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quinta-feira, outubro 14, 2010

Após o aborto...


Após o aborto...


Na primeira quinzena de junho deste 2010, escrevi neste espaço sob o título “Educação, aborto e economia” (no meu blog, essa crônica está em http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com/search?q=aborto; no Diário da Manhã, é da edição de 6 de junho de 2010, página 6 do DMRevista).

São temas bastante complexos, atraem opiniões conflitantes; mas é neste tempo, neste mundo e especialmente neste país que eu vivo. “Quem foge da luta nem da morte é digno”, escreveram na parede do Grêmio Literário Félix de Bulhões, no velho Liceu, naquele remoto 1963.  O verso de Castro Alves certamente ecoa na alma de sexagenários liceanos; não de todos, porque, mesmo no tradicional e eficaz Liceu dos meus tempos, havia os que liam mas não entendiam.

Não posso ser favorável ao aborto – afinal, eu estou aqui, não é? E sobre aqueles que, parece-me, só fazem o mal, quem adivinharia que se tornariam pessoas abjetas? Além do mais, até mesmo Átila, o huno, e Hitler, o ariano, eram peças do jogo de xadrez de Deus.

Existe, no Brasil, uma defesa aloucada do aborto sob o pretexto de que o corpo é da mulher, logo ela tem o direito de fazer o que bem entende. Respondo que pode, sim, desde que arque, ela própria, com os custos de seu livre arbítrio; quando essa “liberdade” compromete dinheiro e aparelho públicos,  passa a ser uma questão política.

O mesmo vale para os atrevidos do volante: se acham que podem dar às suas máquinas o embalo que bem entendem, cuidem de fazer isso sem causar prejuízos nem riscos físicos e emocionais a terceiros, e que também não usem recursos públicos, seja a rede de saúde, sejam as verbas que acabam mal gastas, quando aplicadas para socorrê-los.

Na manhã de quinta-feira, 14, quando o mundo ainda delirava com o excelente êxito do resgate dos trinta e três mineiros do Chile, vi o final de uma entrevista por Alexandre Garcia com a pediatra Luciana Fhebo,  coordenadora da Unicef  para os Estados de Rio de Janeiro e Espírito Santo, e com o promotor Luciano Medina, com larga atuação na área de proteção à infância e à juventude. Gostei, particularmente, de quando o jovem promotor disse ser contrário à redução da maioridade penal: ele resumiu razões e me convenceu. Quero destacar que os defensores dessa medida jamais imaginam seus meninos envolvidos em crimes, como aquele caso recente de Santa Catarina, lembram? Foi este ano...

A médica, por sua vez, rejeitou a definição “gravidez indesejada”. Ela demonstrou que não é por gravidez indesejada que os abortos acontecem, e destacou que os adolescentes (alvo maior de tais discussões) sabem muito bem como não engravidar e como proteger-se de doenças sexuais. Eles desejam a gravidez, e por vários motivos: buscar uma razão para viver, constituir uma família, prender-se ao parceiro etc. e mais etc. O aborto, quando provocado, se dá por razões não consideradas antes – medo da reação da família, carência material, abandono pelo parceiro e outros etc.

Tudo bem, ainda não chegamos ao ponto. E a esse ponto, quem me traz é o Lucas, meu filho de 15 anos, estudante do segundo ano do ensino médio (eu teimo em repetir colegial!).:

- O problema, pai – lá vem ele, meio didático – não é o aborto em si, mas o pós.

Está certo! Vejamos: suicídio é crime? Parece que não. Não sei de alguém, no Brasil, punido por tentar o suicídio, e essa prática é, a rigor, tentativa de homicídio. No caso de sobreviver, o sujeito é conduzido por viatura pública para hospital público e tratado com recursos públicos, pois a pessoa que atenta contra a própria vida já está, por si só, punida (há países que salvam o quase-suicida e depois, condenam-no).

Entendo que o mesmo se dá quanto ao aborto. Quem escolhe abortar, sujeita-se, quase sempre, a riscos da própria vida e tem medo, depois, de buscar socorro e ser incriminada. Em qualquer hipótese, e antes de ter a vida em risco, a menina ou mulher há de ser tratada em estabelecimento apropriado. É o mínimo que se pode fazer, em termos de políticas públicas,  por quem entrou em tal estado de desespero.

No mais, aos que defendem o aborto como iniciativa da liberdade pessoal, deixo só uma pergunta: não seria muito mais fácil usar um preservativo? Ah, é ruim? Mas existem outros meios, sem perda do prazer. Por que não experimentam?


* * *



Luiz de Aquino é 
membro da Academia Goiana de Letras
(poetaluizdeaquino@gmail.com) .



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.

6 comentários:

Lílian Maial disse...

Querido,

Creio que haja um equívoco: nenhuma mulher gosta ouquer abortar por prazer, por diversão, por opção. Quando acontece, é por desespero, seja lá qual a razão. Ninguém incentiva ou é a favor do aborto. O que se quer é a descriminalização do ato. E sabe pq? Pq o Brasil todo faz aborto em clínicas confortáveis e clandestinas, onde a polícia (que sabe onde ficam todas as clínicas), por alguma razão não aparece, só eventualmente. Se é crime, pq não prendem as mulheres emeninas de classe média e classe alta? Pq só as mulheres e meninas pobres e miseráveis precisam se valer de curiosas ou d etales de mamona, cabides retorcidos e outras barbaridades maiores? Os que sãocontrários ao atendimento público para vítimas de aborto são os mesmos que se negam a dar anestesia para parturientes, dizendo que "na hora de fazer não gritaram, né?" Esse é o Brasil hipócrita, que sabe de tudo por baixo dos panos e nada faz, mas que empunha bandeiras insensatas. Desculpe-me, mas este assunto me toca em particular, pq estou cansada de ver meninas morrendo ou se tornando doentes e estéreis, como resultado de perfurações uterinas e coisas no gênero.Só as pobres.
Mais uma vez perdoe-me, adoro vc!
Lílian

Luiz de Aquino disse...

Querida Lílian,

Concordo com você e só não entendo a razão de me pedir desculpas. É aí mesmo que quero chegar: se mulheres carentes - meninas ou adultas - submetem-se a abortos em condições precárias é justamente por total falta de assistência (a pediatra do programa de hoje, pela manhã, na Globo News, foi muito clara e precisa) e cobertura, porque se tornam criminosas? Se agirmos com esse rigor imbecil, teremos de prender todo suicida frustrado, não?
Como repórter, fiz matérias várias sobre casos assim. As aborteiras que atendem essas pobres crianças (da primeira vez, fui parar numa casa dessas, disfarçado de namorado sedutor, para desvendar o caso de uma garota de 14 anos; era 1980) não têm qualquer escrúpulo, muito menos conhecimento de causa e higiene!
Mas, perdoe-me você, conheço moças (adultas, pois) suficientemente independentes que se engravidam no intuito de induzir o amante ao divórcio ou o namorado resistente a um casamento; se frustrar o empreendimento, recorrem ao aborto. Não é constante, mas tem frequência, sim.

Marley disse...

Luiz, esse, realmente é um tema polêmico, e tratado por homens então, a dor e o desespero de uma mulher que pratica o aborto são relegados a fórmulas muito simples. Primeiro, não creio que aborto seja um método contraceptivo. Li uma estatística, não me lembro onde, de que 14 milhões de mulheres morrem por ano vítimas do aborto e, isto sim, é preocupante. Aborto deve ser tratado como saúde pública. E pode incluir aqui um extenso programa de conscientização pública, planejamento, paternidade responsável, métodos contraceptivos, e outros. Entenda Luiz, que nenhuma mulher deseja abortar, a maternidade é natural, e se o faz deve ter motivos muito profundos, até mesmo inconfessáveis e a sociedade é talvez a maior culpada. Fui mãe solteira do meu primeiro filho. Batizei-o na Igreja do Pe. Zezinho porque a Igreja Católica recusou-se a lhe dar o sacramento. Ironicamente ele tem no sobrenome Júnior... mas é filho da mãe. Criei-o sozinha e nunca pensei em abortá-lo. Se o aborto for descriminalizado, nem por isso eu o faria, assim como não uso nenhuma droga liberada. No entanto, acho muito fácil para quem está em situações privilegiadas econômicas, sociais, “espirituais” , julgar e condenar o outro. Se o que há implícito é a defesa da vida, qualquer método contraceptivo é criminoso (aliás, para a Igreja Católica é. Você só deve transar se for para gerar um filho). E a própria Igreja que condena mo aborto, nega o sacramento do batismo para a mãe solteira que heroicamente assume seu filho. A mesma Igreja que vê a violência do aborto (que é violento mesmo, acredito) está cheia de padres pedófilos. E o mesmo vale para homossexuais que ela condena na sociedade e que, no entanto, acolhe em seus conventos, que acabam lhes servindo de esconderijo. Enfim... o assunto é por demais complexo e poderíamos passar dias conversando sobre ele e não chegaríamos a nenhuma conclusão, já que as opiniões são de foro íntimo. (Marley - não consigo usar direito este sistema de comentário)

Marley disse...

Luiz, esse, realmente é um tema polêmico, e tratado por homens então, a dor e o desespero de uma mulher que pratica o aborto são relegados a fórmulas muito simples. Primeiro, não creio que aborto seja um método contraceptivo. Li uma estatística, não me lembro onde, de que 14 milhões de mulheres morrem por ano vítimas do aborto e, isto sim, é preocupante. Aborto deve ser tratado como saúde pública. E pode incluir aqui um extenso programa de conscientização pública, planejamento, paternidade responsável, métodos contraceptivos, e outros. Entenda Luiz, que nenhuma mulher deseja abortar, a maternidade é natural, e se o faz deve ter motivos muito profundos, até mesmo inconfessáveis e a sociedade é talvez a maior culpada. Fui mãe solteira do meu primeiro filho. Batizei-o na Igreja do Pe. Zezinho porque a Igreja Católica recusou-se a lhe dar o sacramento. Ironicamente ele tem no sobrenome Júnior... mas é filho da mãe. Criei-o sozinha e nunca pensei em abortá-lo. Se o aborto for descriminalizado, nem por isso eu o faria, assim como não uso nenhuma droga liberada. No entanto, acho muito fácil para quem está em situações privilegiadas econômicas, sociais, “espirituais” , julgar e condenar o outro. Se o que há implícito é a defesa da vida, qualquer método contraceptivo é criminoso (aliás, para a Igreja Católica é. Você só deve transar se for para gerar um filho). E a própria Igreja que condena mo aborto, nega o sacramento do batismo para a mãe solteira que heroicamente assume seu filho. A mesma Igreja que vê a violência do aborto (que é violento mesmo, acredito) está cheia de padres pedófilos. E o mesmo vale para homossexuais que ela condena na sociedade e que, no entanto, acolhe em seus conventos, que acabam lhes servindo de esconderijo. Enfim... o assunto é por demais complexo e poderíamos passar dias conversando sobre ele e não chegaríamos a nenhuma conclusão, já que as opiniões são de foro íntimo. (Marley)

Mara Narciso disse...

Tema espinhoso até de se pensar, ainda mais de defender uma posição. Sou defensora do direito ao aborto, e não creio que uma meia dúzia de células seja gente. Sou ainda muito mais favorável ao sexo responsável, porque eu o exerci responsavelmente no tempo fértil, e em 29 anos de casamento tive um único filho, e escolhi tê-lo escolhendo hora, dia e ano. Então, vamos educar a nossa gente, torná-las pessoas conscientes. E para quem engravidou e não consegue assumir a gravidez, que o Estado arque com a despesa. Essa proteção não reduzirá a incidência do aborto, como também não o aumentará. Os gastos também serão os mesmos, ou menores, porque tratar complicações(útero perfurado, hemorragias, infecções) é muito mais caro. Lucro para o país: ausência de crime, e de mulheres marcadas para sempre. As que abortaram sem a permissão do Estado, jamais desistiriam, mas correram riscos e muitas delas ficaram loucas.

Mônica Aquino disse...

xiiii.. Caro primo, isso vai dar pendenga....rsrs

Quero crer que você analisou este aborto apenas sob o aspecto da mulher que engravida por "descuido". Se bem que mesmo sob este aspecto não podemos nunca esquecer que é preciso dois para fazer mais um, logo, o homem também deveria se preocupar, afinal é metade dele que depois vai sair andando por aí...rsrs..
O "x" da questão é que é no corpo "do outro" que esse ser se desenvolve, daí ser fácil todo mundo querer legislar sobre..
Não dá para analisarmos isso apenas sob a ótica do feto pois significaria dizer que o corpo da mulher nada mais é que uma encubadeira a serviço... Veja bem, não estou dizendo que a mulher, se quiser, pode sair por aí se deixando engravidar à vontade porque depois é só abortar - isso é inconsequência.
Sou obrigada a puxar tuas orelhas quando diz "conheço moças que .." pois aí acho que analisou apenas sob a ótica masculina, já que se uma mulher erra (e erra, não resta duvida) em tentar prender um homem ficando gravida, este homem, a meu ver, erra ainda mais mantendo uma amante. Sendo ainda mais "cruel" (rsrs) penso que não há vitimas nestas histórias. O homem busca seus interesses e desde que tudo fique escondido, tudo bem (veja o caso Bruno e de outros jogadores). A mulher busca a tal segurança financeira através de uma criança... Os dois são inconsequentes!!
Agora, quanto ao aborto, não dá para se posicionar apenas a favor ou contra. Acho tremendamente injusto, para dizer não cruel, quando vem um religioso qualquer e diz para uma mulher que sofreu abuso (as vezes durante anos) ou que tem uma criança sem chances reais de sobrevivência e a aconselha a não abortar. Isso é resquício de idade média, quando a igreja culpava as mulheres de todas os pecados do mundo - se bem que ainda hoje é muito assim. Só que de forma mais sutil.