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quinta-feira, maio 23, 2013

Os pássaros, o saber e o trabalho

Os pássaros, o saber e o trabalho


Recebi da professora Mara Rúbia (da Rede Municipal de Ensino, Goiânia) o seguinte texto:

“Já era quase viração do dia quando Deus observava aquela cena: duas professoras dando água na colher para uma pequenina ave. Não era nem Primavera nem Verão – quando dizem que é comum as aves jovens caírem de seus ninhos –, mas a frágil avezinha estava lá, na Escola, que não tem um belo jardim cheio de rosas. Lembrei-me – “Olhai as aves do céu”... Fiquei sensibilizada, achei aquela cena interessante e admirável - uma pequena ave, um copo com uma rosa vermelha e duas professoras alimentando quem queria se alimentar. Diferentemente do pequeno homem que na escola rejeita o alimento-saber. Quem deveria ser mais sábio? O homem ou a ave?

No livro O Futuro da Humanidade, Augusto Cury nos remete à seguinte reflexão – ‘Mais sábios que os homens são os pássaros. Enfrentam as tempestades noturnas, tombam de seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram suas histórias. Pela manhã, tem todos os motivos para se entristecer e reclamar, mas cantam agradecendo a Deus por mais um dia’. Tanta sabedoria tem um porquê: certamente as aves aprendem em cada voo pelo mundo. E Mário Quintana dizia que os pássaros alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. Penso que pelo menos partem cheios, satisfeitos, saciados.

Imaginei como ficariam as mãos das professoras após a partida do pequeno pássaro! Não se sentiriam vazias, pois o alimento foi consumido. Naquele momento as duas foram árvores para aquele passarinho, o destino dele estava em suas mãos. Vendo aquele pequeno pássaro, fiz analogia com nossos “pássaros pequenos” que não sentem a mínima fome do saber, tampouco desejam alçar voos. Mas, como o sabiá que canta sem esperar quem o escute, ensinemos. Eis que alguém, um dia, irá voar... (Mara Rúbia)”.

Muito bem concebido, professora Mara Rúbia! A analogia é das melhores. O pássaro que as mestras alimentaram voltou à sua rotina, ao seu “habitat”, à sua natureza. Mas dar de mãos humanas o alimento ao pássaro é gesto caritativo, humano; para mim, a cena ensina (perdoe-me pele eufonia sibilante) que devemos ser solidários, mas que se o gesto cristão – ou  melhor, o gesto humano – nos emociona e engrandece quem o pratica, o beneficiário segue seu caminho já esquecido da dádiva:  a chance de voltar à vida.

Dar alimento ao animal ferido é, pois, ação humana; até mesmo outro animal da mesma espécie ignoraria a infausta ave caída. Ele, o passarinho, aceitou a água sem compreender que era alvo de uma ação humanitária, solidária. O gesto das mestras despertou em você um sentimento de Primavera ou Verão, vendo na rosa em um copo um completo jardim. O jardim, Mara Rúbia, existe mesmo, mas ele não está no rigor do Inverno nem na áspera transfiguração outonal: existe no seu coração de emoções, esse coração de que tratam os poetas.

A sabedoria não é dos pássaros, nem dos macacos, nem das minhocas ou dos leões; a sabedoria é das pessoas que compreenderam ser fundamental alimentar o animalzinho ferido, como insistem em pôr a água do conhecimento nas mentes dos pequeninos inquietos. Esse não-querer que você destacou nos pequenos humanos ante o aprendizado é efêmero e há de ser contornado; as crianças têm, sim, desejo de saber, mas o que deve estar em desencontro é que nem todos os professores querem dar dessa água aos pequeninos pássaros humanos.

Não entendo como sabedoria o fato de os pássaros reagirem, sobrevivendo, às tempestades. O homem fez e faz muito mais, sempre. Não há sabedoria nos pinguins que navegam banquisas no caminho das correntes marinhas que buscam o Norte e, à medida que o gelo se reduz a some, nadam na mesma corrente em busca de regiões menos frias – isso é o instinto. É como mariposas circulando lâmpadas. Como não há sabedoria nas andorinhas que migram do rigor dos Invernos em busca dos Verões no hemisfério oposto.

Mas quanta sabedoria no seu coração de mestra! E que olhar o seu, capaz de colher imagens que se tornam poemas!


* * *



8 comentários:

Guimarães Filho disse...

Sr. poeta,
levanto-me temeroso e leio a sua crônica, e abasteço-me de ração diária para o dia que começa. Ontem li por acidente outro poema de Maiakóvski, e fiquei pesado, cheio de angústia. Tenho pena dele! Pobre homem que viveu a sua dose de amor e não suportou a carga pesada que esse mesmo amor lhe impôs. Leio a sua crônica e vou para a Universidade leve, suave, como o pequeno pássaro de Mara Rubia, que recebe das mãos de quem o alimenta o alento da vida, a porção do amor. Suas crônicas transformam o meu dia de um sol pálido e cinzento em clara luz e nuvens brandas! Obrigado pelo presente!
Abraço acadêmico, Guimarães Filho.
Universidade de Coimbra, Portugal, 24-V-13

Maria Helena Chein disse...

Luiz, na beleza da crônica de hoje, você e Mara Rúbia proporcionaram
um instante mágico, sensível e forte a nós, leitores.
Bjs.
Maria Helena

Luiz Delfino Bittencourt Miranda disse...

Amigo poeta, que voo encantador.
É impossível dizer o que se sente ao ler esta crônica de hoje e, por favor, não se zangue, mas uma das mais belas que já li de sua lavra. Saudade do Luiz Delfino

Mara Narciso disse...

Belíssima fonte de emoção e saber e maravilhoso aprendizado você captou, Luiz. Quando na atualidade o homo sapiens mudou de cara e tornou-se insana fera, vem alguém dar de beber a um pássaro, compará-lo aos enfastiados meninos e você junta tudo numa sábia lição de vida. Parabéns aos três: professora, passarinho e você.

LUIZ ANTONIO CRUZ disse...

Muito Lindo !!!!

Mara Rubia disse...

Caro Luiz,

Muito interessante a discussão que você levantou sobre o tema e que, com esperteza, a intitulou como – Os pássaros, o saber e o trabalho.
Como a asa é importante para o pássaro, assim é o leitor para o escritor. Portanto, a literatura para ser democrática me permite opinar acerca de seu texto. Há apenas uma parte nele que não achei tão viável ou pertinente, já que no título você evidencia os pássaros, o que com certeza, gera boa expectativa no leitor ou pelo menos perspectiva de uma discussão positiva sobre estes seres.

A parte é “Não entendo como sabedoria o fato de os pássaros reagirem, sobrevivendo, às tempestades. O homem fez e faz muito mais, sempre. Não há sabedoria nos pinguins que navegam banquisas no caminho das correntes marinhas que buscam o Norte e, à medida que o gelo se reduz a some, nadam na mesma corrente em busca de regiões menos frias – isso é o instinto. É como mariposas circulando lâmpadas. Como não há sabedoria nas andorinhas que migram do rigor dos Invernos em busca dos Verões no hemisfério oposto.”

Em mim gerou uma forte sensação de crítica ou talvez de depreciação das ações dos bichos. Poderia discorrer sobre o que então faz os tais pássaros e outros animais agirem de forma “bonita”, “sábia”, apesar de agirem apenas por instinto...
A discussão trata-se tão somente de como nós e o animais agimos ante “as tempestades” da vida. Obviamente que o homem é o que pensa, portanto o que faz, inventa, domina...
A sabedoria que levantamos sobre os mesmos é figurada e você bem entende sobre figuração – vive de literatura diária.
Em se tratando de racionalidade é claro que entre o homem e os animais aquele detém a sabedoria, pois pensa, calcula, raciocina, porém nem sempre a utiliza efetivamente. Nesse sentido, o homem é posto como esperto, inteligente, mas, às vezes, não põe em prática a sabedoria que lhe permite discernir qual o melhor caminho a seguir, a melhor atitude a adotar nos diferentes contextos que a vida lhe apresenta. Ter sabedoria por ser pensante, contudo não utilizá-la quando necessário não define o homem como um ser que utiliza a sensatez, a ponderação, reflexão, perspicácia, tino, senso e discernimento.
Aristóteles descreve sobre a sabedoria prática, da habilidade para agir de maneira acertada, processo nem sempre utilizado pelo homem, que constantemente age de forma insensata, extravagante, estúpida...

Após o nascimento da dialética entre nós (por causa dos pássaros, não pelo saber e o trabalho), quero dizer que amei a crônica!

Abraço ao escritor querido,

Mara Rúbia

Mara Rubia disse...

Caro Luiz,

Muito interessante a discussão que você levantou sobre o tema e que, com esperteza, a intitulou como – Os pássaros, o saber e o trabalho.
Como a asa é importante para o pássaro, assim é o leitor para o escritor. Portanto, a literatura para ser democrática me permite opinar acerca de seu texto. Há apenas uma parte nele que não achei tão viável ou pertinente, já que no título você evidencia os pássaros, o que com certeza, gera boa expectativa no leitor ou pelo menos perspectiva de uma discussão positiva sobre estes seres.

A parte é “Não entendo como sabedoria o fato de os pássaros reagirem, sobrevivendo, às tempestades. O homem fez e faz muito mais, sempre. Não há sabedoria nos pinguins que navegam banquisas no caminho das correntes marinhas que buscam o Norte e, à medida que o gelo se reduz a some, nadam na mesma corrente em busca de regiões menos frias – isso é o instinto. É como mariposas circulando lâmpadas. Como não há sabedoria nas andorinhas que migram do rigor dos Invernos em busca dos Verões no hemisfério oposto.”

Em mim gerou uma forte sensação de crítica ou talvez de depreciação das ações dos bichos. Poderia discorrer sobre o que então faz os tais pássaros e outros animais agirem de forma “bonita”, “sábia”, apesar de agirem apenas por instinto...
A discussão trata-se tão somente de como nós e o animais agimos ante “as tempestades” da vida. Obviamente que o homem é o que pensa, portanto o que faz, inventa, domina...
A sabedoria que levantamos sobre os mesmos é figurada e você bem entende sobre figuração – vive de literatura diária.
Em se tratando de racionalidade é claro que entre o homem e os animais aquele detém a sabedoria, pois pensa, calcula, raciocina, porém nem sempre a utiliza efetivamente. Nesse sentido, o homem é posto como esperto, inteligente, mas, às vezes, não põe em prática a sabedoria que lhe permite discernir qual o melhor caminho a seguir, a melhor atitude a adotar nos diferentes contextos que a vida lhe apresenta. Ter sabedoria por ser pensante, contudo não utilizá-la quando necessário não define o homem como um ser que utiliza a sensatez, a ponderação, reflexão, perspicácia, tino, senso e discernimento.
Aristóteles descreve sobre a sabedoria prática, da habilidade para agir de maneira acertada, processo nem sempre utilizado pelo homem, que constantemente age de forma insensata, extravagante, estúpida...

Após o nascimento da dialética entre nós (por causa dos pássaros, não pelo saber e o trabalho), quero dizer que amei a crônica!

Abraço ao escritor querido,

Mara Rúbia

Luiz de Aquino disse...

Querida professora,

O tema continua aberto! Não bastasse a delicadeza e a profundidade de seu texto de origem, eis que me brinda com este belíssimo comentário, digno de uma mestra da sua grandeza!
E por continuar aberto, continuo, esta semana, expondo seu comentário - um verdadeiro apêndice esclarecedor com que muito aprendi - aos nossos leitores.
Seja sempre benta, querida Professora Mara Rúbia!