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sexta-feira, setembro 12, 2008

Campanha e literatura

Campanha e literatura

Os que escreverem sobre a campanha eleitoral, no futuro, talvez se refiram a estes dias de 2008 dando a eles um ar de nobreza na disputa ou de um conflito racional e civilizado. É isso que nos leva a usar, com um exagero irritante, a expressão “hoje em dia”, tão ao gosto dos jovens (como se eles tivessem vivido os dias antes dos de “hoje em dia”). É que, nos livros nas aulas de história, nossos antepassados aparecem como realmente nobres, lhanos, cavalheiros, dotados de um profundo respeito aos adversários. Mas, ah! Que ingenuidade, a nossa! A diferença é a evidência: antes, fazia-se às ocultas o que hoje nos parece muito claro. Mas as ações humanas continuam iguais: mesquinhas, torpes, inconfessáveis.
Felizmente, a vida é feita de muitas nuanças. Enquanto a campanha invade as ruas com os carros “adesivados” poluindo o trânsito, a vida continua (engraçado: cabos eleitorais agem como se a propaganda no carro lhes desse poder para violar as leis). É, a vida segue seu curso, feito um rio que lambe terras, reverdece margens, cria ilhas e corredeiras, faz pouso nos poços para recobrar forças e rugir novamente. O rio tem um propósito: virar mar. A vida... Bem, a vida tem o seu, também: virar futuro. E nós, todos os seres, somos gotas d’água, ora líquido, ora vapor; às vezes, cristal de gelo.
Intriga-me isso de reeleição. Melhor seria um mandato mais longo, de cinco anos, talvez, mas um só mandato. E que ninguém possa retornar a mandato já exercido. A exceção se daria para cargos de parlamentos, mas com limites, também. A representatividade tem de ser renovada. Exemplo de reeleição indevida: numa cidadezinha, o prefeito passou quatro anos sem oferecem nenhuma obra física, nenhuma ação significativa em termos de evento ou de melhoria no padrão de vida de seus munícipes; mas corre o risco de ser reeleito, pois pagou os salários dos barnabés rigorosamente em dia.
Em Goiânia, entre carros de som e distribuidores de “santinhos”, o poeta Carlos Nejar é recebido com carinho; primeiro, num encontro aconchegante na galeria de arte do poeta Marcos Caiado; depois, para uma palestra na Academia Goiana de Letras. A gente gosta, uai! Não é sempre que recebemos um poeta de tão grandes referências: há um ano, esteve conosco o poeta, crítico, romancista e ensaísta Antônio Olinto (como Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras).
Ao meu lado, um casal de estudantes de publicidade critica com severidade o conteúdo de algumas peças de propaganda eleitoral. Para eles, alguns candidatos faltam com o respeito aos adversários. Interfiro para lhes dizer que isso nos indigna, mas é suportável. Inaceitável mesmo é a série de atentados cometida em todo o país, com algumas mortes. Mas reconheço que os moços têm razão. As campanhas bem podiam se manter no nível do que se tem por civilizado.
Enquanto isso, recebo do poeta Edir Meirelles, goiano de Pires do Rio e presidente da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, a Revista da UBE, edição comemorativa do Jubileu de Ouro da entidade. A UBE do Rio homenageia alguns de seus vultos, entre eles Stella Leonardos e Antônio Olinto (que acabei de citar) por serem membros fundadores da entidade e, hoje, secretária geral e vice-presidente (respectivamente). Stella e Olinto são notórios amigos dos escribas goianos, com várias visitas ao Estado. Stella já publicou livros por aqui, e Olinto presidiu, no ano passado, a inauguração do Espaço José J. Veiga, na Biblioteca Central do SESC (Rua 19). Estou feliz por participar da revista com uma crônica e três poemas, ao lado de Célia Siqueira, Gilberto Mendonça Teles e Alice Spindola (os goianos) e uma gama de escritores de alta referência.
E a campanha continua, em todo o país. Muito barulho, muito papel (na verdade, muito menos que nas eleições anteriores; mas, ainda assim, muito papel e tinta) e muito som de automóveis a irritar nossos ouvidos, a poluir nosso descanso, a nos roubar a paz. Estou com aqueles que não votam nos que se excedem. E não voto em quem compra votos. Para mim, o candidato tem de mostrar plataforma, tem que mostrar respeito à cidade e ao cidadão; e mostrar que pretende mesmo trabalhar.
Por essas e outras sou contrário à reeleição. Se pretendermos preservar um plano de governo, uma diretriz que dá certo, votemos no candidato que se identifica com a situação; se, pelo contrário, quisermos mudar, votemos na oposição. Votar não é torcer por no estádio. Partidos não são clubes de futebol. Mas, leitores queridos, oposição é uma coisa e implicância, outra. Opor-se é criticar com critério, analisando obras e ações, mostrando soluções. O que tenho visto são informações mal colhidas, inverídicas, tentando mostrar arbítrio onde não há, ou crimes inexistentes.
Isso não é oposição: é ignorância
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4 comentários:

martha nascimento disse...

E a vida segue seu curso feito um rio que lambe terras...
Querido luiz, sua cronica eh um poema de alta qualidade que agrada aos ouvidos e aos olhos de quem escuta e le. Bem ,continuo te cobrando o romance, que certamente sera um sucesso.

maria de lourdes disse...

maria de Lourdes compartilha do mesmo sentimento
Mas as ações humanas continuam iguais: mesquinhas, torpes, inconfessáveis.
Vivencio esse sentimento diariamente quando olho para os meus pequenos pacientes do Sus e suas mães alienadas e desprotegidas.Continue usando sua forma de comunicar seus sentimentos,a nossa indignação deve ser ouvida sempre.Um abraço

Madalena Barranco disse...

Olá querido Luiz,

Eu ainda não decidi se gosto ou não de reeleição... O sujeito apenas deve ser reeleito se de fato fez um bom trabalho. O problema é que muitos voltam a atacar e fazem ainda pior.

Você está certo, Luiz, o tempo passa e tudo se esclarece. Antigamente tudo era feito às escondidas.

Beijos e tenha uma ótima semana.

Anônimo disse...

olá, Sr. Luiz.
A meu ver, precisamos de educação, em todos os sentidos. Para mim, o bom candidato é aquele que procura melhorias para o seu povo, nas áreas de: Saúde, educação, lazer, segurança social e trabalho. Não esqueçamos do meio ambiente. Se ele trabalhar em prol da população, por que não ser reeleito?

Abraços cordiais.

Sylvia Narriman Barroso
http://www.passagensemarcas.blogspot.com/