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segunda-feira, maio 30, 2011


José Raimundo Reis da Silva: Zé Reis!


Adeus, Zé Reis! (O de Pirenópolis)


Aquela é uma das casas da Rua do Rosário que resiste ao comércio. A de número 9, morada preferencial do jornalista José Raimundo Reis da Silva, o nosso Zé Reis – Zezinho, para a família; Zezim, para o bom linguajar goianês, pirenopolês, na intimidade das ruas tortas que abrigavam serenatas nas madrugadas.

Rua do Rosário, 9. Arte de Pérsio Forzani para o livro Casas dos Homens
(Volume II), de Jarbas Jayme e José Sizanando Jayme



Nos últimos 17 anos, desde quando realizamos as primeiras reuniões para a criação da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, a casa do Zé Reis tornou-se, para mim, um ponto de encontros habituais. Mas o sentimento de admiração e amizade surgiu antes. É que, além da profissão, notamos, ambos, algumas afinidades fortes, como isso de gostar de Pirenópolis, de seu casario ligeiramente desalinhado, do perfil íngreme das encostas e o colorido dos portais e esquadrias. Tudo tendo por fundo as histórias da terra e o murmúrio do Rio das Almas.

Zé Reis no quintal da casa encantada, na Rua do Rosário.
O quintal da casa do Zé Reis vai até o barranco da margem esquerda. As janelas da sala e de dois dos quartos escutam o som destrambelhado da Rua do Rosário. Na casa – varanda, cozinha e quintal – tomávamos cerveja e vinho, curtíamos as delícias dos churrascos e trocávamos histórias pitorescas da cidade e de qualquer outro lugar, evocando causos de famílias e de companheiros de trabalho. Ali, também discutíamos coisas atinentes ao modo de vida, fosse o de Pirenópolis, fosse o de Brasília, do Rio de Janeiro ou Caldas Novas, jamais esquecendo coisas do Piauí e das infâncias inesquecíveis.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi restaurada duas vezes, em menos de dez anos;  o trabalho de Zé Reis foi de elevadíssima importância do longo dos dois processos.

Quando, na segunda metade da década de 1990, a Sociedade dos Amigos de Pirenópolis, entidade idealizada por Zé Reis, cuidou da grande obra de restauro da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, era ali, na casa número 9 da Rua do Rosário, que conversávamos sobre as novidades. E foi ali que Zezim idealizou e cuidou de correr atrás dos meios para pôr em prática um projeto carinhoso e agradável – Tocando a Obra. Consistia em, no último sábado de cada mês (se não  me trai a memória), apresentar-se um conjunto de boa música na nave da Igreja em reparo. Um desses, justo o de 27 de julho de 1998, José Reis ofereceu-me para, aproveitando a exatidão da data, festejarmos o centenário de meu avô, o maestro Luiz de Aquino Alves (saudoso momento em que Clóvis e Bidoro, exímios instrumentistas, e mais meu pai, Israel, ao lado de outros companheiros músicos, executaram composições do meu saudoso avô-xará). A esse evento opôs-se um maestro argentino, então residente na cidade. O “hermano” desconhecia a história e os vultos em questão; dei-lhe nenhuma atenção e, para meu prazer, nunca mais o vi; e para minha vingança, vencemos as equipes esportivas de sua pátria muitas vezes mais, nestes anos após.

Zé Reis pouco se importava com coisas idas; do passado, ele gostava mesmo era de acumular lembranças boas. Estava, o pequeno gigante da Rua do Rosário, sempre a bolar alguma novidade, ouvir ideias e juntar propostas, apresentar seus sonhos e pôr-se a realizar novos projetos. Para ele, o importante era o agora, que, parece-me, em seu conceito consistia tão-somente em pensar coisas para o amanhã.



Um dia, veio-lhe o câncer, ele o superou: driblou o tumor cumprindo com esportivo propósito o tratamento. Já convivia, então, com os problemas da pressão arterial. Engordou um tanto, nestes 17 anos. Aprendi a gostar dele pela amizade entre ele e Maria Eunice Pereira e Pina,  e com Emílio de Carvalho. Ganhei também essa amizade e cuidei de cultivá-la. E só ganhei, porque aprendi muito com o meu colega e amigo. E dele, também, bem como de Dona Helena, a esposa, herdei a amizade fraterna com seu filho  Marcelo e família, meus vizinhos há bom tempo!

Na manhã de sábado, sua nora Marilene, comadre querida, trouxe-me a notícia triste. Há quase uma semana acompanhávamos a última batalha. O infarto, a transferência de Pirenópolis para Brasília, a internação, os procedimentos, a esperança e, em seguida, o infausto: Zezim se foi!

Dona Helena e o neto Marcelinho: churrasco no quintal. Era carnaval, em 2009...

Abriu-se o branco, não na memória: no coração. Memorizei a casa branca de portas e janelas azuis, suas arandelas, vitrais em guilhotina, as colunas em madeira; o quintal em dois planos, o verdor das plantas, as sombras das grandes árvores, a parreira... A voz troante e feliz do dono, o sorriso ora cúmplice, ora crítico, da dona da casa, a presença amiga de Marcelo e, eventualmente, de Maurício – mais que de Luciana e José Augusto -, dos netos.... E havia os cães, dos quais cuidei sempre de estar distante por razões óbvias.

A casa, a de número 9, Rua do Rosário... A casa está em silêncio, agora; é ela das últimas, senão a última, a manter o aspecto exclusivo de morada, pois as outras cederam espaços ao comércio. Não consigo ver, na sala e na varanda, na cozinha e no pátio, o agito dessas últimas duas décadas. A alma da SOAP - a Sociedade dos Amigos de Pirenópolis -, mudou-se de lá, está montando sala nova, ou uma nova varanda, onde por certo conspirará boas coisas com Emílo de Carvalho.

E nós, os que ficamos, perdemos o rumo, a prosa e muitos planos...


Presença indispensável nos momentos sociais, culturais...


... e políticos de Pirenópolis nos últimos vinte e mais anos.



* * *

Luiz de Aquino, jornalista e escritor. - Fotos por Luiz de Aquino e Nelson Santos; foto da casa: fac simile do livro de Jarbas e José Sizenando Jayme, Casas dos Homens (Volume II).

7 comentários:

Mara Narciso disse...

Luiz,
É bom quando há tantas coisas para lembrar, que não fica espaço para o vazio. Tantos se vão e ficamos, até o nosso dia chegar. Meus pêsames pela perda do amigo, mas envio também a certeza que em breve haverá apenas uma saudade boa.

Klaudiane Rodovalho (Professora do Lyceu) disse...

Luiz
Sei que não é de bom tom "dizer" que está lindo, mas está.
Mais que isto, está com seu sentimento, com sua prosa de amigo saudoso.
Luiz, seus textos são muito bons de se ler. São dinâmicos, tem um ritmo que não deixa o leitor entediado. Digamos que é sua marca registrada. Sabe como ninguém instigar a emoção de quem lê para a sua interpretação. Para fazer uma descrição então, você ótimo, utiliza poucas palavras, e com objetividade sabe transmitir ao leitor a imagem que vislumbra. Talvez seja a sua veia matemática tão bem desenvolvida quando trabalhou no Banco. No que escreve, as emoções se misturam, ora alegria, ora revolta, ora tristeza, ora aquela sensação de que, finalmente, alguém teve coragem de escrever algumas verdades tão necessárias (o que eu chamo de justiça) e neste em especial a honrosa despedida do amigo, sem deixar o humor de lado, é claro.
Muito obrigada por ter me enviado algo que foi escrito com tanto carinho!
Sabe, aquelas casas de Pirenópolis são belas, trazem acolhimento para quem as observa, e nas poucas em que entrei, um conforto indescritível.
Beijo, menino!

Adriano César Curado disse...

Caríssimo Luiz, que maravilha você derramar tanta poesia sobre a vida do nosso querido José Reis. Fiquei emocionado com suas palavras.

Eu sinto que nossos amigos se vão numa velocidade cada vez maior. Veja que, em uma década, perdemos já quase que a Aplam original inteira. Por isso insisto que devemos nos reunir mais, promover eventos que nos integrem, relembrar os antigos e trazer gente nova para nosso lado.

Não vou nem perguntar se posso reproduzir o texto no meu blog, pois se você negar eu publico assim mesmo!!!

Forte abraço.

Thais Valle disse...

Luiz, seu texto me trouxe tanta emoção, tanta saudade! Você descreveu o Zé Reis exatamente como nós, seus amigos, estávamos acostumados a vê-lo. Lembro-me de o quanto ele fazia planos. Cada ida a Pirenópolis era um evento, um encontro, uma coisa nova que ele estava "bolando", sempre em favor da cultura, da boa cultura Pirenopolina. E o quanto ele lutou por isso! Amou aquela cidade sem querer, ou receber, nada em troca. Fincou suas raízes na casa 9 da Rua do Rosário como se ali tivesse nascido e crescido. Fez mais por Pirenópolis do que muitos que lá nasceram.
E a última vez que nos encontramos foi também a última vez que estive com você, lá na Flipiri. O Zé todo esbaforido, "correndo atrás", na tentativa de não deixar a APLAM "de fora" de evento tão importante.
Não tive tempo de me despedir... Ainda bem! De amigos não devemos nos despedir nunca. No máximo, um ATÉ BREVE!

Luciana, filha do Zé Reis disse...

Prezado Luiz de Aquino, obrigada pelas lindas palavras sobre meu pai,sobre seu amor por Pirenópolis e seu carinho pelo seu povo! Ele foi um entusiasmado dos projetos da cidade e se dedicou de corpo e alma a ela, onde fez grandes amigos que estão, com certeza, em seu coração!!!! Agradeço o apoio e solidariedade de todos. abraços.
1 de junho de 2011 07:27 (no blog cidadedepirenopolis.blogspot.com, de Adriano Curado)

Zeca, "sobrinho" de Zé Reis disse...

Amigo Luiz, sou o Zeca, um dos "sobrinhos" do Tio Zé Reis. Compartilho dos mesmos sentimentos aqui tão ricamente dispostos, lembrando também que o nosso querido Tio deixou muita saudade em Brasilia, sua segunda terrinha. Sempre disposto e altivo, Zé Reis recebia a todos com sincera consideração e entusiasmo, irradiando alegria e irreverência, que a todos contagiava. Parabéns pela belíssima homenagem. Tenho certeza que nosso amigo está muito lisongeado e agradecido.
1 de junho de 2011 16:12 (publicado no blog cidadedepirenopolis.blogspot.com, de Adriano Curado)

Valéria Gomes disse...

Mesmo respeitando sua dor,não posso deixar de mencionar o quanto Palmeiras se atreveu a buscar filhos queridos que, plantaram as sementes, de hoje, árvores robustas, como Pé de Forzani, Pé de Jayme, Outro Jaime e de outras raízes que nos ensinaram a todos de munha geração a falar de trás para frente. Ainda. quero me referir a minha amada Comadre Maria Gilda Fleury Alvarenga, que residia na Casa do Doce, desde tenra idade. Da Dna.Valéria e por que não, do sr. governador, "Coninho", para contemporâneos, que amarrou de vês seu cavalo em uma árvore forte e frondosa de Pirinópolis. Mas, não se iludam a dor sentida por aí, sempre repercute em Palmeiras... Irmanamo-nos com suas dores.