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sábado, novembro 10, 2012

As flores, em vez de amores


As flores, em vez de amores


Uma oferta de amor à cidade
“Entre as prendas com que a natureza
alegrou este mundo onde há tanta tristeza
 a beleza das flores realça em primeiro lugar”

(Vinícius de Morais) 








Os ipês guardaram as cores, vestiram suas fardas verdes e assim ficarão até as vésperas das chuvas, ano que vem; agora é a vez de buganvílias, resedás e da festa flamejante dos flamboyants africanos que dominam as paisagens tropicais brasileiras como se estivessem em casa.

Nas ruas de Goiânia, desde os primórdios da primeira década enfeitam-nos os outubros. Encantaram os olhos de minha saudosa Cilene Andrade, filha dileta da virtuose pianista-chorona Tia Amélia, que chegou à nova capital de Goiás num outubro exuberante. O avião estacionava junto à esquina das avenidas Paranaíba e  Tocantins – esta, o caminho do aeroporto de então ao Palácio das Esmeraldas; e à noite, após uma serenata de nunca mais se esquecer, com Júlio Alencastro Veiga ao violino, na sacada do Grande Hotel, olhava a Avenida Goiás rumo ao Palácio, e novamente vislumbrava aquele caminho de flores como caprichosa alcatifa erguida do solo...
E este amarelo, jovem e belo? 
Sim! Goiânia, nesta época, engalana-se das flores de fogo; flamboyant é palavra francesa que quer dizer flamejante. Deliciei-me de documentá-los na Praça do Sol, oficialmente chamada Joaquim Edson Camargo, mas o populacho não sabe sequer que esse nome era de um importante maestro e professor (do Liceu), pai da cantora Eli Camargo. Percorri também trechos de alguns bairros, como Bueno, Pedro Ludovico, Bela Vista e todo o percurso da Avenida Goiás Norte, desde as palmeiras do trecho inicial (dividindo Crimeia Leste de Crimeia Oeste) até deparar-me com as flores alegres no Urias Magalhães, até chegar ao Campus Samambaia, da Universidade Federal de Goiás, onde a festa das chamas continua.

Pensei que escreveria um poema. Para quê? A Natureza, agência de notícias do Pai Criador, dá seu recado em imagens de alegria e escreve poemas em cada pétala, embelezando este domingo já novembro de nuvens chuvosas.
Essas flores pós ipês amarelos, rosas, roxos e brancos, que enfeitaram Goiânia em setembro, tiraram de mim toda a tristeza que me despertou mais cedo num domingo de não-pensar.


Deduzi que é melhor assim. Ninguém capaz de pensar merece sobrepor-se ao encanto da Natureza – recado solene de Deus aos homens de corações sensíveis.






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sábado, novembro 03, 2012

A Língua em que se faz samba


A Língua em que se faz samba


Essa crônica foi publicada em Junho de 2001, no DM, e está no meu livro "Ah, língua brasileira!", de 2011 (Coleção Goiânia em Prosa e Verso). Republico-a como uma homenagem ao amigo Ivair Lima, parceiro das melhores conversas e ideias para novos escritos.


Continuo no tema da língua portuguesa. A língua portuguesa no Brasil, claro. Ou alguma comparação entre o que falamos e o que se fala em Portugal. E as línguas estrangeiras influindo no quotidiano. Tolerem-me, leitores, que terei assunto pelos próximos trinta anos; após esse tempo, não escreverei em jornal. Vale como aviso prévio, Batista: quando fizer 85 anos, aposento-me.

Se vamos brincar ou trabalhar, há sempre um líder (“leader”, do inglês); se temos fome, tomamos um lanche (“lunch”, inglês); antes de namorar, temos o flerte (novamente do inglês, “flirt”); se pegamos um táxi, tem lá um chofer (do francês “chauffeur”); se dominamos uma tecnologia, temos “know-how”; se levamos jeito para alguma coisa que exige mais criatividade ou malemolência, temos “savoir-faire”.

Mas, já se nota, aportuguesamos as palavras estrangeiras ou elas se perdem. Sabe-se que o idioma de Shakespeare, atualmente, tem cerca de três quartos de seus vocábulos originários do latim – por isso, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, estuda-se o Latim; aqui, não precisamos (!?), mas os portugueses não abrem mão da língua dos antigos romanos. As línguas ocidentais flexionam seus verbos em seis pessoas – isso vem do latim. Mas uma malfadada Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sancionada em dezembro de 1961 e posta em prática imediatamente, a partir de março de 1962, mudou tudo. Sem transição. E ficamos alheios a uma das mais importantes ferramentas para o pleno domínio do idioma – daí o português de quem falei ontem afirmar que nós escrevemos muito mal.

Já disse nestas crônicas que recuso-me a comprar de quem promove “sale” em vez de liquidação, que não aceito “delivery” em lugar da entrega em domicílio e não como “fast food”, mas “Refeições à minuta” (expressão carioca, inexistente em Goiás, do francês “à la minute”).

Publicitários, mais que jornalistas, fazem concessões permissivas, como que um estupro à Língua – escrevo em maiúscula, para não dar duplo sentido à frase. “Muda Brasil” em vez de “Muda, Brasil!” tomou conta do país nos anos de 1980, junto com o “Vota Brasil” (seria “Vota, Brasil!”). Órgãos públicos como secretarias de Educação e de Cultura e instituições responsáveis (será?) como academias de letras engolem o que a mídia – publicidade e imprensa – impõe. Emissoras de rádio e televisão cometem coisas agressivas à estrutura da língua – já viram como, nas novelas e nos telejornais, a expressão “há anos atrás” se tornou “correta”? Seria correto, mas redundante, dizer que “há ânus atrás”.

O “economês” chega a irritar. Inclua-se aí publicidade, comércio de varejo, área de investimentos, bancos, indústrias, bolsas de valores etc. Mas o Ivair Lima, competente repórter, psicólogo e poeta sensível, não teme esse tipo de coisa e me tranquiliza: “Lula (por que ele me chama assim?), esse dialeto não vinga, só existe no meio empresarial. Enquanto houver escola de samba, o português do Brasil estará salvo. Em que outra língua seria possível se compor um samba?”.



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O Estado e as OS


O Estado e as Organizações Sociais


É sabido que as maiorias resistem com notada energia a toda e qualquer novidade, mormente quando a novidade implica mudanças. Ao tempo de Osvaldo Cruz, há quase 110 anos, a população do Rio de Janeiro resistiu com força, registrando-se conflitos entre o povo e a polícia por conta da obrigatoriedade da vacinação contra o tifo, moléstia mortal. De lá para cá vieram duas guerras mundiais e os expressivos avanços científicos, tanto na área tecnológica quando na medicina; as vacinas deixaram de ser motivo de conflito, a população as aceita e acompanha com esperançosa ansiedade a descoberta de novas, como as que prevenirão o câncer, a AIDS, o diabetes e outros males.

Nos tempos de hoje, esta segunda década de um novo século, acompanhamos o contraditório: partido político que criticava e se opunha radicalmente a severas medidas na década de 1990 não só as aceita e as adapta à realidade do momento, mas também inova – como se viu com a adoção das PPP, as parcerias público-privadas.

Foi de um governo do PSDB que surgiram as agências modernas em lugar de antiquadas autarquias; e num governo do PT novas autarquias foram instituídas, com buscas à agilidade administrativa, vez que a burocracia arcaica não apenas compromete a qualidade dos serviços públicos prestados aos pagadores de impostos, como também retardava de moto drástico medidas que exigiam soluções imediatas, sobretudo na área da saúde.

No atual governo, o aparecimento das Organizações Sociais para administrar alguns órgãos públicos surgiu como medida saudável, especialmente nos hospitais, com ênfase para o Centro de Reabilitação Henrique Santillo – CRER – e o Hospital de Urgências, o HUGO. E, estranhamente, vemos parlamentares do PT organizando resistências ao que vem funcionando bem, com um argumento que se tem por legítimo – a defesa dos interesses de funcionários públicos que vêm a ser dispensados.

O bom senso sugere o aproveitamento de todo o pessoal em novas funções, sem prejuízo de sua capacitação profissional, pois certamente a grandeza da máquina funcional e administrativa há de absorvê-los – isso é coisa a ser acertada sem perdas para o Estado nem para os trabalhadores. Mas aí aparece o Ministério Público, instituição indispensável e eficaz, como bem tem demonstrado, no  aparelhamento do moderno conceito de Estado Democrático.

Acredito que é momento de breves mudanças de atitudes. A primeira delas com vistas a preservar empregos, aproveitando boa mão de obra em novas atividades afins; a outra, o reconhecimento claro de que as chamadas Organizações Sociais vêm atuando com expressiva economia para o Poder Público e, obviamente, para o contribuinte; a outra, o acompanhamento e o reconhecimento, pelos legítimos representantes populares – os deputados – de todas as ideologias, da eficácia das novas medidas, tudo isso sob a indispensável supervisão do Ministério Público em todas as fases, não somente como instrumento de cancelamento de medidas já comprovadamente valiosas.

Com o tempo, a chamada “máquina do Estado” estará, sim, enxuta e mais eficiente; por outro lado, as Organizações Sociais, que possibilitam a agilidade que todos esperamos, mostrarão eficiência e forçosamente haverão de aproveitar em seus quadros funcionários excedentes, propiciando-lhes melhores rendimentos e mesmo mais segurança profissional, com vantagens para todos.


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quinta-feira, outubro 25, 2012

Vinícius de Morais, ano 100


Vinícius de Morais (Foto:Internet)


Vinícius de Morais, ano 100


No dia 19 deste outubro de 1913, nasceu, no Rio de Janeiro, o poeta e compositor Vinícius de Morais, uma das maiores e principais referências da bossa nova. Bacharel  em Direito, jamais exerceu profissões do ramo; jornalista, crítico de cinema, diplomata, poliglota, apaixonado por música e poesia, veio a ser, segundo o contemporâneo Carlos Drummond de Andrade, o poeta brasileiro que efetivamente viveu como poeta.

Em 1980, três meses antes de completar 67 anos, faleceu. Deixou, como sabemos, vasta obra em poesia, prosa e música. Neste segmento, ele compôs sozinho, mas notabilizou-se pela enorme variedade de parceiros, com ênfase para Tom Jobim, Baden Powell e Toquinho. A tais parcerias duradouras, Vinícius se referia como casamentos de arte.

E se variou tanto nos casamentos musicais, o mesmo se deu quanto aos casamentos como os definem os dicionários. Foram nove as mulheres com quem esteve casado – pelas leis brasileiras da época, casou-se com a primeira; as demais foram esposas de fé e paixão.

No começo de sua carreira musical, precisava equilibrar-se entre o Ministério das Relações Exteriores, simbolicamente chamado pelo nome do palácio da Avenida Marechal Floriano, no centro da antiga capital da República, palácio esse que sediou os dois primeiros governos da República – Itamarati. Num dado momento, sei lá por qual razão exibicionista, alguém trocou o I final por Y. As autoridades diplomáticas não viam com bons olhos um diplomata de carreira subindo em palcos de bares e boates, cantando e contando piadas. Vinícius fazia isso, sim. Até que o segundo dos ditadores de plantão do chamado regime militar determinou, ao seu modo cavalar: “Demitam esse vagabundo”.

Essa “demissão” se deu com um processo demorado e se deu de modo ajeitado – uma aposentadoria proporcional. Quase 30 anos após a morte do poeta, o governo federal redimiu-o nas hostes do Itamarati (insisto com a grafia original e correta), atribuindo-lhe, post mortem, o cargo de Embaixador.

Desde quando ouvi, pela primeira vez, lá pelos meus dez anos de idade “Tristeza não tem fim / felicidade, sim”, versos esses seguidos de uma série de conceitos lindos para felicidade. Ouvi por sem-números de vezes as incontáveis canções de  Vinícius com seus parceiros e também as que ele compôs sozinho. Li algumas biografias e muitas, muitas referências – numa delas, descobri que a música que me encantara tinha duas letras, mas só conheci essa, a mais famosa. Encantei-me, logo em seguida, de uma canção muito alegre, feliz, chamada Rancho das Flores. No disco, estava escrito que o parceiro do poeta, o compositor da música, era um tal Johann Sebastian Bach, e que este dera outro nome à sua obra – Jesus Alegria dos  Homens. Sentia-me muito feliz com aquele recital de flores: 

Olhem bem para a rosa 
Não há mais formosa 
É flor dos amantes 
É rosa-mulher... – cantou ele.

Quantos casais, quantos amantes, quantas pessoas felizes – e infelizes, também – não se deleitaram de seus versos. Tom Jobim dizia que ele era ubíquo, ou seja, capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo; e Millor Fernandes ratificava, indo um pouco além “Ele é plural, por isso se chama Vinícius de Morais; se fosse um só, seria Vinício de Moral”. Por ou pelo outro, havemos de convir: viveu tão intensamente que é complicado entendermos que em apenas 66 anos tenha vivido tanto, produzido tanto, trabalhado tanto e se casado tanto. Chico Buarque e Toquinho, homenageando-o, compuseram Samba pra Vinícius: 

Poeta, poetinha vagabundo 
Virado, viramundo, 
Vira e mexe, paga e vê 
Que a vida não gosta de esperar 
A vida é pra valer 
A vida é pra levar 
Vinícius, velho, saravá. 

Uma alusão debochada à pecha que a ele atribuiu o presidente que legou ao Brasil o famigerado AI-5.

Poeta, Poetinha? Ah, o Poetinha... O apelido teria sido coisa de um de seus amigos – fala-se em Pedro Nava, em Antônio Maria e Tom Jobim como um dos possíveis autores. O fato é que a coisa pegou. E, pouco antes de seu desenlace, um jornalista quis saber a razão do diminutivo – Vinícius era, ele próprio o maior usuário de diminutivos no Brasil – e o poeta, pilheriando, resumiu mais ou menos assim: “Não sei, deve ter sido coisa de algum marido enciumado”.

Pois é! É tempo de disparar o Centenário de Vinícius de Morais!


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sexta-feira, outubro 19, 2012

Endereço: Maverick vinho, 74...

Se a memória ainda estiver fiel, a placa era EF-4070. Deixou muita saudade! Anos depois, comprei outro, branco, 76...


Endereço: Maverick vinho, 74...



Que tempo era aquele, hem? Ora, eu sei, final dos Setenta, começo dos Oitenta, Século XX (vinte, para os que não chegaram à escola que ensinava assim). Eu vinha de uma boa fase profissional, deixara o banco, estava na telefônica nos últimos trinta meses, ganhava bem e em dia (o salário caía na conta no dia 20 de cada mês, e era mês a vencer).

Era Dia do Índio, 19 de abril, em 1979. Cochichei ao ouvido de Wilmar Alves, jornalista, ex-aluno no Liceu: “Estou desempregado”. E ele, segundos após, olhando-me com severidade: “Está não; segunda-feira você começa lá comigo”. Esse “lá comigo” era a editoria de política do Jornal Opção, em sua fase diária.

Naquele momento, começava a fase romântica no conceito das profissões que exerci desde a adolescência. Foi um período grave, de quase dez anos, com salários irrisórios e pagamentos atrasados. Mas foi uma fase bonita – claro, descontando as dores e constrangimentos naturais.

Wilmar, amigo desde os tempos do Liceu, foi pessoa de minha relação mais bonita, a da amizade livre de expectativas. Gostávamos de nos encontrar, de acompanhar a vida um do outro: filhos que nascem e crescem, novas funções profissionais, novos livros.... Mal-educado, ele: foi-se muito antes da hora, nem se despediu de todos!

Aquele ano, 1979, foi muito marcante... Empreguei-me no jornal, com horários malucos – das 17 horas até o fechamento total da edição – e muita boemia, cumprindo o após-expediente nos raríssimos bares que só se fechavam ao nascer do sol, fiz-me solteiro outra vez; comecei a namorar uma linda jovem, namoro de pura paixão e muitos arroubos. Durou pouco, sete meses, apenas.

Nos dias de namoro, vendi uma máquina de escrever, eletrônica; consegui, lembro-me bem, quarenta mil cruzeiros! Acrescentei cinco mil e comprei, à vista, um Maverick 74, cor de vinho, muito bonito! A exposição ao sol comprometeu a pintura, a tinta soltava-se a cada lavada.

Quando recebi o título de Cidadão Goianiense, pedi e a vereadora Célia Valadão homenageou alguns
amigos meus; entre eles, o Benevides.

Na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Goiânia, fiz companheiros que se tornaram grandes amigos. Entre estes, Benevides de Almeida, uma espécie de repórter-símbolo da Folha de Goiás, que aparecia como “Goiaz”. Bené, para os íntimos, foi o colega com quem mais briguei em toda esta jornada. Nossas discussões duravam muito pouco, acabavam sempre no bar mais próximo.

Pois é ele quem, volta e meia, cobra-me esta homenagem: uma lauda em louvor do velho e bom Maverick. E por quê? Por quase nada... É que, empolgado com aquele novo e inusitado ofício sem horários, sofrido com o término do casamento e, logo em seguida, do namoro apaixonado, decidi esvaziar o pequenino apartamento alugado na Vila Brasília. Entupi o Maverick com coisas inevitáveis, como roupas, livros e uma prosaica máquina de escrever, portátil – sucessora da imponente IBM “de bolinha” e ganhei a vida e as ruas! As noites – parte delas –, passava-as no encerramento do jornal, à porta de algum bar sob a vigia do guarda noturno (meu amigo) ou no estacionamento da “Folha” – no prédio que hoje é do DM, na Praça da Bíblia.

Pois é! E vem o Benevides a cobrar-me gratidão ao velho e bom Maverick... Devo contar, ainda, que esse proceder eu repeti poucos anos após, num distinto e eficiente Passat 79, que se prestou ao mesmo destino do saudoso Maverick de seis cilindros.

Tempo bom mesmo, hem, Bené?

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quinta-feira, outubro 11, 2012

Manhã de beca e capelo




Manhã de beca e capelo



Há dois tipos de festas que considero enfadonhos – casamentos e colações de grau. Os primeiros, em qualquer rito e lugar, cercam-se do corriqueiro, de noivas engalanadas, noivos enganados e convidados desagradados; as formaturas, muvucas de familiares mal-educados a tumultuar o que seria clássico e tradicional… Enfim, prefiro sempre um bate-papo à mesa de um bar… Ah, serei franco: já gostei muito, agora gosto mesmo é de um grupo relativamente pequeno numa varanda, numa sacada ou num puxadinho. Cerveja gelada, bom tira-gosto e papo pra cima.

Um escritor feliz entre duas novas mestras, Allyne e Elisabeth

Ao que chamamos festa, gosto de vernissages e sessões de autógrafos literários – de preferência, sem discursos. Gosto também de sessões solenes em academias de letras. Divagações desnecessárias, estas. Meu propósito é falar de uma festa, na manhã da última quarta-feira, dia 10 de outubro, acontecida no Auditório da Reitoria da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Eis que, de repente, vi-me três vezes convidado... Não faltaria. As mestrandas Allyne Pimenta e Elisabeth Lemes e ainda a coordenadora do Mestrado em Letras, professora doutora Fátima Lima, distinguiram-me com o chamado. E fomos, Lucas e eu, para assistir a alegria daqueles mestres, mulheres e homens, construindo sua formação acadêmica e oferecendo, assim, ao meio universitário e produtivo, valores humanos mais aprimorados, aptos a colocar a sociedade em patamares mais elevados.

Entendi que o horário dificultava presenças. Poucos eram os “becados”cujas famílias estavam lá, pois era horário de trabalho. Porém, e por abranger mestres de variados segmentos – não menos que vinte novos titulados – a festa ficou de bom tamanho, aconchegante e sem tumultos. Discursos breves e improvisados (tomara que tenham gravado; transcritos, hão de ser publicados, para o registro indelével de uma festa recém instituída e que há se fazer tradicional) deram o tom das emoções. Particularmente a mim, quando Elisabeth Lemes, falando em nome dos diplomandos, citou-me como alguém que representaria sua família ausente e que, sendo quase que o único (Lucas Leão Alves ainda não se firmou como escritor na memória das pessoas; é questão de tempos e novos livros) a demonstrar o meio dos escritores e, de certo modo, frequentador do ambiente do Mestrado de Letras da PUC. Senti-me lisonjeado, obviamente!

As becas pretas; pelerines, faixas e capelos nas cores representativas de cada profissão – vermelho para os de Direito, verde para os da Saúde, azul para os de Letras, Educação e outros licenciados e bacharéis. Professores da PUC, pró-reitores e coordenadores, todos na indumentária que a tradição exige e uma nova ritualística, similar às já existentes nas universidades, mas específica para o momento.

Allyne Pimenta e eu, momentos antes do início da solenidade na PUC-Goiás
Gostei muito! A gente festeja cada passo do nosso processo evolutivo, seja biológico ou social e, neste setor, o intelectual. Porque restringir a entrega de um diploma de Mestre e de Doutor na burocracia de um protocolo de entrega e recibo, ou de um despacho postal? Festejem-se também esses passos grandiosos e importantes, para o indivíduo e a comunidade! No meu íntimo – eu, que amo as escolas e orgulho-me muito de todas as casas de ensino pelas quais passei, incluindo a minha estada relâmpago na UnB e uma história de quase dois anos pela UFG, sinto-me em casa quando na PUC – que, ao meu tempo, era modestamente a Universidade Católica de Goiás. Modesta? Talvez sim, pelo rigor da conduta dos padres jesuítas que, àquele tempo, dominavam com suas solenes batinas os corredores da Faculdade de Filosofia, que passou a ser conhecida – num empenho da ditadura para forçar o olvido das boas memórias – como o Básico da Católica.

Emocionei-me, pois, como quem acolhe em casa um momento expressivo da vida social e acadêmica. E envolvi-me na emoção da Allyne, bem como na homenagem que, inesperadamente, fez-me Elizabeth. Esta manhã, meninas-mestras, já é inesquecível!

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domingo, outubro 07, 2012

Morgan Freeman e o preconceito de cor


Morgan Freeman e 
o preconceito de cor




“Temo o dia em que a tecnologia 
sobrepasse nossa humanidade. O 
mundo terá apenas uma geração 
de idiotas” (Albert Einstein)



Recebi, no Facebook, um filmeto de 40 segundos em que o festejado ator Morgan Freeman dialoga com Mike Wallace. O branco lhe pede opinião sobre o mês da consciência negra, e ele responde que é contra; o branco se espanta e Morgan Freeman pergunta-lhe, então, qual é o mês da consciência branca. Não existe, foi a resposta, acrescida de “Eu sou judeu”. E o ídolo negro insiste: “E o mês da consciência judaica?”. A resposta é outra vez negativa e de novo acrescida: “Mas como vamos acabar com esse preconceito?”. O negrão abrevia: “É muito fácil. Eu paro de te chamar de branco e você para de me chamar de preto”. Vejam em http://youtu.be/tNEoIo3XMws.

Esse filminho precisa chegar ao Supremo Tribunal Federal. Antes que os ministros apreciem a ação em que uma entidade  “representativa” pretende censurar Monteiro Lobato nas escolas. Não consigo entender se o que pretendem essas instituições racistas é apagar a História ou simplesmente chegar ao que nos parece mais óbvio – movimentar verbas. No governo anterior, e com verbas públicas, chegou-se a até elaborar uma cartilha do politicamente correto e uma cartilha que deu muito o que falar sob a cobertura de um combate à homofobia.

Pessoas que agridem homossexuais e (ou) discriminam índios, pretos, mulatos, pardos (está assim nas normativas do IBGE, não é mesmo? Pardo, para mim, é papel com que se faz embrulho reforçado), gordos, baixos, mulheres etc. e tal sofrem de algum distúrbio mental – ou físico, refletindo no psicológico. E aí, nas últimas duas décadas apareceu um novo tipo de conduta, de postura. Trata-se de se instituir um orgulho gay, ou uma soberba racial. Para quê? Consolidar a diferença? Que diferença?

Nem todo mundo se preocupa com isso. Boa parte dos jovens prefere alienar-se nas telinhas de seus celulares moderníssimos, de suas lousas eletrônicas, que preferem chamar de “tablet”, palavra de raiz latina que chega a nós com a empáfia de que se reveste a juventude para parecer mais importante: ‘É inglês!”. Nós os vemos nas portas das escolas, nas conduções, nos xôpins e até mesmo nos cinemas “comunicando-se” pela mídia cibernética. Tudo bem, estaria tudo bem se, a par de usarem essa parafernália, eles cultivassem também as relações pessoais. De minha parte, escolhi não usar meu telefone como terminal da Internet; quando saio de casa, quero mesmo é ver e curtir pessoas, seja no trabalho ou no comércio, nas praças, nos bares.

Assim, enquanto os jovens se fecham em redes sociais, os “lideres” de minorias qualitativas inventam ações. Monteiro Lobato que seja condenado, quem mandou escrever “neguinha”?

Vou expandir essa coisa aí! Meus amigos literatos – escritores e professores, leitores apaixonados e críticos dedicados – que me ajudem! Vou oferecer a essa gente mais um prato maravilhoso!

Existiu um alagoano na vida brasileira, médico, pintor, poeta (chegou perto de ganhar um Nobel de Literatura e só não o obteve porque morreu precocemente, uns quatro ou cinco anos de receber a honraria da Academia Sueca) chamado Jorge de Lima. A Academia Brasileira de Letras recusou-o seis vezes, imaginem! E acham que a ABL agora vai mal porque aceitou Paulo Coelho; essas falhas decorrem das imperfeições humanas e ninguém se torna gênio por estar numa academia; o processo é na mão contrária, mas mesmo assim acontecem erros, como se vê.

Jorge de Lima, no entender do professor, jornalista, crítico literário, diplomata e grande figura humana (este foi membro da ABL, tardiamente) Antônio Olinto, “foi um dos maiores poetas do Brasil e de toda a América Latina!”. Pois esse poeta já foi homenageado em samba-enredo pela Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira com “Imagens Poéticas de Jorge de Lima”, no desfile de 1975. A motivação veio do poema “Essa Negra Fulô”:

          Ora, se deu que chegou 

          (isso já faz muito tempo) 
          no bangüê dum meu avô 
          uma negra bonitinha, 
          chamada negra Fulô.

E tem mais, muito mais... Se o propósito é censurar, esvaziem-se as bibliotecas! E as pinturas do Di Cavalcanti; e as canções de Lamartine Babo; e tudo o que se passa nas escolas de samba, nas torcidas dos times populares... Mas o que fazer com a intimidade do pensamento? As ditaduras já tentaram isso. Não deu certo!


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