla do chefe de gabinete do evento de 1984, acabou de tomar uma cerveja e, sem qualquer cuidado, jogou a lata no chão. E quer ser governadora.

Deixo tudo pra lá. Atravesso a pista, paro no canteiro central onde, na década de 1970, reuniam-se intelectuais diante do Grande Hotel. Olho a parede térrea, recordo as inúmeras lojas instaladas: a Vasp, duas filiais da livraria do Paulo Araújo, a agência de turismo do Valdir Frausino, o “Enroladinho”...

Diante das lembranças, nenhum lugar seria mais apropriado para curtirmos chorinho. Talvez a gente consiga, em breve, realizar retretas no citado Coreto. Lembro os tempos de tantos sonhos, as conversas com João Batista Zacariotti, Carmo Bernardes, Aidenor, Brasigóis e tantos, tantos mais; no final daquele década, Taylor Oriente voltou de Paris e uniu-se ao grupo. Roberto Fleury Curado e eu preparávamo-nos para estrear em livro.




Por falar em livro, já notaram que algumas vezes ganhamos mais de um exemplar do mesmo livro, ofertado pelo autor, com autógrafo? O carinho é retribuído não só pelo retorno de algum exemplar de obra nossa, mas pelo ato de preservamos o livro,que se faz personalizado, na estante. Recentemente, Leda Selma dizia que a estante lhe ficava pequena e os livros em duplicata ocupam lugar que poderia abrigar outra obra. Estiquei o assunto com amigos escribas e leitores, todos pensam da mesma forma e quase todos indagam:

-  Fazer o quê? Não vamos abandonar um livro nem menosprezar o autor por um lapso perdoável de memória.



Bem, nem todos os escritores têm esse comportamento. Aprendi com Anatole Ramos e, por longo tempo, visitava sebos e manuseava livros de autores conhecidos. Encontrei dezenas, centenas até, de obras autografadas, com dedicatórias carinhosas que algumas pessoas desprezavam. Da minha própria lavra, comprei dezenas de exemplares. Mas comprei também autógrafos de autores amigos; presenteava-os com tais livros, mostrando-lhes os leitores que não davam valor ao autógrafo. Leda Selma, ela própria, publicou uma crônica, em 1992, desancando um escriba local que vendeu, num sebo, livros que ela lhe dera dias antes. O poeta perdeu a eleição para vereador e adotou uma nova técnica: passa o estilete na página com autógrafo e continua a vender os livros que ganha – assim, não precisa de mais espaço em casa, mantendo sua biblioteca com menos de mil exemplares.

Relíquia: autógrafo de José J. Veiga


Um outro amigo, escritor, disse-me ter solucionado a questão das dedicatória dobradas:

- Se tenho livro repetido, recorto a página de autografo, guardo-a dentro do livro que contém a data mais antiga e presenteio algum amigo. Assim, preservo a honraria e ajudo o autor a divulgar seu trabalho.


 
Doracino Naves, Marley C. Leite e Kléber Adorno


Volto ao Grande Hotel (que, agora, é nosso, é da cidade) e mando beijos para a Márcia e a Marley, duas ferrenhas defensoras daquele festival de choro e de saudade.


* * *



 Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.  E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. 

10 comentários:

Bellestela disse...

Adorei sua crônica
abraços

Romildo Guerrante disse...

Luiz, que delícia deve ser o chorinho por ali. Mas o Grande Hotel ainda existe? E por que "é nosso"? Você cita tanta gente com quem convivi quando passei por aí, Taylor Oriente, por exemplo, a quem nunca mais vi. Pode ter certeza que eu vou a Goiânia sópra curtir essa farra (e ajudar você a chamar a atenção desses "mudernos" que jogam latinhas de cerveja na rua...)

Mara Narciso disse...

Não sei foi partindo de você, Luiz, mas estava incipiente uma campanha de estímulo de leitura de autores conhecidos que apenas trocavam livros, mas não liam o colega. Não sei se vingou. E ainda, mesmo os ilustrados cometem grosserias imperdoáveis, como essa de vender presentes não lidos aos sebos, e ainda essa futura governadora jogar lixo no chão. Uma vergonha nacional. Fez bem em apontar o erro dela. Escreveu, então o reflexo foi pior, mas poderia ter-lhe puxado as orelhas de forma verbal. Eu não me conteria.

Marilia Núbile disse...

Divina, esta crônica! Você sempre habilíssimo a nos brindar com preciosas informações saudosistas. Hoje você também nos leva a um minuto de reflexões sobre às posturas pouco civilizadas e incultas de nossos pares...Ainda bem, que o Chorinho ameniza muitas mazelas.
Um Abraço,
Marília Núbile

reny cruvinel disse...

Não pode te chamar de Aquino? Então, tá. Fala aí, Bróder... Ô Luiz, muito legal ler seus textos aqui, assim como é ótimo revê-lo sempre nas atividades culturais por aí. Que ignorância a dessa moça que jogou lata de cerveja no chão. Tem que meter a boca no trombone mesmo. Abraço. Reny Cruvinel

KARINE SERRANO disse...

Vou te falar, viu? O chão some dos meus pés... Essa calçada é a tradução do puro esplendor musical! Adoro cantar ali... amo estar com pessoas que enxergam poesia na melodia! E como explicar isso? "enxergar" de ver mesmo, a poesia... será que as letrinhas ficam pulando na frente dos olhos do Luiz??? obrigada pelo carinho!

KARINE SERRANO disse...

Vou te falar, viu? O chão some dos meus pés... Essa calçada é a tradução do puro esplendor musical! Adoro cantar ali... amo estar com pessoas que enxergam poesia na melodia! E como explicar isso? "enxergar" de ver mesmo, a poesia... será que as letrinhas ficam pulando na frente dos olhos do Luiz??? obrigada pelo carinho!

juliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
juliana disse...

A postura crítica e a sensibilidade poética são partes indivisíveis da boa literatura. Parabéns, Luiz.Seu trabalho engrandece ainda mais as artes literárias.
Juliana

Mayrant Gallo disse...

Bom texto, este. Ótimas colocações e sugestões. Gostei do seu blog. Congratulações!