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quinta-feira, novembro 15, 2012

Retratos de Saudade


Vó Lilita e Vô Israel, em casa, com Lucas, 1995.

Retratos de Saudade





Há alguns dias, senti que me faltavam as forças do sentimento, algo assim como entender a vida sem-graça, triste, e mal vivida; com o agravante de que o tempo restante é mais curto a cada instante e que a capacidade de amor torna-se, igualmente, frágil e quase que desnecessária.

Falam-me do amo maior, esse que não tem limites nem forma, nem cheiro nem rumo certo – o amor cristão, o amor caritativo, sem pieguice mas capaz de transformar o mundo. Há notícias de que o hercúleo trabalho de transposição das águas do Rio São Francisco para minimizar a crueldade natural do agreste nordestino está simplesmente abandonado. Sejam quais forem as razões, esse abandono é um crime – mas os partidários do governo acham-se superiores às leis, estranhamente. E se as leis feitas por seus iguais, ainda que de outros tons políticos, são por eles minimizadas, o que pensarão eles de valores morais fortes no sentimento humano da tradição cristã?

Momento de encostar a política. Momento de esquecer o amor, que já me deu tanta alegria mas não me esqueço também das dores. O amor costuma chegar de súbito, não dá aviso prévio nem mede a nossa resistência. Releio textos em prosa e poesia e me acho amoroso demais. Depressão? Sei lá! Descubro que dois dias e alimentação absolutamente irregular, em qualidade do que comi e nos horários totalmente violentados, deixaram-me capaz de interpretar mal qualquer coisa, e sobretudo capaz de uma agressividade gratuita e triste – mas, evidentemente, irreversível.

Mas os momentos se seguem. Há pouco menos de meia hora, sentia-me estéril, não acreditando no que poderia escrever; preferi reviver uma antiga crônica – tenho feito isso e sinto-me gratificado, opis os leitores que desconheciam o texto, bem como os que o releem, sentem algo de diferente; e é essa razão de alegria do autor, naturalmente. E eis qwue uma jovem e bela poetisa presenteia-me com esse mimo, “Saudade”:

Saudade é casa caiada.
Cheiro de vó
café com pão.

Saudade é febre
chá de alho
terço na mão

Saudade é fraqueza
rosto molhado
carta no chão.

De Renas Barreto (em homenagem à minha vó Vitória Angélica)

Ora! Ontem, meus sobrinhos e filhos ressuscitaram imagens de meu pai, desencarnado aos 89 anos em 14 de novembro de 2011. Fotos dele ao violão e ao bandolim, fotos dele com minha mãe, comigo e meu filho e meu neto... O tempo e as dores ensinaram-me a tratar a saudade de modo a não me causar dor. A dor da ausência incomoda-me quando do rompimento, mas aprendi a aceitar o destino. Entretanto, gosto de curtir um cedê que meu saudoso amigo José Cunha Gonçalves (desencarnado este ano)  presenteou-me: apenas músicas intituladas ou sob o tema da saudade. E “Saudade”, do maestro goiano Joaquim Edson Camargo, era das preferidas de minha mãe (19/09/1923-22/03/2004) e uma das duas escolhidas por ela para que meu pai executasse ao bandolim no momento de seu sepultamento. E foi aproximadamente por essa época, sem a evocação da saudade dos mortos, mas dos presentes idos ou distantes, que compus esse poema, “Saudade certificada”: 

Saudade do teu cheiro. Saudade
do tremor discreto de tuas mãos
porque te beijei sem avisar.

Saudade de beijar teus pés;
e dos teus dedos
a escrever carícias nos meus cabelos.

O tempo e o longe dão-me plena
esta intolerável certeza: a saudade
é certificado incontestável da tua ausência.

Pois é... Se existiu, valeu a pena! Se contribuiu para a minha felicidade, valeu a pena! Se me doeu, valeu pelo que me ensinou – e sou eterno aprendiz. Mas a minha homenagem vai para Renas Barreto. É muito bonito ver alguém com saudade de vó...

* * *

11 comentários:

Braulio Calvoso Silva disse...

Lembranças de um passado, memórias de ente amado, nada disso pode ser negociado, nem sequer de papel passado. Não tem cultura erudita que supere a lembrança, dita. Não há espaço disponível para un sentimento que, de nobre, ocupa todo o invisível. Não há limites para uma saudade que, para não se tornar pesada, dá razantes à beira do risível; pois, da vida vivida, não se leva nada, senão a sabedoria curtida, em tonéis de carvalho envelhecida, e de sabedoria embevecida.

Abraço Luiz de Aquino,

Marilene Dantas disse...

Saudade é aquilo que faz os devaneios ser mais fortes que a realidade! É o que foi... E continua sendo...

Leandra Felipe disse...

Saudade é essa coisa que não tem tradução, não é? Mas todos sentem ou sentirão. Bjs

Mara Narciso disse...

Não sabia que era raro saudade de avó. Eu também sinto saudades da minha, morta em 19 de novembro de 1986. O curioso é que ela nasceu em 4 de junho de 1910. Nasceu quando passou o cometa de Halley e morreu quando ele voltou, mas ninguém viu. Amor de avó é doce. Ela nunca me repreendeu. Só me deu amor. E a saudade que a pessoa dela evoca é suave e sem dor. Você disse que começou a escrever vazio e encheu a gente de luz e de esperança. Obrigada, Luiz.

Thays C. Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thays C. Ferreira disse...

Saudade... Tão português, tão galego... Tão universal! Tanto sentir de solidão, de nostalgia; de desejo, angústia, alegria; o que nos aquece o peito, o que nos esfria. Parabéns, Luizinho! Amei. :)

allyne pimenta disse...

Saudade, poeta, ah... palavra que em mim tanto dói. Penso que ela habita em um perfume, uma música, ou em uma xícara de café acabamos de tomar a sós. Saudade do que foi vivido, e até do que não o foi. Saudade está em receber ligações, mas nenhuma que nos deixa plenamente felizes. Penso eu que Não há o que alivia a dor da saudade. Ela está aqui, ali, aí. O dia amanheceu preto e branco. Chuvoso, enfim... Amanheceu carregado de saudade.

Luiz de Aquino disse...

Eu sei como colori-lo... Com versos distantes e felizes, imagens de margens correndo na vidraça do automóvel, uma taça de café com sorvete e licores, um sonho que caminha com o Sol e espera a Lua.
as mãos que acenam o adeus hão de estar prontas para um novo bom-dia e os olhos que se olham felizes precisam entender que ajudam a renascer os sonhos. Nada como uma nova alvorada!

Maura disse...

Nossa, acabo de ver na mente minha vozinha tremando as mãos ao beber seu café com leite adorado...Ao ajuda-la a segurar a xícara ela dizia: a vó cuidava de você , agora você cuida da vó né nega! que bom que tenho quem cuide de mim. Só quem teve a chance de passar por essa emoção sabe oque estou dizendo. Bjs Luiz.

Eliza Gregio disse...

Saudade e um sentimento lindo, nos faz sentir vivos da vida sô levamos a saudades do que um dia nos fez sorrir nos fez feliz e nada mais.

Um abraço

Eliza gregio

Renas Barreto disse...

Hoje o meu agradecimento é ao escritor Luiz de Aquino da Academia Goiana de Letras, que só nos traz encanto nas palavras. Uma das mais lindas e sentidas homenagens que já recebi a partir do Retratos de Saudade, inspirado em meu poema. Fez da saudade saudação.