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sábado, setembro 19, 2015

Uma data, duas histórias

Dona Lilita, minha mãe, por Amaury Menezes.

Uma data, duas histórias



Imaginei sempre – mas nunca perguntei isso a nenhum dos dois – que meus pais torceram para que eu demorasse mais quatro dias para nascer. Afinal, era o tempo que faltava para o aniversário de 22 anos de minha mãe. Mas, apressadinho, nasci no sábado, dia 15 de setembro, em 1945. E na quarta-feira, 19, Dona Lilita aniversariou.

Repenso essa ideia e concluo que estou errado. Minha mãe, e também meu pai, gostavam de relembrar fatos e contar histórias. E nunca ouvi qualquer referência a essa minha hipótese. E em momento algum se fez, em casa, aquele empenho em comemorar dois aniversários (da mesma semana, como se vê) num dia só. E na véspera do meu décimo aniversário nasceu o irmão caçula, Ângelo (nós dois, sim, algumas vezes festejamos juntos nossos aniversários, bem como meu filho Leonardo, igualmente de 14/9, na véspera dos meus 23).

Estivesse entre nós, minha mãe festejaria hoje 92 anos. Mas despediu-se... Melhor: recebeu nossas despedidas seis meses após completar 80 anos (precisamente, dia 21 de março, 2004), faltando apenas sete meses para festejar, ao lado do meu Véi Raé (Israel), 60 anos de casados. Hoje, portanto, estaríamos reunidos em torno dela. E em sua ausência, limitamo-nos às orações e às lembranças que tenho sem tristeza, e são cenas de carinhos e aprendizado, ou de atenções e escutas.

E foi num 19 de outubro, em 1999 (justo quando comemoramos seus 76 anos) que faleceu no Rio de Janeiro o contista mais publicado de Goiás, meu amigo e referência maior José Veiga, literariamente mascado como José J. Veiga. Veiga morreu de complicações decorrentes de um câncer de pâncreas. Minha mãe, por sua vez, com uma pancreatite. Associações absolutamente desnecessárias que apenas me ocorrem, perdoem-me!

Veio dela, em mim, esta curiosidade que me fez leitor – muito mais leitor e melhor leitor do que estudante. E de tanto ler até experimentar escrever não precisei de muitos estímulos, eu apenas dava asas à vontade de cumprir o desafio a que me propus (como um menino que ensaia jogadas com a bola tal como vê fazerem os craques, seja nos estádios ou na tevê).

José J. Veiga, esculpido por Neusa Morais
Quando conheci José Veiga, em casa de Dona Geni, em Pirenópolis (1978), eu já tinha os rascunhos dos contos que juntei para publicar “O Cerco e Outros Casos”, livro que veio à luz em outubro daquele ano. Foi ele quem, pela primeira vez, aplicou-me apalavra “escritor”, pronunciando-a com a ênfase de um legítimo locutor (naquele tempo, existiam os locutores – profissionais de vozes bonitas e pronúncias claras, com muito bom domínio da Língua Portuguesa, e José Veiga o foi na Rádio Guanabara, no Rio de Janeiro, e depois na Rádio BBC, em Londres).

Leitor – ou ledor – compulsivo de livros, em Português ou em inglês, o nosso José Veiga apareceu escritor aos 44 anos – o que causou estranheza, pois os autores de livros costumam estrear mais cedo. Mas aquele era um autor especial, exigente demais de si próprio, daí essa delonga em revelar-se o maravilhoso contista que encantou o Brasil e acabou traduzido em cerca de 40 países, mesmo após sua morte (no ano passado, a Holanda o acolheu em sua língua e território).

Este ano, Veiga completou (dia 2 de fevereiro) cem anos de seu nascimento. Eu digo “completou” porque, como vimos, ele não morreu, apenas desencarnou. Sua obra continua a despertar surpresas e curiosidades (que o diga o mestre José Fernandes, acadêmico da Academia Goiana de Letras, a quem o próprio autor de Sombra de Reis Barbudos qualificou como o que fez o melhor estudo de sua obra).

Por isso, leitor que me suporta todas as semanas, este sábado de minha alegria, de minhas lembranças e, com justiça, de minhas homenagens a duas pessoas que tanto significaram na minha formação humanística e no gosto que despertaram em mim por ler (minha mãe) e por teimar na escrita (José Veiga, sem o J. e sem o suposto e por ele sempre rejeitado “Jacinto”).

Viva 19 de setembro de todos os anos!

***


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

9 comentários:

guido disse...

Datas se tornam memoráveis (dignas de serem guardadas na memória) quando referenciam pessoas especiais. Sei que seus pais, assim como o criativo e ímpar JJ Veiga também.
O texto, a crônica, as referências, tudo se sintetiza em uma só ação: louvação.
Parabéns aos pais e ao filho.

guido disse...

Datas se tornam memoráveis (dignas de serem guardadas na memória) quando referenciam pessoas especiais. Sei que seus pais, assim como o criativo e ímpar JJ Veiga também.
O texto, a crônica, as referências, tudo se sintetiza em uma só ação: louvação.
Parabéns aos pais e ao filho.

Mara Narciso disse...

Temos de lembrar do passado e as datas são momentos aceitáveis para a nossa nostalgia.

Sueli Soares disse...

Já lhe disseram que aquele alemão esquisito jamais se aproximará de você? Parabéns, mais uma vez!

João de Sousa Neto disse...

Tio, pessoas queridas devem sempre serem lembradas. Ontem foi um dia de saudades e boas lembranças em nossa família, completou- se mais um ano sem nossa querida e muito amada, dona Lilita. Nossos corações, tenho certeza, que doeram muito e ao mesmo tempo ficaram felizes por termos a oportunidade de tê-la como avó, mãe e amiga. Que ela e seu saudoso amigo José J.Veiga estejam em paz...descansem em paz!

João de Sousa Neto disse...

Tio, devemos sempre lembrar das pessoas que amamos e passaram por nossas vidas. Ontem foi um dia de saudades e boas lembranças. Nossos corações doeram e, tenho certeza, que ao mesmo tempo ficaram felizes porque tivemos a oportunidade única de fazermos parte da vida de dona Lilita. Tê-la como avó, mãe e amiga foi uma benção que agradeço à Deus todos os dias. Desejo que ela e, seu saudoso amigo, José J.Veiga estejam em paz...descansem em paz!

Mirian Cavalcanti disse...

Ah, Luiz, sua crônica fez eu me dar conta dos anônimos e desconhecidos caminhos cruzados que temos com amigos. Pelo que vejo, dona Lilita e minha mãe, Leonor, nasceram ambas em 1923, sendo minha mãe de 22 de abril. Ela ainda está conosco; meu pai , não. E também fui de certo modo apressadinha, pois nasci 10 meses após o casório, veja só, nem dando tempo de eles se adaptarem à vida de casados... Interessante todas essas descobertas de paralelas, especialmente porque anteontem, no dia 18, fiquei pensando em aniversários dos que não estão mais conosco, mesmo que esse "não estar" tenha naturezas diversas. Isso tudo porque acabei me lembrando que exatamente em 18 de setembro aniversaria uma colega do 5º ano primário, muito querida, Sheila, e cujo contato perdi de vez, mal deixamos a Escola Argentina. E eu pensava "puxa vida, a Sheila, onde estiver, nem sabe que estou lhe enviando bons votos!" E, agora, descubro que 14 é o seu dia, não é? Ô setembro de tantos festejos! Mais do que quaisquer outros mortais, os aniversariantes de setembro comemoram de fato primaveras!!! Assim, meu amigo, que nessa primavera que renasce floresçam todos os amores-perfeitos possíveis. Dos afetos, da saúde e de saldos bancários! Abraço carinhoso. Mirian

Luiz de Aquino disse...

Mirian, meu dia é 15; meu irmão Ângelo e meu filho Léo são de 14. Beijo!

António Jesus Batalha disse...

Passando pela net encontrei o seu blog, estive a folhear achei-o muito bom, feito com muito bom gosto.
Tenho um blog que gostava que conhecesse. O Peregrino E Servo.
PS. Se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais faça-o de forma a que eu possa encontrar o seu blog para o seguir também.
Que haja paz e saúde no seu lar.
Com votos de saúde e de grandes vitórias.
Sou António Batalha.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/