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quarta-feira, setembro 03, 2008

Os bairros da Serrinha

Os bairros da Serrinha



Lá pelos anos de 1970, assim que as ruas da Vila Coimbra ganharam pavimento de asfalto, a Câmara de Vereadores de Goiânia inventou a hierarquização dos bairros: a Vila Coimbra, asfaltada, passou a se chamar Setor Coimbra. Na década seguinte, o prefeito Índio Artiaga, possivelmente assediado demais para mudar a nomenclatura urbana de vila para setor (sim: a expressão “vila” passou a ser pejorativa em Goiânia; por extensão, em Goiás), generalizou: até mesmo o velho e pioneiro Centro passou a se chamar “Setor Central”. E Campinas, a cidade que virou bairro, virou “Setor Campinas”. Estranhamente, surgiram excrescências como “Setor Vila Nova” e “Setor Bairro Feliz”. Para mim, isso é ridículo.
Outra coisa meio que patética é que qualquer loteamento, registrado em cartório como exige a lei, vira bairro com o mesmo nome; assim, se eu não reunir méritos para vir a ser nome de rua ou praça depois de morto, posso ser nome de bairro mesmo que ainda vivo. Há exemplos indiscutíveis – e muito recentes. Em Goiânia, o gosto popular não determina nomes de logradouros. Exemplo: tudo o que circunda a colina onde estão as antenas da Embratel, no extremo sul da cidade é chamado pelo povo de Serrinha. Até mesmo o estádio do Goiás Esporte Clube, ao lado da nascente do Areião (portanto, fundo de vale) é chamado de Serrinha, porque o monte se destaca em toda a paisagem. Mas a força cartorial determinou que ali, em lugar de Serrinha, existam o Parque Amazônia, a Nova Suíça, a parte alta do Setor Bueno, o Setor Bela Vista (um dos menores bairros da cidade) e o Setor Pedro Ludovico. Como se vê, as palavras Parque e Setor seriam totalmente desnecessárias; mas isto aqui é Goiânia. Logo...
A gente que vive lá, e estou no meio desta gente, tem sofrido com a precariedade do equipamento urbano. Não me refiro especialmente aos transtornos “passageiros” das obras que se acumulam, como a do Goiânia Shopping e a do viaduto na antiga Quinta Radial (hoje, T-63; mas já se chamou Xavier Júnior) com a Avenida João Mascarenhas (85 e S-1). O suplício vem de longe, desde quando a Prefeitura, na década de 80, resolveu duplicar a Quinta Radial (nessa ocasião, transferiu esse nome para a Avenida Édimo Pinheiro; nunca entendi isso).
A duplicação impôs o nome T-63. Só que, numa prática não muito correta, as empreiteiras construtoras removeram terra do leito das ruas transversais dos dois bairros – Bela Vista e Bueno – para compactar as pistas da nova avenida. Com isso, as calçadas ficam muito acima do leito das pistas de rolamento. Foi então que, para agradar moradores e proprietários mal-servidos com o estrago, a Prefeitura resolveu asfaltar o que restava em poeira do Pedro Ludovico, do Bela Vista e do Bueno; e o fez com muita economia de piche, aumentando a largura das calçadas. Isso é fácil de se constatar, pois árvores e postes dão a nítida situação dos antigos meio-fios.
A largura atual das pistas de automóveis, ou seja, das faixas de asfalto, é muito pequena para o atual volume de veículos. É possível que a correção dessas pistas, com o redimensionamento dos passeios, resultasse em alívio no trânsito e, talvez, tudo o que se gastou com esse malfadado viaduto poderia ter sido investido em melhorias outras. O elevado está lá, já liberado para o tráfego; dá para se notar que em breve teremos ali graves acidentes, porque as pistas não têm uma mureta a separá-las e a região já é bastante marcada por “rachas” na madrugada. Pelo sim, pelo não, não passarei pelo viaduto em horários que não me sugiram segurança.
O mais grave, porém, é o desnível nas calçadas. Hoje, duas décadas depois da duplicação da T-63, é quase impossível transitar-se pelas calçadas das ruas transversais do Bueno e do Bela Vista: há desníveis de até 50 cm de uma fachada para outra (não estou exagerando; e deixo aqui o meu convite para que o prefeito Íris Rezende passeie a pé pelas ruas desses bairros em torno da Serrinha. Ele verá, por exemplo, que o bairro onde está a sede da Superintendência Municipal de Trânsito é um paraíso para infratores. E que uma estreita rua do Pedro Ludovico serve de estacionamento não autorizado para caminhões de frete. Motos e automóveis trafegando na contra-mão é comum. Estacionamento dos dois lados da pista (inclusive na T-65, em pleno congestionamento ocasionado pelas obras do viaduto, com o trânsito todo remanejado para a parte alta, a fim de poupar incômodos às cercanias da Praça da T-25). E nenhuma fiscalização...Nós sabemos (todos nós, moradores de toda a cidade) que a SMT não tem contingente de fiscais senão para lançar multas em pontos e horários de sua conveniência. Tanto quanto sabemos, pela imprensa, de perdões de multas concedidos pela cúpula do órgão municipal (o diretor, o chefe de gabinete e a gestora da área de informática foram indiciados por isso). E ainda assim temos de conviver com cenas pagas, mas irritantes, como a dos conceituados músicos locais a decantar, em estilo que sugere as figuras dos bobos-da-corte, os feitos não realizados da administração (como a qualidade da Educação e a do transporte coletivo). Nota-se que esses músicos não andam de ônibus; como o prefeito não conhece as calçadas dos bairros da Serrinha.

2 comentários:

JB Alencastro disse...

Olá Luizão,

Gostei muito da sua crônica sobre o trânsito e achei-a até muito suave.
O caos instalado é pior.
Acredito que além de denunciarmos as agruras de calçadas altas e redimensionamentos das artérias viárias, deveríamos também dar sugestões.

1- Educação sobre o trânsito. Principalmente para as crianças.
2- Estimular o tansporte coletivo e torná-lo seguro, rápido e agradável.
3- Estimular o uso de bicicletas.
4- Estimular o deslocamento à pé para curtas distâncias.

Forte abraço,

JB Alencastro

José Luiz Bittencourt disse...

Prezado Luiz de Aquino - Não dispenso o sobrenome. Sabe por que? Lembra-me sempre São Tomás de Aquino, o "Doutor Angélico" aue a Igreja elevou aos altares e um dos mais consagrados dominicanos teólogos. - Muito bem! Prossiga no seu benquerer com a poesia sempre presente aos olhos dos seus admiradores e amigos. Seu lugar na galeria poética de Goiás está garantido, o seu e o da nossa confreira Lêda Selma. (Não gosto muito de usar a palavra "confreira, que me parece nada feminina). Tenha hoje um bom dia. Aprecei a crítica sobre a malfadada setorização da cidade. Sâo Paulo, a grande metrópole de milhões de habitantes, conserva a denominação de vilas, mas aqui a modernidade quis ser mais realista do que rei. Que bonito era chamar-se Vila Coimbra, Vila Nova, Vila São José, Vila Santa Helena e assim por diante! Continue deitando os olhos sobre a Goiânia de nossos sonhos da juventude! Afetuosamente envio-lhe o meu abraço.--
José Luiz Bittencourt
bitt85@gmail.com