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quinta-feira, outubro 16, 2014

Desconstrução e ódio

Desconstrução e ódio



Desde aquela Cartilha do Politicamente Correto o desacato total à Língua Portuguesa virou instituição; motivados pelo irônico – ou  cínico – “todas e todos” e suas variantes incontáveis (desde as “sábias” falas de Sarney), as “autoridades” inseriram  “presidenta”, em nome de um atendimento espúrio ao movimento feminista; na esteira, vieram coisas piores, como “oficiala” (tenho comigo um documento de cartório em que aparece tal título) e o que me deixou perplexo: “bacharela” – este, imposto por assédio moral a dirigentes de faculdades: mulheres formadas receberam diplomas com essa qualificação e muitas, felizes com a excrescência, assim assinam sofríveis artigos em jornais).

Nos programas eleitorais, Iris Rezende fala “serão” (Futuro do Indicativo do verbo ser) e aparece na legenda “seram”; ele fala “quilômetros” e na legenda surge “kilômetro”. E aí, fazer o quê? A "recandidata" gaguejou sistematicamente para falar “previsibilidade”.

Surpreendi-me com outra palavra: desconstrução. Usada  à exaustão pelos marqueteiros e militantes de Dilma, refere-se não a demolição, mas a desmontagem. Aplicada como se pratica da atual campanha de ódio e vale-tudo, a palavra se reveste dos conceitos da calúnia, do denuncismo (neologismo político) e, em alguns casos, da injúria e da difamação. Aécio disse que Dilma teria afirmado: “Em campanha a gente faz o diabo”; deve ter dito, porque ela não o desmentiu (no debate da Band, esta semana).

Lamento que a nação, quase trinta anos após o fim da ditadura, tenha de viver isso. A presidente Dilma teria usado ponto eletrônico no debate na Band; tudo bem, não fosse assessor, falando “em off”, valer-se de palavras pouco freqüentes no vocabulário dela, como “previsibilidade”.

Foi então que entendi porque Dilma não conseguiu defender sua dissertação de mestrado. Para se ser Mestre, há que se ler e escrever; se não sabe falar, como escreveria? Como leria um texto diante da banca, texto esse que poderia ser escrito por qualquer um, mediante paga ou não; mas, ao ler, teria de pronunciar corretamente, ou seria desmascarada.

Votei em Lula no segundo turno de 1989; votei nele em todas as eleições subseqüentes; e por sua indicação, votei em Dilma, a desconhecida; agora que a conheço, não voto mais. Meus amigos petistas têm respeitado a minha postura; mas os conhecidos que não são meus amigos agridem-me verbalmente quando percebem, por eu dizer ou por meus atos, que não votarei na economista que não soube conduzir a economia (não entendo: ela podia ter mantido o Henrique Meireles no governo, mas...). Não voto naquela arrogância nem no ódio que ela impôs à militância que, estranhamente, defende-a como ídolo, quando deveria desprezá-la por prejudicar o partido.

Respeito os amigos, os conhecidos e os estranhos que militam, que ostentam a estrela e a sigla PT, que admirei quando defendia a ética e a dignidade (agora tão estranha). Respeito-os por escolherem dentro de seus conceitos e princípios, como eu faço minhas escolhas. Não respeito os detentores do ódio, similares a torturadores do arbítrio – não têm, hoje, a oportunidade; se lhes dessem a ocasião e os apetrechos, teriam prazer em prender e arrebentar.

É isso: eu não comungo com o ódio; se fosse generalizado, eu anularia o voto pela primeira vez, justo nesta que é a minha última eleição obrigatória.


* * *

4 comentários:

Ludovina Braga Machado disse...

Concordo com você amigo. Não tolero o ódio e pessoas iradas!

Ludovina Braga Machado disse...

Concordo com você amigo. Não tolero o ódio e pessoas iradas!

Eloá Mamare disse...

Essa campanha mais se parece com briga de inimigos. Falam mal do adversário, como se campanha não fosse para mostrar o que de melhor se pode fazer pelo País. Devido a todos os atos praticados pelo PT, voto em Aécio Neves.

Mara Narciso disse...

O ódio começa entre os candidatos e varre por entre os eleitores. Eu mantenho o meu respeito a todos, até mesmo aos que não o merecem. Entendo seu desencanto, Luiz, mas não acho Dilma despreparada para pensar ou falar. Não tem o poder oratório de Aécio, que é uma máquina de discursar. Voto Dilma, mas não sou petista há nove anos, desde o mensalão.