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quinta-feira, julho 06, 2006

A espera

É assim, sempre. Ele nunca diz quando vem, promete quem não vai ficar muito tempo fora, mas sempre espero um mês, às vezes até mais. Mesmo assim eu gosto. Não fico sozinha de todo. Desde a Semana Santa, é a sexta vez que ele vem. De certa forma, até acho bom isso de não haver visitas mais amiúdes. Assim, posso contar os nossos encontros, lembrar-me de detalhes e datas de cada um deles. Tenho certeza de que nenhuma mulher com um homem ao lado pode se dar a um luxo desses. Aliás, as mulheres comuns, essas que estão casadinhas ou que têm muitos homens, as que têm um homem só e os vêem com freqüência, essas não têm o prazer que eu tenho: o de viver só, ser dona absoluta do meu tempo e do meu espaço, ter o meu homem quando o apetite é intolerável e, por isso mesmo, desfrutar dele com o máximo de mim.

É assim mesmo. Ele telefonou e daqui a pouco toca essa campainha. O carro, ele vai deixá-lo na esquina, de modo a não nos comprometer. Vem como quem não quer nada e discretamente toca a campainha. Eu vou abrir a porta e deixá-la encostada. No momento que ele entender seguro, vai se aproximar e entrar duma vez, com se fosse muito íntimo da casa.

Íntimo. Palavra curiosa, íntimo! E é ainda mais curioso notar – eu própria notar – que ele não é íntimo de minha casa. Ele é íntimo do meu corpo, explora-o como só ele o sabe: primeiro, no beijo silencioso, discreto e educado, mas nem por isso sem paixão. Ele me beija como se fosse sempre a primeira vez, entrega-se totalmente e com delicadeza sorve a saliva que consegue encontrar nos meus lábios e passeia devagar a língua em minha boca, até invadi-la toda e me fazer pensar que nos unimos totalmente e nos tornamos, num instante sublime, um ser, apenas. E devagar, tal como começou, ele se afasta alguns milímetros de mim, mas não o bastante para que eu não perceba na pele o calor de sua respiração. Nem percebo quando suas mãos começaram a passear da cintura para minhas nádegas e, quando sinto , já estou colada em seu corpo. Depois, ele faz com que minhas próprias vibrações acompanhem o ritmo das suas e não temos tempo para muito conversar enquanto não saímos do chuveiro.

Mas ele não é íntimo do meu lar. Ele nunca se encontrou com Renata, aqui. Minha filha sabe da existência dele – afinal, não é sempre que alguém vem aqui, e alguma ponta de cigarro perto da janela do quarto já foi notada por Renata. Ela nunca me perguntou quem esteve aqui... Minha filha é uma jóia! Em seus 15 anos, entende a vida de modo muito melhor que a grande maioria dos adultos. Um dia, ela me perguntou “mãe, você fumou?” e não insistiu em nova pergunta quando eu lhe disse não. Sei que ela não aprova o fato de eu me dizer viúva, de inventar um pai-marido que não existe mais, mas também não se interessa em conhecer Artur. Está certa, minha filha. Artur nunca quis saber da existência dela, embora soubesse que, ao fim de nossa relação de poucas semanas, eu estava grávida. Assim é Renata: conto-lhe minha (nossa) história desde seus primeiros anos de vida, e a cada vez acrescentando alguma coisa mais, de modo que, ao começo de sua adolescência, ela sabia em todos os detalhes que lhe diziam respeito tudo de sua vida, de sua origem.

Renata não faz perguntas. Foi ela mesma quem disse, dias atrás, quando eu atravessava uma dessas crises que me deixam atordoada: “Mãe, não consigo sentir falta de pai simplesmente porque nunca tive pai. Você me preenche, mãe, e isso é mais do que ter um pai que, sei lá, poderia estar aqui só para te atormentar ainda mais e me reprimir”.

Não é uma gracinha a minha menina?

Noutra ocasião, ela questionava a minha vida sexual. Não se conformava com o fato de eu atender ao telefone dizendo “aqui é dona Carmem”. Dona Carmem sou eu, claro. Renata acha que eu devo dizer “aqui é Carminha” e abrir-me para um diálogo. Dialogar com quem, se não conheço todo esse pessoal que liga para cá? “Mãe, você precisa arranjar um namorado”, diz ela. Eu reajo sempre, fechando a cara. Aos 33 anos, vivendo sem alguém para me patrulhar e tendo a companhia de uma filha tão terna e presente, isso já me é o bastante.

Bem, não quero ficar pensando em Renata agora. Ela saiu, foi a uma festa com a turminha, vai dormir em casa de amigas, tudo bem. Estou aqui, esperando Marcel. Nome bonito, Marcel. Lembra Paris. Meu maior sonho é conhecer Paris. Mas não quero ir só. Quero ir com Marcel. Seria uma verdadeira arte, nós dois em Paris, escondidos... Como ele explicaria, eu não sei. Aliás, eu sou mais feliz que ele, porque eu o divido com alguém, mas não estou dividida. Ele, sim. Ele se divide entre ela e eu. Coitado do Marcel!

Eu e Marcel em Paris! Gostaria que meu quarto em Paris tivesse uma vista da Torre Eifel, do Sena... Quem sabe de Notre-Dame? As figuras do livro de francês no ginásio eram lindas! Nós nem precisaríamos de música: eu me lembraria de todas as músicas que cabem em mim, em Paris e em Marcel e depois eu poderia morrer.


* * *


Marcel está demorando.

Ora, deve ser o trânsito. Nestes dias, véspera de Natal, o comércio aberto até tarde, fica um sufoco dirigir. Será que ele me traz uma rosa? Marcel é muito distraído, acho que nunca notou que tem uma floricultura ali na esquina. Ou será que ele não pensa em rosas? Ah, pensa sim! Ele é sensível, é poeta. Flor sempre lembra poesia. Marcel nunca me escreveu um poema. Ele prometeu, cretino! Coitado, ele não é cretino... é muito carinhoso, é meu parceirinho. Mas, então, por que não me faz uns versos? Quem beija como ele, abraça como ele e ama daquele jeito não pode ser tão desinteressado. Hoje eu vou lhe cobrar um poema, ora se vou!

Ei! Por que não pensei nisso antes? Vou surpreendê-lo.

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– Mãe! Acorda, mãe! Por favor... – era Renata. O sol já estava alto, inundava a sala e eu, toda bem vestida, esticada no sofá com uma rosa no peito.

– Por favor, mãe!

Levantei-me atordoada, querendo entender o que se passava. Demorei alguns minutos até compreender que já era outro dia, que Renata chegara e eu não recebera ninguém na véspera. A rosa que comprei ontem à noite para esperar Marcel estava aqui, apertada contra meu peito. Eu pensei que, presenteando-o com a rosa, ganharia meu poema.

– Que foi, mãe? Me conta, por favor! – insistia minha filha.

Olhei em silêncio para a rosa e, pela primeira vez na vida, senti pena de mim. Chorei em silêncio e, devagar, aceitei o ombro de Renata, que chorou comigo.


(do livro "A noite dormiu mais cedo". Goiânia, Agepel, 2002).

17 comentários:

Thamar disse...

Gostei muito, Luis..aliás, o blog todo está otimo!

Saramar disse...

Luiz, sempre me surpreendo com homens que se põem a escrever como mulheres e conseguem ser tão absolutamente femininos nos sentimentos femininos.
Porém são raros, muito raros.
Você é um deles.

Beijos

Anônimo disse...
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Nane Lemos disse...

Que coisa mais linda !!!!! Em pensar que muitas de nós embora não nesta mesma sequência vivemos isso de nossos parceiros e imaginamos isso para alimentar nosso sentimento. Parabéns!!!!!! Mais uma vez simplesmente FANTÁSTICO!!!!!!!!!!!!!!!

Amarílis disse...

Sou sua leitora assídua, não sei explicar, mas sei que a leitura de tudo que escreve me faz mergulhar, flutuar, vaor, sonhar, viajar num MUNDO maravilhoso.
Continue desenvolvendo esse talento tão especial e único.Só seu.....Sucesso sempre!!!

Silvia Lanfredi disse...

Ah ! Luiz, eu queria saber o que aconteceu com o Marcel ...
Muito bonito o seu conto, fui envolvida pela história da Carminha ! Engraçado como as mulheres sozinhas gostam de dizer que preferem viver assim ... Será verdade mesmo ?
Beijos

Anônimo disse...

Olá meu caro amigo Luis de Aquino!
Mais uma vez estou aqui deslumbrado com seus belos poemas e contos! Vc é um dos meus escritores preferidos! Parabéns!...
Um forte abraço,
Antonio Carlos Menezes
www.contemplacaopoetica.com.br

Anônimo disse...

" A espera"

Ahhhhhhh grande poeta! Que ansiosa,
gostosa,e gratificante "espera"...
Espera contêmporanea...E bela.....
É verdadeiramente impossível não nos envolvermos com a história de Carminha...E tomara fosse possível,
vivermos a mesma "espera" da Carmi-
nha...Nem seria preciso que o nosso
"Marcel" pasasse em uma floricultu-ra, uma flôr roubada em um jardim qualquer, surtiria talvez, um gran-de, e maravilhoso efeito, pois o que mais vale não é o tamanho do ramalhete, e sim a intenção e o ca-
rinho com que nos é dada uma flôr,e
sendo dada de coração, vale mais do que centenas de ramalhetes.....
Luiz, você se coloca na condição de mulher, e escreve como se uma de
nós fosse, e é impressionante a sua sensibilidade para descrever a
essência da mulher, e descreveu de
maneira tão real, que você pode ser
comparado, ou igualado, com o gran-de e talentoso Chico Buarque de Ho-
landa, Chico Buarque era para mim até então, o maior comhecedor dos
sentimentos fêmininos, parece até
que ele tel alma de mulher, mas, lendo o seu conto eu me confundia,
flutuava, levitava, e tinha hora que eu não sabia se eu estava lendo
Chico Buarque, ou Luiz de Aquino...
Ah! Não acredito nas mulheres que dizem gostar de viverem sós, as que fazem apologia à solidão, elas
estão mentindo, ou não querem dar o braço a torcer...Ninguém gosta de viver só, o ser humano não nasceu pra viver só; alguém só pode ser feliz se tiver um outro alguém, mesmo que seja pra ficar a
"espera", feito Carminha,para ser feliz de verdade é preciso ter, ou esperar alguém...Sem dúvidas que é o ter, ou o esperar a chegada de alguém, que da sabor, e côres á
nossa vida.
Luiz, o seu conto "A espera" daria
para montar uma bela peça de teatro, de tão perfeita que ficou a
trama que você constriu entre Carminha, Renatinha, e Marcel... E vou mais além, não quero saber de Marcel, e tão pouco de Renatinha...
O certo é que estou morta de inveja de Carminha...Gostaria imenssamente de estar no lugar dela, "A espera" de um Marcel,Zé,
Joaquim, Pedro...Qualquer nome, desde que eu tenha alguém para esperar.
Parabénsss Luiz!!!! Simplesmente, você foi uma vez mais...Magníficooooo!!!!!!!!!!

Beijo,

Lêida

Anônimo disse...

Menino, vc consegue descrever tudo que uma mulher sente... Adorei os detalhes. Mais uma vez, parabéns!!!

Felicidades e mil beijos,

Rosângela (Rô)

HELENA disse...

KKKK, Bem que Marcel gostaria que assim se sentisse Carminha, é uma forma de dourar a sua culpa! Mas deixa estar que é bem bom fantasiar a carência, dar-lhe ares de romance, tirar vantagens da solidão do amor bandido!!!
Fala aí, "professor", PHD da vida e do amor e grande intérprete de sentimentos...
É muito bom ler você, principalmente, decifrar o conteúdo.

Dilma disse...

Gosto muito de tudo que escreve, pois alimentam a minha alma .Lindo o conto, viajei...
Tudo o que se possa dizer de vc é pouco, porque tu és muito em tudo. Em alma e em arte.
Sou demasiada pequena para saber comentar "com todas as linhas" a tua magia, a tua imaginação, a tua sensibilidade e a tua capacidade humana de grande valor.Te admiro MUITO Parabéns.

Marluci Costa disse...

Esperar, esperar sempre e ter o quê e quem esperar.
Nós mulheres estamos sempre esperando. Esperar de esperança. Esperança de amar... e ser amada. Acho que é isso que nos preenche. Luiz, você captou. Mesmo no mais solitário mundo, ela cria a sua espera.
Bjs

Anônimo disse...

Luiz,
Gostei muito!!
bom final de semana, beijos
Andréa Motta

Luiz de Aquino disse...

Sobre este conto, recebi de Herondes Cezar, contista e homem de cinema, o seguinte comentário:


Caríssimo Luiz,

Confesso que este é o 1º conto seu que leio. Vergonhosamente, ainda não li os livros que você, tão gentil, me enviou já faz um bom tempo. O problema é que, por último, tenho vivido embaralhado com o cinema, sobrando pouco tempo para a literatura. Mas tenho de organizar melhor minha vida, pois a literatura sempre teve um espaço privilegiado em minha vida.
É um conto, a meu ver, mais próximo da poesia do que da narrativa. Toca nos sentimentos femininos, com delicadeza. Exprime um momento na vida de um mulher livre, que tem uma filha e um amante, o qual não aparece numa noite em que é esperado. Não há conflito, nenhum drama explícito. Cada leitor que suponha o motivo por que o amante não veio. Remete-nos a uma sonata, não a um concerto. Por isso, traz-nos à lembrança certos contos de Tchekhov.
Espero que você possa ver, quando a antologia do Cagiano sair, como meus contos são diferentes. Neles ponho conflitos, emoções, humor, suspense. Recorro, sempre que posso, ao diálogo. Procuro expressar dramas humanos, confiando na inteligência do leitor, que pode, e deve, tirar suas conclusões. E tento fazê-lo segundo a narrativa clássica, pela qual tenho verdadeira paixão. E, cá comigo, acho que muito contista "moderno" (não é o seu caso, claro) escreve contos confessionais, narrados na primeira pessoa, e falando de si mesmos, de suas próprias experiências desinteressantes, simplesmente por não terem um ponto de vista a expessar sobre o mundo que o cerca, e também por não saberem escrever diálogos.
Por último, gostaria de fazer-lhe uma pergunta envolvendo a personagem-narradora de seu conto em questão. Se ela só tem 33 anos, em que colégio ela teria cursado o ginasial com francês no currículo? Costumam dizer que perguntar não ofende. E estou certo de que você tem a resposta.
Grande abraço
Herondes




Repondi-lhe:


Bem anotado, Herondes.

Bem, uns poucos estabelecimentos de ensino preservaram o Francês no ginásio por um bom tempo; o Colégio Pedro II, por exemplo, assim o fez, como língua opcional, até meados da década de 80, pelo menos. E manteve também Canto Ofeônico por longo tempo e, ainda (acredite!), Latim. Não me preocupei com a exatidão do tempo, não, sinceramente. Escrevi esse conto em 2000 ou 2001, mas não me recordo se tinha dele algum rascunho antigo ou se viajei no tempo, só sei que não atentei para a correção histórica porque não a considerei relevante - e agora você me mostra que ela o é.

Obrigado, e um grande abraço.

Luiz

Marta disse...

Olá menino:

Vim visitar seu cantinho virtual, fiquei feliz com o que li.
Como sempre não houve surpresas, pois, seu talento continua sendo exercitado com esmero, porém, nos sentimos homenageadas pelas Carminhas.
Obrigada pelos minutos de exercício da minha sensibilidade.
Voltarei sempre que precisar sonhar.

Beijos

Marta

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Anônimo disse...

Luiz,
acrdite, o nome que se dá, no Nordeste e em Minas Gerais, ao medicamento – em geral caseiro e mais folclórico do que resultado e pesquisa –, é "meizinha". Duvido que os dicionários de Portugal tragam essa palavra. Se bem me lembro, o "Aurélio" admite "mezinha". Mesinha, como você grafou é só uma mesa pequena mesmo.

Wanda disse...

Tão triste...
E tão real!
Beijos.

Wanda