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domingo, maio 12, 2013

Falar e escrever


Não  exigir qualidade literária, mas tratamento digno para com a Língua - que, em síntese, é a nossa verdadeira pátria.

Falar e escrever


Ah, língua brasileira! Não haverá, jamais, acordo internacional capaz de propiciar ao linguajar humano uma homogeneidade, seja qual for. Alegam os defensores do famigerado acordo que a escrita, em língua castelhana, é padronizada desde a Terra do Fogo, a fronteira Sul entre o Chile e a Argentina, até as margens do Rio Grande, que separa México e EUA; e também nas ilhas oceânicas em que pisaram os naturais de Espanha.

A escrita será igual; a linguagem, não – afirmam. Sim, isso é perfeitamente compreensível, haja vista termos aprendido que as vogais têm sons abertos – a, e, i, o u –, mas, ultimamente, os coleguinhas jornalistas dos veículos falados referem-se à Avenida Ê – mas até há bem pouco tempo dizíamos Avenida E (é). Sei que há forte influência dos paulistanos e sulistas, presenças marcantes em Goiás desde o início do agronegócio; então, porque eles falam “éstra” no que entendíamos, até recentemente, como “extra” (ê)?

É certo que apreendemos e incorporamos muito do que ouvimos de nordestinos, nortistas, sulistas e cariocas, mas o sotaque de nossa herança passa, obviamente, por transformações interessantes. Está desaparecendo, por exemplo, o modo de falar das nossas cidades auríferas – Vila Boa de Goiás, Jaraguá, Meia-Ponte, Corumbá, Santa Luzia, Bonfim... quem viveu os anos que vivi (estou na segunda metade da minha década de 60) sabe que a musicalidade do falar goiano está muito diferente, agora.

Gosto de ouvir nossas palavras cortadas, abreviadas; de uma, apenas, não gosto da síncope: gueiroba em lugar de guariroba. Na escrita, alguns escribas, de livros e de jornais, substituem a bonita forma pequi por piqui, alegando a pronúncia. Ora: a gente escreve futebol e pronuncia futibol. E há quem banque o chique escrevendo – especialmente como nomes próprios – theatro em lugar de teatro. E falam “tê-atro”, em vez de tiatro, como seria o regular da nossa fala local.

“Vontá dimbora durmi”, é frase comum no falar coloquial. E responder, gritando, a um chamado com o infalível “Tô ino”, em lugar de “Estou indo” é goiano demais da conta! Mas o que mais se nota – e a frase já se espalha por todo o país, especialmente entre os entrevistados na tevê - é  “O marrapossível”. É o que respondem políticos e técnicos, delegados e coronéis, professores e populares diante dos repórteres.

Ah, os repórteres! Destes, no rádio e na tevê, ouço sempre e me divirto: “departamento pessoal” em vez de “departamento de pessoal”. O mesmo se dá quando devem dizer “corpo de delito” – o “de” é novamente omitido. E a moda, que saiu das falas dos “da imprensa”, alcança agora advogados e delegados de polícia.

Na escrita, porém, essa que foi “padronizada” pelo acordo entre os países de línguas lusófonas, o bicho pega! Mesmo profissionais que deviam saber misturam C com S, não sabem onde entra o Ç e usam X, SS e Ç como se isso fosse tão normal quanto escrever Pollyanna ou Hytallo. Ou Rhackell.

* * *


8 comentários:

Osair de Sousa Manassan disse...

Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.

Osair de Sousa Manassan disse...

Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.

Osair de Sousa Manassan disse...

Ótima crônica, Luiz [como sempre, né?]. Essa, em especial, me trouxe à mente o nosso Geraldinho Nogueira.
É sempre um prazer para mim a leitura de seus escritos e descritos, embora pouco comente.
Parabéns, poeta.

Luiz Delfino Bittencourt Miranda disse...

Ah se todos os dias alguém escrevesse um texto assim para nos manter alertas. Para um paulista que morou em Goiânia, é uma coisa boa demais da conta. Abraços ao meu amogo poeta.

Mara Narciso disse...

As falas citadas são todas nossas aqui de Montes Claros. Dia desses, estarrecida, vi minha tia, de 67 anos, e que sempre falou "neném" para se referir a criança pequena, falar "bebê". Quase falei, mas em homenagem ao respeito que tenho por ela, apenas observei. Diante do nono neto, a comunicação mudou. Fiquei triste em ver como a fala televisiva atropela e engole os regionalismos. Sem lembrar do horroroso "risco de morrer".

Romildo Guerrante disse...

Poeta, me dói ver a Globo insistindo em que nós, do Sudeste, que sempre anasalamos os ditongos ai e ei quando seguidos de m ou n, pronunciemos Roráima porque os nativos de lá o fazem assim.

Romildo Guerrante disse...

Quase perdi um avião em Congonhas quando ampliaram os embarques e criaram as salas D e E. Chamaram pra sala Ê (fechado) e eu fiquei boiando. Falei com um amigo: não tem circunflexo nesse "e", por que vocês fecham a pronúncia? Resposta: também não tem acento agudo.

valeria silva disse...

Interessante, adorei a Crônica
ah tbém palavras que antes eram faladas, e hoje perderam o valor
exemplo: Vosmecê