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quinta-feira, setembro 25, 2008

Trânsito e cidadania

Trânsito e cidadania

“Educai as crianças e não será necessário punir os homens”, escreveu Pitágoras, há vinte e cinco séculos (já atribuíram a frase a Rui Barbosa; aposto que também a Paulo Coelho, porque os neoleitores acham chique atribuir ao mago tudo o que lhes parece bonito; mas a frase é do filósofo grego).
O noticiário traz, estes dias, mais uma notícia desagradável: a lei-seca, que reduziu bastante o índice de acidentes (e de vítimas) e fez caírem significativamente os gastos nos postos de emergência, ameaça cair em desuso. E isso por falta de fiscalização, ou seja, de agentes e aparelhos.
Incomoda-me, a mim e a todo cidadão consciente, que medidas simpáticas como essa, tão bem aceitas pela arrasadora maioria do povo brasileiro, venha a se tornar letra-morta. Algumas dezenas de brasileiros deixaram de morrer a cada dia; só em São Paulo, cerca de onze milhões de reais são economizados em atendimentos emergenciais.
Colhi, na Internet, algumas informações e números sobre o tema. Desde o início de sua vigência, no dia 20 de junho, e até 20 de setembro, a Polícia Rodoviária Federal computou 33.497 acidentes, com 1.697 mortos e 18.759 feridos. No mesmo período de 2007, foram 30.835 acidentes, 1.808 mortes e 18.596 feridos. O número de acidentes com mortos caiu de 1.469 em 2007 para 1.351 em 2008. Ou seja, o número de acidentes e feridos aumentou em 2008, mas o número de mortes diminuiu.
O número de prisões por embriaguez nas estradas, no primeiro trimestre de vigência da lei, foi de 1.756 motoristas, presos em flagrante. No total, 2.797 condutores foram autuados por dirigir embriagados.
Sabe-se, três meses após a adoção da lei, que cerca de vinte pessoas estão deixando de morrer por dia; já imaginaram se a lei fosse cumprida como devia? A quase totalidade dos municípios do interior não tem qualquer tipo de fiscalização e as pessoas, sem controle, ignoram solenemente a lei. Algumas cidades de referência não dispõem de agentes e de equipamentos (bafômetros).
Se houvesse mais intensidade nas campanhas educativas, os resultados poderiam ser ainda melhores. E se as escolas regulares ministrassem aulas de cidadania, obviamente as leis e regulamentos de trânsito seriam respeitados. Fala-se na obrigatoriedade do ensino de legislação de trânsito nas escolas, mas ninguém é ingênuo o bastante para ignorar a reação dos donos e profissionais dos centros de formação de condutores (imaginem o que ganham essas empresas com a exclusividade inexplicável que lhes é dada!). Uma vez adotada a disciplina em caráter regular, certamente os tais CFC perderiam a razão de existir.
Volto às campanhas. Até mesmo porque, neste período de 18 a 25 de setembro, em todo o Brasil se promove a Semana Nacional do Trânsito. Todos os 27 Conselhos de Trânsito regionais, o DENATRAN, os DETRAN, a Polícia Rodoviária Federal, as Polícias Rodoviárias Estaduais, os órgãos municipais de trânsito e os Corpos de Bombeiros empenham-se na concentração dos trabalhos, lançando a campanha que se estenderá até setembro do ano seguinte. A que se lança agora é “A criança no trânsito” e busca-se envolver os infantes desde os primeiros anos escolares. Da parte do DETRAN de Goiás, a gerente de Educação de Trânsito, Anadir de Castro, contagia pelo entusiasmo.
Mas é preciso mais. Muito mais. Em todo o país, um grande volume de recursos é arrecadado em multas e esses recursos deviam ser aplicados exclusivamente na aquisição de equipamentos, viaturas e nos custos de campanhas educativas. Difícil é conscientizar os gestores econômico-financeiros de que os custos de educação e prevenção não são despesa, mas investimentos (esses gestores entendem apenas que dinheiro que entra é receita; e dinheiro que sai é despesa). Investir em prevenção e educação é poupar em saúde e emergência, além de outros tipos de prejuízos, como os danos ao patrimônio público.
Mas, insisto em dizer, trânsito é cidadania. Trânsito é a mais imediata tradução do direito de ir e vir, isto é, um dos mais expressivos conceitos de liberdade. E cidadania tem de ser ensinada e praticada em casa e na escola. Cidadania implica diretamente no respeito ao próximo, na relação saudável com seu semelhante, na preservação do bem comunitário e na ética.
O momento é, pois, de se fazer valer a lei-seca. E de investir, com recursos financeiros e morais, na formação dos novos cidadãos. Mas, para isso, tem que se dedicar também ao aprimoramento da população adulta, ou os maus exemplos serão marcas muito fortes nas mentes dos pequeninos.

4 comentários:

Cida Freitas disse...

Faço minhas as suas sábias palavrsa.

Anônimo disse...

Em relação ao comecinho da crônica, esse negócio de frases, artigos e poemas voando por aí com autorias falsas ou trocadas, com livre trânsito, carece também de alguma espécie de "lei seca" que "seque" a malfadada tendência. Um grande abc, Ricardo Alfaya.

Placidina Lemes de Siqueira disse...

Que bom, ter amigo que além de escrever (ironizar) bem, o faz na hora certa e com conhecimento de causa, causo(s)e seus "casuais" plágios...
Placidina

Mara Narciso disse...

A Lei Seca soa algo cerceadora dos direitos individuais, ou seja, o direito de alcolizar-se, dirigir por aí e estourar o outro, que por infelicidade está no caminho do agressor. Muitos foram contra essa lei, e outros foram entusiastas defensores. Poucos foram indiferentes. Hoje nos parece estranho não beber numa festa para depois dirigir. Muito em breve acharemos absurda a idéia de pessoas bêbadas dirigirem,como já achamos insuportável quem fuma em locais públicos, quem trafica animais silvestres, quem joga lixo nas ruas. Precisamos não só sermos civilizados, mas também parecermos que somos civilizados, e não guiar bêbado é parte disso.