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sexta-feira, agosto 06, 2010

Sarau, seresta e o amanhã


Sarau, seresta e o amanhã


Estatueta de Israel de Aquino Alves  por Regina Massinha


Tudo indica que os saraus mensais em Pirenópolis chegaram para ficar. Primeiro, foi a homenagem a Pérsio Forzani, artista plástico, em vésperas de completar 80 anos; depois, no último dia 30 de julho, outra festa, no mesmo local (o Teatro Pirenópolis), em torno do aniversário de meu pai, Israel de Aquino Alves, pelos seus 88 anos.

De Pérsio eu contei ao seu tempo (há cerca de um mês). Agora, conto da festa em torno de meu pai. Zezé Catirina e Luiz Antônio (Godinho) exigiram que ele estivesse em Pirenópolis uns dias antes, queriam ensaiar com ele. Então, levei-o até lá na antevéspera e ele cuidou de levar dois bandolins, preferindo o mais antigo – um banjo-bandolim que lhe deu de presente o saudoso amigo José Pinto Neto e que hoje está em minha posse. “É mais macio”, explicou meu pai. Está certo: as juntas das mãos já não são tão obedientes e a pele, nessa idade, torna-se muito fina.

 
A banda Zezé, Luiz Antônio, Jerônimo, Israel, Fernadno e Sérgio. De pé, L.deA.

Sérgio de Almeida Prado, flautista paulistano que escolheu viver em Pirenópolis; o moço Jerônimo, neto de China Forzani, exímio ao violão e ao bandolim,  entre outros instrumentos; o já citado Luiz Antônio (violão e voz) e Zezé Catirina, mais a participação do clarinetista Fernando (de Jaraguá) completaram o conjunto de choro. Meu pai uniu-se a eles, com o indefectível bandolim que executa desde 1942.


Fizeram-me cerimonialista. Selecionei dois poemas para homenagear meu pai. Na platéia, o pastor Lourival e seu filho Nivaldo Melo (prefeito da cidade e nosso anfitrião nessa homenagem), além do secretário de Cultura, o professor Gedson de Oliveira. Pela família, estávamos ali alguns irmãos do meu Vêi Raé; Eliane, minha irmã, chegou com o marido José Samuel e a filha Tatiany. 


Prefeito Nivaldo Melo e secretário Gedson de Oliveira

Consegui levar todos os meus filhos e netos e ainda as amigas Regina Jardim e Guiomar. A meu pedido, Regina subiu ao palco e mostrou sua belíssima voz, interpretando o Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha (inegavelmente, o Hino Nacional da Alma Brasileira). Ah!, acompanharam-nos também meus compadres Cláudia e Nelinho, com filhos e noras.

 Cantora Regina Jardim 

Depois, no Entroncamento Cultural (o espaço para eventos ao ar livre no quintal comum do Teatro e do Cinema de Pirenópolis), tivemos a prosa alongada, inevitável quando se trata de um encontro em Pirenópolis. Claro: qualquer encontro em Pirenópolis é um encontro de família.

 
Meu querido velho e o bandolim sexagenário

Agora, quando agosto já absorve metade da sua primeira semana, entendo que passa da hora de me voltar para o próximo sarau, este previsto para o dia 20 de agosto, data de centenário do inesquecível Professor Joaquim Gomes Filho, uma das mais finas inteligências já vistas nesta terra de notáveis.
Tarde de sábado, do alto da ponte observo as águas do Rio das Almas. Lembro Heráclito e sua anotação de que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque a cada instante o rio não é mais o mesmo. Nem o homem é o mesmo no instante seguinte.

Cachoeira no rio das Almas, em Pirenópolis

Assim também são os dias, marca mais notável do tempo. A “sabedoria popular” dizia, décadas ou séculos passados: “Nada como um dia após o outro”, e esse jargão virou letra de samba. Os jovens de dez anos atrás já traduziam: “A fila anda”. Subo ao Largo do Rosário, vejo aquele coreto e penso em sugerir ao prefeito que busque reformá-lo, dar à peça símbolo das cidades de retretas uma construção mais ao estilo. E que possamos nele realizar as tais retretas dos velhos tempos. Logicamente, com jovens músicos, como Jerônimo e tantos outros, pouco mais velhos e mais jovens, até meninos e velhos, porque Pirenópolis, como toda cidade, como as sociedades de qualquer tempo, se fazem assim. E com canções antigas, com chorinho, com samba, com MPB, com rock e riperrope, que um rio carrega de tudo, que o tempo nos dá sempre suas somas.

 Momento sempre feliz: eu e Raé.

O que não podemos, jamais, é descuidar-nos do futuro. Nem esquecer o passado: somos frutos deste e construtores daquele. É recordando o avô, reverenciando o pai, dando as mãos aos filhos e admirando os netos que vivo.
É assim que vivemos.



* * *



Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.  

E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.



17 comentários:

CHÃO LIVRE disse...

Parabéns, pela crônica, pelo momento não só vivido como proporciondo. Verdadeiras preciosidades de inestimáveis valor. E bota valor nisso. Grande abraço da filha da Célia e bisneta de Zeca Batista. Cristiane Arantes

Osair de Sousa Manassan disse...

Linda Crônica, amigo! Deu saudades do que não vivi, invejas do que não assisti. Me fez lembrar do nosso último sarau no Aroeira, quando foi homenageado o nosso grande escritor J. J. Veiga.
Se puder, ficaria imensamente feliz em comparecer ao sarau do dia 20. Afinal, não é sempre que a gente tem reunidos: literatura, música, pessoas inteligentes e, ainda, no palco aconchegante chamado Pirenópolis.
Abraços afetuosos.

Bellestela disse...

Linda a homenagem e sua frase: É recordando o avô, reverenciando o pai, dando as mãos aos filhos e admirando os netos que vivo.diz tudo.
abraço
Marystela

Silvana Guimarães (BH, MG) disse...

Que beleza, Luiz, ele toca bandolim, como minha avó, que era canhota e tocava também, ao contrário. ;-)

Muita saúde e felicidade para o seu pai.

Um beijo!

Silvana Guimarães

Sônia Marise Teixeira disse...

Que lindo! Parabéns pra você, para o seu Raé...pra todo mundo....E pensar que o meu pai, também músico( regia e tocava violino e clarinete) se foi com apenas 48 anos! E eu já tinha 24! Deve ter sido uma fetsa bonita essa sua.
Um dia eu ainda pareço num sarau desses....rs rs rs..Apareço, não, que eu não sou assombração: vou!
bj

Wanda disse...

Ah, que bacana, Luiz!
Seu pai é um amorzinho, você sabe que eu adoreiii conhecê-lo. Que linda a festa.
Muita saúde e alegrias para o Sr.Israel.
E que bela crônica, meu amigo. Finalizou lindamente.
Beijo.

Mara Narciso disse...

Só podemos reverenciar um músico desse quilate, dessa tradição, como também a sua homenagem a ele. Só pode sentir orgulho de cerimoniar tal evento, como também de celebrar tantos anos de vida. A minha mãe viveu vinte anos a menos. Você é um privilegiado.
Parabéns a ambos!

Neusinha Gedoz (RS) disse...

Luiz, que festa hein?

Com um pai desses, você só podia ter saído um fotógrafo, um poeta, um escritor, um iluminado.

Parabéns pela coordenação que você fez em torno do aniversário de seu pai.

Abraço.

Madalena Barranco disse...

Luiz, meu querido, o rosto de seu pai é sereno, mas, mesmo assim, lembra sua agitação de filho poeta.

Que linda festa! Parabéns ao seu paizinho.

Beijos, Madalena

Maria Helena Chein disse...

Primeiro, parabéns ao seu querido pai pelos 88 anos. E pelas músicas
que interpreta, pela alma de artista que o torna uma pessoa mais especial ainda.
Ótima crônica que nos põe em contato com tanta informação necessária.

Também estou em festas de família: casamento belo, ontem, sexta; aniversário da primeira
neta, hoje (Renata); aniversário de outra neta, segunda-feira, Vívian. Muita gente de Belo
Horizonte e aí já viu, é almoço, jantar, café e muita conversa boa.

Lu, um abraço por suas atividades literárias, seu gosto profundo pela arte e pela cultura.
Gosto muito de você.

Beijos.
Maria Helena

Regina Jardim disse...

Que lindo, meu querido amigo! Deus, em sua infinita bondade, soberanamente justo nos oferece tamanha alegria! Seu Querido paizinho ficou deslumbrante! Mora no meu coração! Estou feliz e agradecida. Obrigada pela sua amizade, querido, assim como de sua linda família, na qual estou apaixonada!! Amigos são para semrpe!
Beijos!

Adriano Curado disse...

Amigo Luiz,

Por que não me convidou para o sarau em homenagem ao seu pai? Quando li que iriam homenageá-lo, creio que numa crônica passada sua, achei que fosse uma festa privada, aqui em Goiânia. Levei um susto ao ler sua crônica de domingo passado e descobrir que aconteceu em Pirenópolis, ao estilo da linda homenagem feita para o Pércio. Se soubesse do sarau para seu pai, teria ido prestigiá-lo.

Ainda a respeito da crônica, você descreve muito bem a cidade de Pirenópolis, e prova que ela é a mesma, embora seja tão diferente. Pode até ser que o avanço do progresso tenha modificado suas ruas e casarões, que a população tenha assimilado os modismos dos “de fora”.

É pode ser.

Mas o espírito da terra prevalece. Se prestar atenção verá que o braseiro cultural é perpétuo, e embora pareça apagado em algumas ocasiões, basta um leve sopro para que incendeie a tocha da inspiração e levante fabulosas labaredas ao infinito. Os saraus de ontem são os mesmos de hoje e por certo persistirão pelos séculos adiante. Só mudam mesmo as personagens.

Parabéns pelo pai que tem, pela família tão querida e, principalmente, pela poesia que espalha nesta Terra de tantas tristezas.

Abraços,

Adriano Curado

Tetê Lacerda disse...

Querido Luiz :
Obrigada por enviar esta matéria sobre o aniversário de tio Israel . Foi uma festa muito bonita, tenho certeza. O tio está com uma ótima aparência! Fazia muito tempo que não via imagem dele.Transmita a êle os meus abraços e beijos. , que vão para v. também.

Teresa

Marília Núbile disse...

Que exagero de beleza!!!!!
Essa crônica saiu lá do "miolinho" do coração....
Parabéns pelo filho e pai devotado que você é!!!!
Fortíssimo abraço,
Marília Núbile.

Guiomar Auri Silva disse...

Luiz, eu nos meus "poucos" 51 anos de idade, tive o privilégio de ter ouvido serenatas,saraus por volta dos finais dos anos 60 na minha querida cidade de Aurilândia. Eu era criança e só ouvia. Mas hoje sei o efeito que isso causou em minha vida.
Obrigado por ter me presenteado com o aniversário do vozinho Rael.
Ano que vem to dentro! bj Guiomar

José Maria Alves disse...

Olá, tudo bem?
Cheguei até seu blog via orkut, por meio de Sandra Bianchi. Aliás, tenho que agradecê-la a indicação.
Chegando aqui, encontro amigas como Aliene Coutinho e Madalena Barranco. Mundo pequeno este nosso.
Bom... já coloquei o blog entre os meus favoritos. Voltarei.
Um grande abraço

Luiz de Aquino disse...

José Maria, também me alegro por compartilharmos amizades tão ricas! Respondo-lhe com uma frase que me disseram, há algum tempo, sobre isso de acharmos o mundo pequeno: "Não é o mundo que é pequeno; o seu mundo é que é grande".

Abraços! É muito bem-vindo!