Foto: Eduardo Ferreira
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Adriana Accorsi, Delegada-Geral de Polícia Civil: ela ligou para Antônio Gomes para saber se tinham almoçado... |
A emoção da delegada
Tenho mais de 40 anos no
ofício das letras, em literatura e jornalismo; se adicionar o tempo de leitura,
são mais sessenta e poucos anos desde os primeiros gibis. Dia destes, um colega
jovem, mas já desprovido da coberturas capilar, estranhou quando o chamei de
Pinduca. Expliquei os meus favoritos nas revistas ilustradas da infância. É que
as gerações pós-Disney não conheceram Hortelino Trocaletra, Os Sobrinhos do
Capitão nem Gaguinho e Petúnia, nem Gato Félix...
Escrever não é apenas juntar
letras, formar frases e dar sentido ao que se pretende comunicar – isso é
redação técnica. Escrever, no conceito dos escritores, é acrescentar a isso aí
a magia que contêm as ideias – Brasigóis Felício define bem essa coisa, esse
tempero que alguns dentre nós chama de “molho”. Gosto da metáfora, pois se a
leitura é o alimento da alma, nada mais belo que compreender que a alma, como a
língua (não o idioma, mas o órgão da fala e do paladar) tem suas exigências.
Não se faz um escritor por
títulos ou associações. Ter títulos ou associar-se a entidades do segmento é
consequência, jamais a causa.
Neste ofício – e ao dizer ofício remeto-me ao título de
um livro póstumo de Jorge Luís Borges, “Esse ofício do verso”; indispensável a
todos os que escrevem! –, familiarizamo-nos também com a filosofia. Não
necessariamente com conceitos clássicos e conhecidos, ou adormecidos entre
linhas e páginas de solenes compêndios postados em nossas estantes, mas a
filosofia que desenvolvemos como plantas semeadas em nossas mentes e almas, que
crescem por si, formam moitas e mesmo matas respeitáveis da qual colhemos ora
folhas, ora flores, ora ramos com que ornamentamos nossos textos.
Acho que essa é uma das
definições aplicáveis aos escritores. Sim, mas é indispensável também a
liberdade do pensamento e a consequente liberdade de expressão. O texto
literário vem, algumas vezes, de sonhos, e os sonhos têm asas fortes e ágeis.
Tem mais: o escritor não
integra uma equipe; ele é o todo. Elabora o projeto, detalha peças e medidas, concebe
a forma e as cores, monta e equipa, testa a solidez e aprecia o modelo pronto,
antes de lançá-lo ao leitor. Faltou, em tudo o que eu disse acima, algo que bem
caracteriza o citado “molho” ou a maravilhosa “mágica”: emoção.
Isso de escrever por semana
deixa-me um tanto dispersivo. Na segunda, penso num tema, ou mais; na terça, novas
escolhas, sem repetir as da véspera. Assim é a cada dia e na quinta
sentencio-me: é hoje! E, algumas vezes, adio estes minutos da escrita para a
manhã da sexta-feira, o dia-limite para que eu ocupe devidamente o espaço de
domingo (é o que faço agora e em pouco o editor do DMRevista liga para
cobrar-me). E a cada semana
imagino que seria de bom-tom um passo a passo nas emoções da semana.
Vale lembrar que, nas
últimas dez semanas, nós, de Goiás, temos vivido momentos desagradáveis que
envolvem nossos meios político e social. Como o escândalo das investigações da
Policia Federal em torno de escutas telefônicas, os altíssimos índices de
homicídios (a quase totalidade em função do tráfico de drogas) e ainda a
fatalidade – como o acidente com o jovem cantor sertanejo e a queda do
helicóptero da Policia Civil. Esta semana, e fugindo ao passo-a-passo,
escapando também das notícias tristes, prefiro registrar coisas que nos fazem crer
na grandeza do ser humano.
Refiro-me, primeiro, a
entrevistas que fiz com dois grandes músicos – os maestros Alessandro
Borgomanero, regente titular da Orquestra Filarmônica de Goiás, e Emmanuelle
Baldini, “spala” da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ambos
italianos, velhos amigos e virtuosos em suas funções. Valeu a pena vê-los em
destaque nas noites de terça e quarta-feira! (Borgomanero usou um violino de
fabricação italiana, datado de 1688 – quase uma década antes que o primeiro
bandeirante penetrasse este território onde hoje somos Goiás). Foram duas
noites de emoções intensas, algo que nos dá a sensação de lustrar nossas almas!
Mas o momento alto, horas
depois de divulgada a tragédia com o helicóptero da Polícia Civil de Goiás, foi
ouvir a Diretora Geral da PC, delegada Adriana Accorsi, dizer que telefonara ao
delegado Antônio Gomes (foi meu aluno no ginasial do Colégio Dom Abel, no setor
Pedro Ludovico, de 1968 a 1970), querendo saber se tinham almoçado.
Semana que antecedeu o Dia
das Mães. Não sei se Adriana Accorsi é mãe de filho carnal, mas aquela atitude,
que ela narrou com naturalidade e a levou às lágrimas, foi o selo que, para
mim, mostra uma profissional de árduas missões a demonstrar um carinho maternal
para com os colegas de trabalho – no caso, seus subalternos, mas este é um
detalhe temporal, apenas.
Sendo assim, mando daqui um
beijo à Adriana. Receba-o representando as mães desta nossa terra, Sra.
Delegada!
* * *
5 comentários:
...parabens...é isso aí meu grande brother/companheiro, simples,emocionante e cordial...
saudades...bjsmusikkaisqueirozísticos quânticos...sylvinhoqueiroz
Um abraço, poeta!
No meio do lixo ainda há espaço para o momento ternura. A mulher em cargo de comando pode manifestar emoção diante do trágico, desde que não seja manifestação de insegurança, o que foi o caso. O olhar de poeta é que lhe dá essa sensibilidade, Luiz. Capta o instante humano e feminino que é só nosso.
Sem dúvida, uma árdua tarefa muito bem narrada. Parabenizo pelo espaço literário de elevada cultura que só nos faz acrescentar. Abraço fraterno Josette Garcia
Li sua crônica, está perfeita como sempre. Tem um dom maravilhoso. Aquele desastre foi difícil de compreender, uma perda para a Polícia Civil... Apenas questiono algo, arriscaram-se colocando uma número expressivo de autoridades de importância em uma mesma aeronave. Não estou julgando ninguém, foi uma fatalidade, mas habitualmente, por questões estratégicas autoridades viajam em diferentes veículos. Fiquei uns dois dias sem compreender aquilo, uma tristeza. Uma amiga aqui do prédio é de Iporá e conhecia um dos delegados, ela ficou inconformada, ele era o mais jovem. Bom, mas todos terminaram sua missão por aqui, de modo digno.
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