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sexta-feira, novembro 30, 2012

A mão que estendo

Bariani entregou-me a Medalha  Jaime Câmara, do Conselho
Estadual de Cultura (1999); Lucas, com 4 anos, toou-a para si.




A mão que estendo


De alguns meses até este alvorecer de dezembro – crepúsculo dos anos – venho realizando entrevistas com os membros da Academia Goiana de Letras, meus confrades escribas e amantes das letras, para a memória do Centro Cultural Oscar Niemeyer. São poetas, cronistas e contistas, romancistas e ensaístas de Letras, Filosofia, dos meandros jurídicos e até mesmo das Ciências médicas. Somos um grupo limitado, apenas 40 membros, quase todos provectos e uns raros que ainda ostentam peles jovens e cabeças aptas a incontáveis mudanças.

Há um texto belíssimo de Vinícius de Morais em que o Poetinha discorre ante as possibilidades de perder todos os amores ou perder todos os amigos – e conclui que pior seria perder amigos. De meses para cá, tenho dito que tão importante e prazeroso é fazer novos amigos quanto descartarmo-nos dos que não correspondem…  Sim: não se trata de criar expectativas ideais, mas de aceitar os amigos tal como são, e descobrir que entregamos amor sem receber em troca:  amizade é uma avenida com mão e contramão.

Essa via de ida e volta tem sido, para tantos ou todos de nós, como o mais valioso dos caminhos. Sempre me regozijei pelas amizades conquistadas e sofria muito ao sentir que perdia alguém; até descobrir – e foi na via do amor romântico que descobri – que perder é tão importante quanto ganhar. Perdas múltiplas, numa vida inteira, não conseguem, porém, esvaziar o balde da nossa colheita; sempre teremos mais amigos do que os rostos que vimos primeiro, sejam os da parteira e o da mãe, associados aos dos familiares e pessoas visitantes, sejam os das relações que cultivamos ao longo da vida.

De 1996 a 98, presidi a União  Brasileira de Escritores em Goiás. Tempo de muito trabalho, num esforço ora hercúleo, ora dantesco, sempre no empenho de preservar a união e pugnar pela valorização dos fazedores de literatura em nosso torrão. Contei, naquele tempo, com valiosos companheiros na Diretoria, destacando as novas amigas Placidina Lemes de Siqueira e Ana Cárita, o saudoso professor (fui aluno dele no Liceu) Aldair Aires, o dinâmico e inesquecível Getúlio Araújo e, de especial realce, a vice-presidente Maria Luísa (então, apenas Malu) Ribeiro, parceira inseparável em todos os momentos.

Importantes também eram Marcos Caiado e os ex-presidentes Ubirajara Galli, Brasigóis Felício e Iuri Rincon Godinho.

Houve um tempo, na quadra final do meu mandato – eu sempre disposto a entregar o cargo sem o sonho da reeleição – em que as coisas se complicaram. Entidade pobre, a sobreviver de contribuições pequenas dos associados num ofício nada rentável, a UBE deixou de ser agraciada com doações financeiras advindas do Banco do Estado de Goiás e da Fundação Pedro Ludovico. 

Vínhamos de alguns momentos de ênfase, como o encontro de escritores do Distrito Federal e Goiás, provocado pelos colegas brasilienses, capitaneados por Gustavo Dourado, e prontamente aceito pelos ubeanos de Goiás. Conseguimos o apoio nobre do Castro’s Hotel, em cujos espaços aconteceu o ápice de nossa festa, após um “tour” por Goiânia, incluindo a visita dos brasilienses, ciceroneados por nós, à casa e à família de Carmo Bernardes, falecido no abril  daquele 1996.

Vivi tempos de intensa atividade, com viagens incontáveis... Muitas a Brasília, tentando viabilizar projetos no Ministério da Cultura, mantendo contato com os escritores vizinhos; muitas pelas cidades de  Goiás onde ocorriam eventos literários; duas, ao menos, ao Rio Grande do Sul para os congressos de poesia liderados por Ademir Bacca; e uma internacional, a Israel, a convite do embaixador daquele pais; lá, tivemos um encontro de escritores ibero-americanos – cada país enviou um escritor; o Brasil tinha três, sendo o carioca Antônio Carlos Secchin (hoje, imortal da Academia Brasileira de Letras) e dois goianos, José Mendonça Teles e eu.

As contribuições dos associados eram praticamente simbólicas; grande parte das despesas eram cobertas com auxílios dos órgãos estaduais citados ou com eventual ajuda de algum associado. O secretário municipal de Cultura, Padre Cesar Garcia, teve importante papel como provedor, fornecendo-nos recursos de sua própria economia para a solução de problemas nossos.

Coisas de amigos, como se vê...

As entidades culturais sem dinheiro em Goiás, em quase sua totalidade, costumam eleger como tesoureiro o escritor Bariani Ortencio. Já vimos casos em que, havendo duas chapas concorrentes, ele figurava nas duas chapas. Esse cargo era e é, sempre, destinado a homenageá-lo por sua luta incansável pela literatura e pelo folclore de Goiás. Bariani, sabendo das complicadas histórias financeiras de tais entidades, costumava deixar os cheques assinados, confiando no discernimento dos presidentes.

Comigo o balde transbordou. Como disse, não pudemos contar com a providencial ajuda do BEG; a Caixego tivera fim anos antes, numa decisão política nociva a Goiás (não me compete contar isso agora) e a Funpel decidiu-se por fechar os cofres “àquela corja de poetas”, que é como a então presidente se referia a mim e aos poetas que predominavam na direção da UBE.

Tivemos, por uns quatro meses, uma secretária cedida pela Prefeitura de Goiânia; a moça não quis continuar conosco e o jeito foi contratar uma secretária e um contínuo, ao custo de um salário mínimo cada, nos restantes vinte meses de gestão.

Resumo: esses funcionários, as contas de luz e condomínio, bem como a de telefone, eram pagos com dinheiro do  presidente em sua quase totalidade, bem como os custos de viagem – combustível e hotel; às vezes, comida também – pelo interior. Nos últimos meses, o presidente estava falido – e sua família também.

Nesse entrevero final, tive problemas com a conta, como não pude evitar. Alguns cheques foram devolvidos pelo banco. Um desses cheques, descontados com um agiota disfarçado de “factory”, de valor maior que o trivial, foi informado ao tesoureiro Bariani que, indignado, desabafou com dois colegas que o visitavam no momento; o resultado foi a imediata montagem de uma rede de telefonemas e fuxico na calçada diante do prédio da UBE, na Avenida Goiás com a Rua Dois.

Segurei as pontas. Se o tesoureiro não me procurou para esclarecer as coisas, eu também – tão cabeça dura quanto ele – não o procurei para dizer nada. Espalhava-se pela cidade que o presidente estava roubando da UBE.

Muitos companheiros, conhecendo a realidade dos fatos, alinharam-se ao meu lado e defendiam-me das injúrias cometidas pelos “ouvintes” do desabafo do tesoureiro.

Se eu tivesse tido um minuto de bom senso, teria ido até ele buscar conselhos; certamente, teria recebido orientação sábia sobre as medidas a tomar, em lugar de ser alvo da boca venenosa de apenas dois escritores amantes da maledicência e, àquela altura, apenas ávidos por difamar um companheiro.

Eu acabara de assinar um convênio com a Universidade Salgado de Oliveira do qual não desfrutaria no meu mandato já próximo do fim; por ele, realizaríamos um concurso de ensaios, com um prêmio financeiro simbólico ao vencedor, remuneração à comissão julgadora, publicação de mil exemplares do trabalho vencedor e a UBE teria uma sobra capaz de custear condomínio, luz e telefones pelo ano todo e possivelmente uma pequena reserva para eventuais despesas de viagens – sempre realizadas em carro do presidente (eu e os meus antecessores e sucessores).

Depois desse entrevero, realizei ainda a entrega do Troféu Tiokô, que estava esquecido há pelo menos cinco anos; nessa cerimônia, instituí, com apoio da Diretoria, diplomas de mérito, de modo a aliviar os custos com a confecção das estatuetas; e também, de minha iniciativa, com apoio da diretoria, concedemos diplomas de mérito a um médico que teve coragem de denunciar, em Boletim de Ocorrência na Polícia, a falta de importante equipamento capaz de salvar vidas no Hospital de Urgências de Goiânia, bem como a um jovem funcionário público que, idealista, instituiu em Goiás a luta de prevenção e combate à AIDS. É bom lembrar que tanto esse médico quanto o funcionário vinham sendo perseguidos pela cúpula do Executivo goiano. Nossa atitude emprestou-lhes um reforço de dignidade.

Concluí minha gestão com a sensação do dever cumprido e com a questão financeira sob duas análises: um cheque de valor próximo a dois mil reais a ser pago, e um saldo em dinheiro e contribuições a receber (de solução fácil, pois que equivalia a débitos de diretores eleitos) capaz de cobrir o valor questionado. O presidente que me sucedeu, o poeta Coelho Vaz, solucionou a pendência, ao seu modo eficiente e sóbrio.

O lamentável, para mim, que sou um ideólogo do amor e da amizade, foi o estremecimento entre mim e Bariani Ortencio. Sei que nos admiramos à distância, e sei também que não concordamos, mutuamente, com as nossas atitudes muitas vezes diferenciadas, mas respeitávamo-nos nas diferenças e admirávamo-nos por nossas competências.

Há poucos dias, como que envernizando um passado alongado por diferenças, tive chance de me aproximar dele além do formalismo de nossos encontros na Academia Goiana de Letras. Estive em sua casa para entrevistá-lo para o citado projeto de memória da Academia e do Centro Cultural Oscar Niemeyer.

Lembrei-me que em 1982, num programa chamado “Boa Tarde, Goiás”, da TV Brasil Central, entrevistei-o ao vivo, diante das câmeras, para todo o Estado de Goiás. Data dessa época nossas primeiras conversas e discussões inevitáveis.

Sempre achei fácil entrevistá-lo; conheço bem sua vida e sua obra, tanto em livros quanto na tevê, em literatura e no folclore. Sei de sua prosa rica e de seu amor pelo folclore, especialmente pelas comidas e mezinhas (é com Z) que enriquecem seus trabalhos. E se somos confrades acadêmicos, sendo a Academia um clube vitalício, por que mantermos aquele afastamento que em nada me agrada? Acho também, sem falsa modéstia, que posso lhe fazer bem, ao meu modo.

Não sei o que pensa o Bariani, mas seu coração descende também dos similares apaixonados da formosa Itália; acredito que ele aceita, com  cordialidade, a amizade que lhe proponho, renovada e sem máculas.

Pode ser, meu velho?

* * *


8 comentários:

Beth Moiana disse...

Meu compadre querido...Não tenho o dom de me expressar como você, quem dera tivesse...Li com carinho e se algum dia em minha vida um amigo me escrevesse dessa forma,ficaria altamente emocionada, como fiquei lendo sua crônica, e em resposta lhe mandaria um enorme buque de rosas...Será que consegui me fazer entender..??? Beijo.

Tania Rocha disse...

Poeta Luiz De Aquino,
Passei anos pensando que no mundo das artes ,não havia espaço para "pendengas" que envolvem dinheiro ,poder e afins. Vejo agora, que não é bem assim. Admirável seu gesto, estendendo a mão,na sincera disposição de reatar a amizade, o convívio com um colega ,um amigo.Ambos têm em comum o amor pela cultura, realmente não merecem esse estremecimento.

Creuza disse...

Poeta, li... reli...novamente li. Todo o texto me deixou encantada com o seu compromisso com a cultura, com a literatura desta terra. Infelizmente, em se tratando de cultura, tudo é mais difícil nesta nossa terrinha. Aqui na minha cidade é pior do que aí na sua. Bem, voltando ao seu texto... todo ele me encantou, mas o final, naquele ponto em que você propõe a reconciliação com o Bariani,me arrancou lágrimas. É ... sou assim, chorona. Admiro você tanto quanto admiro o Bariani. Dele sou amiga, embora saiba muito menos sobre ele do que você. Oxalá esta reconciliação aconteça e quem sabe vocês dois aqui em minha casa um dia destes?!!!!!!!!! Um carinho imenso. Creuza

Elisabeth Lemes de Sousa Martins disse...

Acredito que não perdemos ninguém, os afastamentos, muitos deles, acredito eu, servem para concretizar alguns laços, digo daquelas pessoas que realmente são respeitáveis, dignas de afeto. Esses longos anos serviram para confirmar o valor de um para o outro; sempre é tempo de se encontrar, ainda mais, quando se avistaram o tempo todo, cada um a sua maneira. Linda crônica, valoriza o poder da reaproximação.

Braulio Calvoso Silva disse...

Caro Luiz de Aquino, vi palavras de grande apuro, posição firme, sem ser, com o amigo, duro. Se pudesse definir, diria que foi um "um papo gran fino". Reaproximar-se de Bariani, mesmo non parlando Italiani, é algo pleno de nobreza, descrito à pena com destreza, sabendo que todos nós, amantes das letras, o apoiamos, com certeza. Continue se assumindo, com essa sincera leveza, sabendo que a todos inspira, com essa delicadeza. Se houver ocasião, gostaria de ver a foto, de dois baluartes goianos, sorrindo e apertando as mãos. Abraço dos seus amigos, Braulio e Belot.

Adriano César Curado disse...

Luiz,

Corajosa e importante essa sua crônica. Ela nos transporta pelos bastidores das instituições culturais, desnuda-nos a realidade da luta para mantê-las vivas. Os fatos que narra são importantíssimos e deveriam servir de exemplo a tantos gestores culturais que não fazem nada.

É muito fácil manter, por exemplo, uma academia de letras em banho-maria, apenas para lustrar o próprio ego. Mas quero ver pegar o boi pelo chifre e fazer acontecer.

Seu empenho pela sobrevivência da UBE-GO deveria ser mais divulgado.

Um abraço.

Mara Narciso disse...

Um gesto de grandeza, sendo amigo de verdade, sem subserviência, e com muita coragem, pois se expõe a opinião pública na sua dificuldade administrativa, e na resolução desses fatos. Admirável atitude! Parabéns!

Maria de Lourdes Primo disse...

Gesto muto nobre, caro Luiz!!! A humildade é para mim o mais nobre dos Gestos humano! Aproveitem para apertar as mãos na homenagem ao Ursulino...
Um reencontro fraternal...
Abraços!