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sexta-feira, outubro 08, 2010

O Professor e a informática


O Professor e a informática


Nos últimos dias, tenho invadido prateleiras das estantes. Busco textos e referências, poemas mal lembrados, autorias duvidosas na memória que mistura nomes e dados. As mãos ficam ásperas e quase ocres, pois o pó das ruas e das construções imiscui-se nas lombadas e páginas, ferem o papel e as narinas. E os livros, quase todos, retêm papéis vários, improvisados marcadores de páginas. Uns são cartões de visitas obsoletos; outros, meras anotações de números, telefones e contas várias. Outros, nomes para não esquecer – mas de quem são esses nomes?




Contracheques (holerites, amigos paulistanos) das décadas de 1980 e 90; receitas médicas dos primeiros anos maduros; nomes femininos com inevitáveis endereços, coisas dos tempos joviais; recibo de depósito bancário... Não se fecham num enredo compreensível senão para mim, que os guardei por aí, mas são dados inegáveis de uma história de vida – a minha, claro!


Encontrar velhos registros remeteu-me a outros alfarrábios (ah, jovens! Pesquisem... Não vou facilitar nada, não). Vi-me jovem professor, no limiar da década de 1960, manhã de domingo, em casa, cuidando de “passar notas” no diário de classe, a que também chamavam “decúria”; imagino que por associação de ideias, pois decúria quer dizer grupo de dez alunos; no nosso caso, cada diário de classe teria, pois, quatro decúrias (ou mais).


Recordar aquele trabalho enfadonho de “passar notas” e acrescentar comentários veio-me à mente, porém, por outro tipo de associação de ideias: é que, num dado momento de sábado, recebi ligação de uma amiga professora. Conversamos brevemente e convidei-a para um café com prosa. “Ah, gostaria muito! Mas estou às voltas com os diários”.



Estiquei a prosa. Fiquei pasmado ao constatar que, em 2010, nos primeiros dias do último bimestre letivo, o professorado de 1.024 reais mensais ainda é obrigado a dedicar horas e horas de folga, momentos que deveriam reverter-se no convívio com a família, instantes de boa leitura ou de lazer, de estudos ou de um cinema, essas horas, que se alongam pelas manhãs e tardes de um sábado, e bem ainda pelo domingo adentro, são trabalho antiquado, braçal mesmo, e, pior ainda, sem a paga equivalente.




Ofício de mestres! Ah, como me atraía, desde os primeiros anos na escola, aquele sonho! Queria subir ao tablado, sentar-me atrás daquela mesa, pôr-me de pé ante o quadro de giz (que ainda se chamava quadro-negro), fazer argüições...














      De novo uma palavra em desuso: argüições! Notem que a escrevi duas vezes com trema. Como os moços não a conhecem, é preciso recorrer ao sinal assassinado pela recente reforma ortográfica: ar-güi-ção. Trema! O trema já me dá saudades. Argüição lembra-me sabatina, que era uma prova oral aplicada nos sábados de antigamente. Por extensão, a palavra passou a significar prova – uma prova de menor conteúdo, como um teste auxiliar no sistema de avaliação.
Atualmente, a palavra sabatina tem sido aplicada para as argüições que o Congresso e os parlamentos estaduais e municipais aplicam a pessoas indicadas para alguns cargos, como uma avaliação de sua capacidade. E foi usada, também, pela imprensa em dados momentos da última campanha eleitoral, isto é, o primeiro turno das eleições, quando jornalistas e intelectuais convidados interrogavam candidatos a presidente e governadores. Assisti a duas ou três dessas tais sabatinas, e três dos candidatos ao governo de Goiás tomaram bomba em Língua Portuguesa.





Mania de antigo professor, essa minha! Admito erros triviais de linguagem, seja na escrita, seja na oral; mas não dá para ouvir uma professora engolindo sílabas das palavras e preposições da regência, além de atropelar a concordância. O que dizer, então, dos que nunca fizeram da escola o seu habitat? Para estes, bastaram ler-e-escrever e realizar as quatro operações fundamentais – o que, agora, se faz com uma calculadora eletrônica, a cinco reais no camelô da esquina.



Ziraldo, em suas palestras sobre Educação, costuma usar aquela velha figura: qualquer profissional que comesse a maçã da madrasta da Branca de Neve em 1510, , se acordasse hoje, levaria um susto: a carroça seria um trem ou um caminhão; uma galera, um suntuoso transatlântico; o judeu da banca de empréstimo e penhor, acordaria como um sofisticado executivo de banco; um esculápio com ventosas e sanguessugas, ver-se-ia numa moderníssima sala de cirurgia, tudo isso absolutamente informatizado. Um professor, ao despertar de um cochilo numa sala de aula de cinco séculos passados, simplesmente perguntaria à turma: “Onde foi mesmo que eu parei?”.


Na quarta-feira, estive no Lyceu, em visita a professores amigos. Em meio a outras notícias, a professora (a que atualizava os diários), deu-me conta de que a Secretaria da Educação, finalmente, decidiu informatizar o registro de notas e outras ocorrências típicas do ofício do magistério.

Enfim!


* * *



Luiz de Aquino é 
membro da Academia Goiana de Letras
(poetaluizdeaquino@gmail.com) .

9 comentários:

Mariana Galizi disse...

Ano passado quase endoideci de vez preenchendo micros quadrículos com caneta azul, contando dias, somando, reduzindo feriados, fins de semanas, HTPCs, Conselhos... Calculando notas e entregando tarjetas, no arcaico sistema de destacar e entregar o que poderia ser facilmente entregue à tecnologia e suprimido a necessidade de todo corpo docente. Ufa!
Mas penso eu, querido Luiz, que se as condições espartanas de se cumprir o processo burocrático nas escolas fossem compensados por outras texturas... não haveria do que se reclamar, certo?
Ainda creio na evolução na educação, ou seria preciso uma revolução? rs

Osair de Sousa Manassan disse...

Muito bom, professor! A educação "melhorou" muito, pois hoje se ganha menos e se trabalha mais. Ajudo uma amiga, professora na PUC, nas suas horas de apuros (quando chega ao limite do tempo para entregar os trabalhos e as notas), e vejo o quanto de tarefas extra classe eles têm.
Achar papeis entre as páginas de um livro, trás surpresas e até nostalgias. Esse detalhe que você relembrou, por si só, dá uma excelente crônica.
Parabéns, amigo. Sempre lendo, nem sempre comentando, por timidez...

Mara Narciso disse...

O dispêndio de energia do pobre professor precisa ser grande para manter pelo menos parte dos alunos interessados. A informática vem ajudar nessa tarefa, mas li que boa parte das escolas informatizadas não têm quem opere adequadamente os computadores. Muitos ficam abandonados na primeira pane. Muito ainda precisa ser feito para facilitar a vida dos mestres.

Maria Helena Chein disse...

Olá, Luiz,

acabo de ler sua última crônica, lembranças que se filtram em sua mente e se alargam
no imaginário fértil de uma criatura, você, cheia de amores, de batalhas e conquistas.
Criatura cheia de vida, com muita coisa para não só lembrar, mas para contar.
É bom sentirmos a presença daquilo que foi e agora está em uma folha
de papel encontrada na estante, na gaveta ou naquela caixa do armário.
Querido professor Luiz, um beijo por suas reminiscências, sua ida ao Liceu e sua crônica.

Excelentes dias para você.

Maria Helena

Maria José Lindgren Alves disse...

Como professora me senti irmanada. Obrigada pelo texto bonito.

Maria Lindgren

J. Martines Carrasco disse...

A quem admira boas crônicas e poemas substanciosos, sugiro frequentarem o blog do competente cronista e poeta, goiano,
LUIZ DE AQUINO ALVES NETO. Vale a pena !
Convite e endereço eletrônico do blog, abaixo descrito.
J. Martines Carrasco

Klaudiane Rodovalho disse...

Oi, amigo, gostei!!!!!

Nós professores precisamos de vocês escritores e jornalistas, do nosso lado é claro.

Houve um tempo em que professores e jornalistas se uniram pela democratização em nosso país, e depois...... Depois dos traumas cada um ficou em seu ofício, isolado. Nesta semana em que lembramos dos professores gostaria muito de deixar meu desabafo, enquanto o mundo exterior às escolas se preocupa com o TER, nós dentro delas, isolados , buscamos valorizar o SER.

Obrigada amigo, por ter tido a sensibilidade e a liberdade de poucos para nos defender!!

Tenha um ótimo feriado, um abraço, e mais uma vez obrigada !!

Wanda disse...

É tão gostoso ler você amigo querido.
Os diários... Preenchi não muitos porque passei no concurso do BB.
E a tal arguição eu de tes ta va.
Beijos e alegrias!

Ligia disse...

Ah!Luiz vc mexe com o imaginário mesmo!!!Até q era gostoso preencher aqueles Diários de Classe durantye todo o ano letivo,pois me auxiliavam na hora da cobrança das tarefas dos alunos. Hj os profs ainda relutam em mostrar como avaliam seus alunos.Quais instrumentos utilizaram> Saudades.