Páginas

sábado, julho 15, 2017

Caminhada Ecológica: Dona Maria do Uru





Da. Maria de Lourdes Rodrigues, ou... (Foto: álbum de família)


Dona Maria do Uru



Enquanto escrevo, um grupo de apaixonados pela natureza cuida dos últimos detalhes para a 26ª Caminhada Ecológica – a marca de 310 km de Goiânia a Aruanã, capitaneada pelo professor Antônio Celso Ferreira Fonseca. São 29 caminheiros, alguns assíduos desde a primeira ocorrência de um evento que já se tornou constante em todos os meses de julho, referência importante do que nós, goianos, entendemos ser a “temporada do Araguaia”.

O grande rio, divisa natural entre Goiás e Mato Grosso e Goiás e Pará – antes da divisão territorial de 1989 – é tão importante para nós quanto a pamonha, o pequi e o cerrado. Essa Caminhada Ecológica é um feito sociocultural dos que marcam um povo e um tempo. E é sempre bom e agradável conversar com pessoas que se dedicam a causas como essa, que envolvem muitos fatores – como a prática esportiva, o gosto turístico, a defesa de um ideal como a preservação ambiental e, por decorrência, o sabor indescritível das descobertas de feitos e atos tão significativos como o que ouvi do mestre Antônio Celso.

Conta-me o professor que, numa das realizações da Caminhada, ele foi atraído pela imagem de uma senhora à janela de uma casa, sede da Fazenda Uru, à beira do rio do mesmo nome – divisa natural dos municípios de Itaberaí e Goiás (a antiga capital). Parou e foi à casa, bem à margem da rodovia, e dirigiu-se àquela senhora, que o acolheu com um belo sorriso de boas-vindas.

Era Dona Maria. Dona Maria do Uru, como ficou conhecida. Ele se apresentou, contou da Caminhada, foi convidado para adentrar e experimentou uma bela conversa... Enfim, aquela visita não programada era a semente de uma amizade e de novas marcas para os caminheiros, os “andarilhos da natureza” – como na canção de Matão e Monteiro. Dona Maria serviu-lhe pipoca e café e acolheu o grupo que faz, todos os anos, aquele percurso. A travessia do Uru corresponde ao período de almoço dos atletas na quarta-feira, o segundo dia de andança.

A partir de então, o ponto de almoço passou a ser a Fazenda de Dona Maria. Ela os recebia com ansiosa alegria e os brindava sempre com uma farta mesa de quitandas e café, além da pipoca – que se tornou referência e que ela, aos punhados, lançava sobre aqueles atletas, como que os abençoando em nome de Deus.

Foram dez anos ou mais. Nesta segunda-feira, e com um novo ponto de partida – a cidade de Trindade –, a Caminhada tomará sua trilha e chegará ao rio Uru na manhã de quarta-feira, onde realizará o almoço – mas agora sem a alegria marcante de Dona Maria do Uru. Ela se despediu da vida material em abril passado. Agora, seus beija-flores – como ela se referia aos caminhantes do Araguaia – estarão lá, mas recebidos pelos filhos da matriarca Dona Maria do Uru.

Antônio Celso, atento a todos os detalhes (como convém a um líder de tão legítimo evento), recorda o detalhe de um beija-flor do último abril, no dia em que, na mesma casa da beira do rio e da estrada, velava-se o corpo inerte de Dona Maria. A pequenina e esperta ave entrou pela janela, a mesma onde o professor vira Dona Maria pela primeira vez, esvoaçou por rápidos segundos sobre o corpo e desapareceu. E ficou a sensação de que ela combinara com o pássaro aquela visita, pois, ao lado da janela, dois dos andarilhos, com as camisetas do evento, sentavam-se como vigilantes.

Dona Maria não é mais presença física no Uru, mas sua alma de bondade ali aguardará sempre seus “beija-flores caminhantes”.

Numa canção, esses atletas eram ditos "caminheiros da natureza", mas Dona Maria os chamava de "os beija-flores".
(Foto: Internet)



******



Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

6 comentários:

Sueli Soares, professora e advogada. disse...

Que leitura deliciosa, poeta! Sei que jamais andarei por essas bandas, mas consegui viajar. Obrigada!

Carmem Gomes, escritora. disse...

Sempre imaginei o quanto de coisas maravilhosas esses caminheiros encontram nesse percurso até Aruanā. Agora, caro poeta, você nos traz está belíssima história de Dona Maria do Uru. Um mimo para os curtem a natureza!
Que as bênçãos das pipocas de Dona Maria aos seus chamados "beija-flores caminheiros" se extendam a todos nós que acompanhamos com o coração o cumprimento dessa devoção ecológica!

Sirlene Soares Moreira disse...

Poeta Luiz,que texto lindo!Que Dona Maria do Uru,nunca seja esquecida pelos Beija-Flores!


Lucas Antônio disse...

Que texto maravilhoso. Obrigado!

Ana Caetano, poetisa disse...

"Dona Maria não é mais presença física no Uru", virou poesia de Luiz (de Luz)...

CHÃO LIVRE disse...

Chorei, e solucei com a chegada do beija-flor. Amo este projeto e de há muito o sigo. Bela crônica do amigo Luís de Aquino. Ainda hoje o Facebook me levou a uma foto de 3 anos atrás que reparti com Kamilla Porto de O Popular