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quinta-feira, abril 05, 2007

Um poema (meu) e uma crônica (de Urda Alice Klueger )

Informal

(do meu livro "Canto de Amar"; Goiânia, 1986)


Viaja comigo em Abril.
A gente experimenta novas vistas,
velas vistas do sul.
Carinhos, nós os teremos
de sobra
sem as querelas do cotidiano
e estaremos em férias
até de nós mesmos.

Viaja comigo em Abril,
em dias de sol mais intenso
e prenúncio de inverno.

Depois, é só retornar
à distância dos dias
como escolheste
e como te aceito
sentindo-te minha.




Praia do Campeche - Santa Caratina

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Praia do Campeche – Anoitecer

Urda Alice Klueger -Escritora

(Para Ilze Zirbel – se não fosse por ela, não teria ido àquela praia naquela noite)


Água daquela consistência e daquela cor eu nunca vira sequer no Caribe, e eu sempre digo que o Caribe é o lugar mais bonito do mundo no seu mar! Não sei se ali é sempre assim, ou se eu dera sorte de pegar um momento mágico em pleno andamento, ou se coisas acontecidas há mais de meio século ainda andam pairando por ali e criando aquele encantamento ... O que sei é que água daquela consistência e cor eu jamais vira, nem mesmo no Caribe, pois nem água era, mas um mar de líquido cristal de cor verde-azulada, manso, molengo e cintilante, a se desdobrar em mansas e pequenas ondas que viravam espuma branca com lentidão, e aquele verde-azulado do mar que era cristal contrastava com a luminescência do sol que já mergulhara por detrás da terra, mas deixara no céu aquela luminosidade de ouro que mais parecia coisa descrita em romance medieval – como, nos dias considerados de progresso, que são os dias de hoje, alguém pode se dar ‘a liberdade de dizer que o céu estava cor de ouro? O fato é que estava, assim naquela região por detrás das dunas, e era difícil decidir para onde olhar mais: para o cristal das ondas que se espraiavam em espuma ou para o dourado do céu do outro lado – e havia mais alternativas: lá adiante do meu caminhar o morro mais alto da Armação do Sul, numa cor também entre o verde e o azul, portava saborosa e fofa nuvem de glacê branco à guisa de chapéu – e havia a areia branca da praia, e os muitos surfistas parados, sem coragem de largar aquela beleza toda, pois onda mesmo não viria naquele dia, de jeito nenhum – e os cachorros enormes, mansos e como que cheios de ternura pelo mundo – e quase que ao alcance da mão, do lado do mar, como se fosse só um morro cheio de árvores, a Ilha que decerto fora muito sagrada para muita gente do passado – era o anoitecer de 29 de março na Praia do Campeche, Brasil, e a beleza era tamanha que a própria atmosfera era puro encanto, e eu própria virara um ser encantado que seguia pela praia com o dourado do céu à minha direita e os olhos pregados de fascínio naquela cor verde-azulada do mar de cristal líquido!

Lentamente, aquela cor da água foi-se transformando de verde-azulada em azul-azulada, e como que o céu, e o morro da Armação, lá adiante, e a atmosfera, tudo foi ficando da mesma cor – e por detrás das dunas a cor de ouro diminuía, ficava apenas sugerida, pois já fazia muito que o sol estava a se afastar do dia, e o andar descalça dentro da água de cristal líquido que molhava a barra do meu vestido era como que flutuar numa irrealidade.

Em algum momento, porém, tive que começar a voltar, pois a chegada da noite era iminente. E então o espanto, ao fazer a volta: bati de cara num céu todo róseo naquele lado, coisa de doido, de não se crer, portando imenso disco de prata no meio. O encantamento era tanto que fiquei meio perdida: seria a Lua? Seria, talvez, um Asteróide? Não seria coisa de duvidar, tendo em vista o tanto que Antoine de Saint-Exupéry freqüentara aquela praia na década de 1930. Titubeei, imersa naquele encantamento todo que me fazia como que flutuar na praia, tentando entender direito o que estava vendo. Se fosse um Asteróide, aquele lá seria um Príncipe? Mas seria aquele o Príncipe do Asteróide? No grande disco de prata, quem me olhava não era um menino de cabelos cor de trigal maduro, e nem era alguém que usava um comprido cachecol. Talvez não fosse um Asteróide, afinal. Seria a Lua, a minha própria Lua, a Lua deste meu Planeta? Só podia ser, mas como se fosse um Asteróide, lá na Lua também havia um Príncipe. Era encantado e muito cheio de prata, também, tanto que se confundia com o grande disco luminoso, mas era um Príncipe tão encantado quanto o do Asteróide. No meio daquele brilho todo que flutuava no róseo do céu, podia eu vislumbrar os seus olhos doces e cálidos, macios como avelãs que se comem em noite de Natal, e tão cheios de ternura pela Humanidade que até parecia impossível! Sim, aquele era o Príncipe da Lua, e tudo estava tão luminoso que custei um pouco a reconhecer os detalhes: o sorriso bom, o gorjeio de Passarinho na alma, a maciez da barba, a camisa de xadrezinho azul aberta no peito macio... Ai, a vida era boa demais! Lá naquele lugar encantado, quando menos esperava, o Príncipe da Lua estava ali tão próximo e tão lindo como estava todo o tempo dentro do meu coração!

Não há outra coisa a se fazer com um Príncipe assim além de amá-lo!


Blumenau, 03 de Abril de 2007.


Urda Alice Klueger Escritora

10 comentários:

Fausto Valle disse...

Raramente se vê um texto tão bem escrito como o da crônica da Urda Alice Klueger. Nota mil.

Anônimo disse...

"Informal", poema lindíssimo,
e crônica bem escrita.Tanto a crônica de Urda Alice Klueger, quanto o poema de Luiz de Aquino,
nos sugerem, e leva-nos, a gostosas
viagens imaginárias.
Parabéns aos dois talentosos escritores.

Beijo,

Lêida Gomes.

Anônimo disse...

Urda querida,
Nada melhor que ler qualquer texto seu sempre ricos, frutos de seu enorme talento. Parabéns pela permanência no blogue do querido Luiz de Aquino.
E parabéns a você, querido Luiz, por essa fantástica escolha e por ter oportunidade de ler mais um poema seu que eu curto tanto.
Parabéns aos dois maravilhosos e talentosos amigos das letras.
Beijos,

Vânia Moreira Diniz

Saramar disse...

Sem dúvida, o poema é belo, belo demais. Um convite em versos, irrecusável.
A crônica é puro encanto a nos transportar para o próprio encantamento da autora.
Um conjunto perfeito!

beijos

flavina disse...

Informal...
as mais fortes emoções de nossa vida, as mais belas lembranças, são fruto de um momento informal.
Assim... como quem nada quer! Mas que sempre nos remete a um todo de emoções.
Parabéns pela poesia, Aquino.
Urda, sua crônica cheia de detalhes preciosos, nos devolve com nitidez e precisão, quem já viveu esse momento.
Abraços aos dois.
Tulipa

Madalena Barranco disse...

Querido Luiz, avistar as "velas" sempre de um ângulo inusitado, urde a paisagem de cores novas. Sua poesia & a foto da praia é mesmo de um azul infinito. Beijos.

Anônimo disse...

TH disse...

Oi, Luiz, seu blog está muito bom, mesmo. Entro periodicamente de dou uma atualizada na leitura...Esse poema do abril, da viagem; e essa crônica da escritora sobre a praia estão maravilhosos, amei.
Thamar Tenório, BSB

Heliane - (Lili) - RJ disse...

AMEI SEU POEMA!!!!

E A CRÔNICA ME ENCANTOU!

OBRIGADA AMIGO PELOS MOMENTOS LINDOS QUE PASSAMOS QDO VISITAMOS SEU BLOG!

BEIJOCAS CARIOCAS!

Poeta Lêda Selma disse...

Luiz, que beleza de blog e de textos (os seus, então, como sem pre...)! Meu pobre bloguinho é um nadiquinha perto do seu. Força de minha incompetência, claro!
Bem, embora eu não tenha encontrado o "itálico" para transcrever um poeminha, ei-lo assim mesmo: É preferível o silêncio/das dores guardadas/e a solidão das saudades envelhecidas/ao rastro indolor do nada. Lêda Selma

Poeta Lêda Selma disse...

Luiz, adorei seu blog e seus textos! O meu pobre blog é um nadiquinha perto do seu, credo!Também, incompetente como esta sua amiga/poeta... E, por falar em poesia, eis um poeminha (ih! cadê o itálico?! Vai sem mesmo): É preferível o silêncio das dores guardadas/e a solidão das saudades envelhecidas,/ao rastro indolor do nada. Beijão. Lêda Selma