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Não exigir qualidade literária, mas tratamento digno para com a Língua - que, em síntese, é a nossa verdadeira pátria. |
Falar e escrever
Ah, língua brasileira! Não
haverá, jamais, acordo internacional capaz de propiciar ao linguajar humano uma
homogeneidade, seja qual for. Alegam os defensores do famigerado acordo que a
escrita, em língua castelhana, é padronizada desde a Terra do Fogo, a fronteira
Sul entre o Chile e a Argentina, até as margens do Rio Grande, que separa
México e EUA; e também nas ilhas oceânicas em que pisaram os naturais de
Espanha.
A escrita será igual; a
linguagem, não – afirmam. Sim, isso é perfeitamente compreensível, haja vista
termos aprendido que as vogais têm sons abertos – a, e, i, o u –, mas,
ultimamente, os coleguinhas jornalistas dos veículos falados referem-se à
Avenida Ê – mas até há bem pouco tempo dizíamos Avenida E (é). Sei que há forte influência dos paulistanos e sulistas,
presenças marcantes em Goiás desde o início do agronegócio; então, porque eles
falam “éstra” no que entendíamos, até recentemente, como “extra” (ê)?
É certo que apreendemos e
incorporamos muito do que ouvimos de nordestinos, nortistas, sulistas e
cariocas, mas o sotaque de nossa herança passa, obviamente, por transformações
interessantes. Está desaparecendo, por exemplo, o modo de falar das nossas
cidades auríferas – Vila Boa de Goiás, Jaraguá, Meia-Ponte, Corumbá, Santa
Luzia, Bonfim... quem viveu os anos que vivi (estou na segunda metade da minha
década de 60) sabe que a musicalidade do falar goiano está muito diferente,
agora.
Gosto de ouvir nossas
palavras cortadas, abreviadas; de uma, apenas, não gosto da síncope: gueiroba
em lugar de guariroba. Na escrita, alguns escribas, de livros e de jornais,
substituem a bonita forma pequi por piqui, alegando a pronúncia. Ora: a gente
escreve futebol e pronuncia futibol. E há quem banque o chique escrevendo –
especialmente como nomes próprios – theatro em lugar de teatro. E falam
“tê-atro”, em vez de tiatro, como seria o regular da nossa fala local.
“Vontá dimbora durmi”, é
frase comum no falar coloquial. E responder, gritando, a um chamado com o
infalível “Tô ino”, em lugar de “Estou indo” é goiano demais da conta! Mas o
que mais se nota – e a frase já se espalha por todo o país, especialmente entre
os entrevistados na tevê - é “O
marrapossível”. É o que respondem políticos e técnicos, delegados e coronéis, professores
e populares diante dos repórteres.
Ah, os repórteres! Destes,
no rádio e na tevê, ouço sempre e me divirto: “departamento pessoal” em vez de
“departamento de pessoal”. O mesmo se dá quando devem dizer “corpo de delito” –
o “de” é novamente omitido. E a moda, que saiu das falas dos “da imprensa”,
alcança agora advogados e delegados de polícia.
Na escrita, porém, essa que
foi “padronizada” pelo acordo entre os países de línguas lusófonas, o bicho
pega! Mesmo profissionais que deviam saber misturam C com S, não sabem onde
entra o Ç e usam X, SS e Ç como se isso fosse tão normal quanto escrever
Pollyanna ou Hytallo. Ou Rhackell.
* * *
8 comentários:
Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.
Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.
Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.
Ah se todos os dias alguém escrevesse um texto assim para nos manter alertas. Para um paulista que morou em Goiânia, é uma coisa boa demais da conta. Abraços ao meu amogo poeta.
As falas citadas são todas nossas aqui de Montes Claros. Dia desses, estarrecida, vi minha tia, de 67 anos, e que sempre falou "neném" para se referir a criança pequena, falar "bebê". Quase falei, mas em homenagem ao respeito que tenho por ela, apenas observei. Diante do nono neto, a comunicação mudou. Fiquei triste em ver como a fala televisiva atropela e engole os regionalismos. Sem lembrar do horroroso "risco de morrer".
Poeta, me dói ver a Globo insistindo em que nós, do Sudeste, que sempre anasalamos os ditongos ai e ei quando seguidos de m ou n, pronunciemos Roráima porque os nativos de lá o fazem assim.
Quase perdi um avião em Congonhas quando ampliaram os embarques e criaram as salas D e E. Chamaram pra sala Ê (fechado) e eu fiquei boiando. Falei com um amigo: não tem circunflexo nesse "e", por que vocês fecham a pronúncia? Resposta: também não tem acento agudo.
Interessante, adorei a Crônica
ah tbém palavras que antes eram faladas, e hoje perderam o valor
exemplo: Vosmecê
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