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sexta-feira, outubro 22, 2010

A estátua na pr..., isto é, no quintal!



Carta ao Ontem
ou 
A estátua na pr..., isto é, 
no quintal!



Goiânia, outubro outra vez, dois mil e dez… Setenta e sete anos de festejo da Pedra Fundamental, intencionalmente plantada no dia seguinte ao aniversário do interventor Pedro Ludovico; não pelo natalício do homem, mas pelo dia em que, três anos atrás, Getúlio Vargas amarrou seu cavalo no obelisco da Avenida Rio Branco, na capital da República.


Pedro em foto rara: a cavalo

Também a cavalo, mas no alto da Serrinha (onde hoje existe um complexo de antenas de comunicação), Pedro Ludovico contemplava a campina, entremeada de bosques; mais ao longe, a importante, mas minúscula, Campininha das Flores. Minúscula? Ah, sim! Mas qual era, também o tamanho da Capital, a Cidade de Goiás? Neste sertão do Planalto Central, grandes mesmo eram as distâncias, apenas.


Fez-se a cidade! 
Afinal, Minas Gerais já construíra, quase quarenta anos antes, a sua Belo Horizonte, planejada e bela. Escolhido o sítio, plantou-se a pedra. Estranho? Ora, ora, isso é uma metáfora! A Pedra Fundamental da nova cidade, a que seria a capital do Estado, com o propósito de atrair atenções e fazer crescer o Estado. Não havia dinheiro, mas havia o poder, pleno e forte. Somente a História nos contaria, depois, que Pedro seria o único dos interventores a permanecer no poder local por tanto tempo quanto Getúlio ficaria à frente das decisões nacionais.



A Praça Cívica, nos primórdios, vista do alto 
do Palácio das Esmeraldas.

Injusta, penso eu, foi a decisão de incorporar a tradicional Campininha das Flores ao município da nova Capital. Ela, a velha cidade, que festeja atualmente seu bicentenário, não merecia tornar-se um bairro, apenas. Mas a História não é uma instituição abstrata, ela é ciência e trata  o passado para construir futuros. Por décadas, Campinas não era um bairro, mas um pólo, tão superior ao Centro (a parte efetivamente planejada da nova cidade) que deu continuidade à sua vida bucólica, progredindo e se modernizando sem comprometer sua identidade.



Carro de boi, indispensável na construção de 
Goiânia (ao fundo, o Palácio das Esmeraldas).










Aos olhos de um jovem dos anos de 1960, fotos como os rolos compressores para a compactação do solo para aplicação de asfalto, tendo por pano de fundo o Palácio das Esmeraldas, traziam o mesmo peso da imagem do interventor-idealizador-fundador de Goiânia, montado a cavalo, trajando culote, botas, camisa militar e chapéu de escoteiro, contemplando a planura das campinas do alto da Serrinha.





Neuza Morais também gostava daquela foto. Decidiu-se por ela ao escolher esculpir Pedro Ludovico em tamanho gigante para ser entronizado na sua cidade. A primeira discussão não andou muito, ficou apenas numa sugestão que se viu vencida – partiu do escritor Bermardo Elis, que preferia uma estátua sedestre (sentado, em trabalho executivo; a terceira opção seria a estátua pedestre, isto é, de pé). Neuza elegeu, pois, a estátua eqüestre, ou seja,  a cavalo.




Acho que entendo... Qual o escultor que não gostaria? O cavalo é tido como a mais perfeita das formas vivas! E é inegável a sua importância no caminho da humanidade. Acompanhei parte das dores de Neuza Morais enquanto as autoridades se faziam moucas ante o seu sonho de ver a estátua fundida em bronze e instalada na cidade. Sempre opinei por dois pontos fundamentais – a Praça Cívica, por ser sede do poder do qual Pedro Ludovico é um dos fortes símbolos em Goiás, e a Serrinha, de onde o homenageado continuaria a olhar a (e pela) cidade.

Como disse, a Pedra Fundamental é uma metáfora, e tão fundamental quando Pedro Ludovico na nossa História. Afinal, o nome Goiânia, sugerido pelo professor Alfredo de Castro, fora concebido por Manuel de Carvalho Ramos (pai de Hugo de Carvalho Ramos, o primeiro dentre os regionalistas brasileiros). Goiânia, pois, nasceu sob o espírito da Poesia.

Neusa Morais 

Agora, vejo a estátua ser instalada, tal como tanto sonhou Neuza Morais, que morreu triste por não ser atendida. Ao tempo daquelas lutas (alguém, recentemente, lembrou, com justiça, o empenho de Helinho de Brito no sentido de ver realizado esse sonho de Neuza; debalde...). Imaginei, porém, e sempre, que Pedro a Cavalo estaria em lugar de honra, no mesmo alinhamento do Monumento as Três Raças – outra importante obra de Neuza Morais –, no centro da Praça Cívica. Mas (e aí, o que fazer?) as autoridades preferiram colocá-lo no quintal da Secretaria do Planejamento, junto à Rua 82, que algum desavisado vereador apelidou de Robert Kennedy.

Resumo, para finalizar: nas andanças para que Neuza visse sua estátua de Pedro pronta e instalada, ouvi de autoridades locais a seguinte frase: “Esse tema é chato... Pedro já foi homenageado muito mais do que devia”.

Não comento, leitor. Conclua você!










* * *





Luiz de Aquino é da Academia Goiana de Letras




5 comentários:

Mara Narciso disse...

Gosto de História, valorizo quem veio antes e fez o que encontrei. Aos que merecem, todas as homenagens. Se há excessos nesse caso, não sei. Eu faria tudo para tirar a estátua do quintal e levá-la a praça. Gostei demais de conhecer essa parte da origem de Goiânia pela sua pena, Luiz. Tão leve quanto deve ter sido pesada a jornada dos corajosos desbravadores.

maria dulce disse...

Luiz este é o Pedro. Inteligente, além de seu tempo e simples. Um idealista batalhador, que, enquanto era vivo esquivou-se das homenagens. Este texto diz porque Pedro a Cavalo devia ter continuado enfeitando a sala da fazenda, local da foto. Um historiador saberia escolher, como Bernardo Elis. Mas, já passou.
Grata, de n0v0.
Goiania - A revolução de 30 deu um idealista da mesma têmpera de Couto Magalhães a Goiás. A 22 de Novembro desse ano assumiu o Governo do Estado, como interventor Federal, o médico Pedro Ludovico Teixeira. Quem era esse Homem? Nasceu na virada do século, em 1.891, na cidade de Goiás. No Rio de Janeiro onde se formou em Medicina, tornou-se amigo de Lima Barreto e de Olavo Bilac e defendeu tese sobre a histeria, numa época em que todas as teorias de Freud eram completa novidade. De volta a Goiás, instalou sua clínica em Rio Verde, mas achava a vida monótona e caiu em melancolia. As viagens ao Rio combatiam o tédio, que ele venceu ao descobrir dois amores da vida inteira: A política e Dona Gercina Borges, com quem se casou.Governou o estado em cinco períodos, como Interventor ou Governador (eleito duas vezes). O construtor de Goiânia lutou pela construção de Brasília, defendeu as reformas sociais eo voto dos analfabetos. Foi senador eleito em três mandatos,o último interrompido com a cassação de seus direitos políticos, em 1.968. Continuou ativo, lutando pela redemocratização do País. Faleceu em 1.979.

José María Souza Costa disse...

Muito legal esses blog que contam a HISTÓRIA Interessante o seu blog Vim aqui lhe convidar para visitar o meu blog e se possivel seguirmos juntos por eles Estarei lá lhe esperando
http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Adriano César Curado disse...

É importantíssima a presença da estátua de Pedro Ludovico na Praça Cívica. Equivale a um lembrete na memória de todos, principalmente das novas gerações, sobre os fatos históricos que marcaram o nascimento de Goiânia.

Neste mundo globalizado de hoje, que tenta nos enfiar goela abaixo a cultura alienígena enlatada, em que os jovens não leem, não visitam museus, vale a presença do velho Pedro da praça.

Renato Costa - Desenvolvedor TI disse...

Maravilha seu texto Luiz.
Sou desenvolvedor de mídias para internet e há quase três anos construo um site em homenagem ao Setor Coimbra. Tomei a liberdade de copiar parte do seu texto e incluir na seção "Fotos antigas" juntamente com a foto do Pedro a cavalo e seus devidos créditos. Gostaria de poder ter acesso a mais fotos antigas de Goiânia, se possível, por favor entre em contato. Segue abaixo o link do site do Setor Coimbra:

http://www.setorcoimbra.com.br/?a=WVhKMGFXZHZQVEl6TXlacFpGOWpZWFJsWjI5eWFXRTlPQ1p1YjIxbFgyTmhkR1ZuYjNKcFlUMUdiM1J2Y3lCQmJuUnBaMkZ6Sm01dmJXVmZkbUZ5UFdadmRHOXpYMkZ1ZEdsbllYTT0=
Um abraço e mais uma vez parabéns!