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domingo, maio 06, 2012

Mãe, segundo Clarice


Mãe, segundo Clarice


Dia das Mães, domingo que vem. Conheço muita gente que torce o nariz, repudia datas festivas – Natal inclusive – alegando tratar-se de uma data comercial etc.  Sim, claro! Todos sabemos que essas datas são comerciais. Como também o dia do aniversário da gente. E daí? Vamos festejar! E costumamos festejar com comidas e bebidas, com presenças e presentes. De minha parte, nada contra!

Alguns amigos torcem o nariz quando digo isso. Pergunto-lhes: quem consegue viver sem comércio? Compramos e vendemos de tudo, as relações humanas escoram-se fortemente no comércio desde que as sociedades se organizaram. E é o comércio o estimulador do desenvolvimento de praticamente tudo em nossas vidas, desde a escrita e as viagens – por terra e por mar –, até o desenvolvimento técnico  e tecnológico que marca fortemente a humanidade destes dias.

Só não vou comprar presentes no Dia das Mães porque não tenho a quem presentear. Mas meus filhos, sim. Essa data, que o comércio brasileiro tem no conceito de o segundo melhor momento de vendas, implica também – tal como todas as datas festivas – expressões de sentimento. E foi quase que sem querer, relendo a páginas salteadas de um livro (Aprendendo a Viver, de Clarice Lispector; presente de aniversário da Leda Selma, há alguns anos), achei coisas assim:

“...fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei”.  (Clarice Lispector).

Algumas linhas após, num texto certamente concebido noutra ocasião, noutro dia, mas com um sentir igualmente ligado à relação maternal, achei essa pérola – esse texto, vou copiá-lo inteiro. Vejam que coisa linda!:

“Houve um diálogo difícil. Aparentemente não quer dizer muito mas diz demais.

– Mãe, tire esse cabelo da testa.

– É um pouco de franja ainda.

– Mas você fica feia assim.

– Tenho o direito de ser feia.

– Não tem!

– Tenho!

– Eu disse que não tem!

E assim foi que se formou o clima de briga. O motivo não era fútil, era sério: uma pessoa, meu filho no caso, estava-me cortando a liberdade”.

Clarice considera um pouco mais o seu direito, a sua liberdade de querer ser feia, mas conclui de um modo sábio. Um modo mãe:

“...eu queria ser feia, isso representava meu direito total à liberdade. Ao mesmo tempo eu sabia que meu filho tinha os direitos dele: o de não ter uma mãe feia, por exemplo. Era o choque de duas pessoas reivindicando – o quê, afinal? Só Deus sabe,  e fiquemos por aqui mesmo”.

Essa é Clarice, a eterna. Um ser capaz de viver a plenitude humana – coisa que a poucos de nós atinge. E se quisermos ser ligeiramente sábios, não a invejemos: antes, aprendamos com Clarice Lispector – gente. E mãe.


* * *



3 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo texto. Parabéns poeta LUIZ DE AQUINO. Parabéns a quem ainda tem mãe. Parabéns a todas as mães.Ireci Maria.

Mara Narciso disse...

Curioso esse defender o direito de ser feio. Já falei sobre as facilidades do ser belo. Quando vemos alguém bonito doente dizemos: coitada, tão bonita. Está bem, se fosse feia, mereceria o sofrimento? O Dia da Mães deve ser sempre comemorado, até por quem não tem mãe, mas tem uma tia querida, por exemplo. Presentear não faz mal, desde que o presenteado ganhe amor também. Mas estou falando bobagem, pois a gente não presenteia quem não gostamos. Assim, estamos conversados.

Eliana Leal Matos disse...

MÃE UMA PALAVRA LINDA MEU VER,NÃO TIVE FILHOS, MAS ME SINTO TB MÃE DE MUITOS QUE ME RODEIAM, SOU REALMENTE TIA E MADRINHA E TENHO MUITO CARINHO DE 5 AFILHADOS. MUITO BOM SEU TEXTO , PRINCIPALMENTE, INSPIRADO NESTA ESCRITORA QUE TRANSMITE TUDO QUE SE PASSA NA ALMA HUMANA.