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sexta-feira, setembro 05, 2008

Compradores de votos

Compradores de votos

Tantos são os figurões apanhados com a boca na botija e de tantos são os que escapam, impunes, que adotamos a generalidade: todo político é desonesto. O resultado é devastador para a Nação: os desonestos, em grande maioria, correram mesmo para o meio político. Acham na prática da representação popular um meio ágil e fácil para a prática de ações escusas. Mas nem todo político é desonesto: fácil é acusar e difamar; complicado mesmo é confirmar, provar e condenar.
Dia destes, fui tomar café num pequeno estabelecimento no xópin do Jardim América – aquele que leva o nome da cidade e cujos dirigentes conseguiram a mágica de estender o setor Bueno para a margem direita do valão onde outrora corria o córrego Vaca Brava. A moça, antiga funcionária da cafeteria, minha conhecida, contou-me, em tom de decisão tomada e irreversível, que votará em quem lhe possibilitar um tratamento oftálmico. Ela precisa de uma espécie de limpeza, por meio de pequena cirurgia, nos olhos, ou poderá ficar cega. A burocracia vem dificultando o atendimento e os custos, em caráter particular, são proibitivos para ela.
Tentei argumentar; disse-lhe da inconveniência de se trocar o voto por um favor dessa natureza; quis demonstrar que o voto é um exercício livre e soberano, ele não pode ser moeda de barganha. Mas não consegui convencê-la, a tradição está muito bem fincada em sua mente. Alguns dizem que isso é uma manifestação da "cultura" nacional, e vêm-me com histórias de botinas entregues em duas etapas – um pé antes da eleição; o outro, só se o candidato vencer. Ou de cédulas cortadas ao meio. E o noticiário nos conta que bandidos do Rio de Janeiro resolveram entrar organizadamente nas eleições e exigem que os eleitores, ao votar, fotografem, com o celular, a urna com a foto do candidato para, depois, mostrar ao chefe do crime em sua zona de moradia.
Em Goiânia, muito se tem falado, nos últimos dias, de candidatos que remuneram donos automóveis que ostentarem suas imensas fotos coloridas e sorridentes. Dizem que a remuneração varia de 50 a 200 reais por semana, sem contar o combustível, distribuído em cotas fixas, também semanalmente. Ou seja: quando maior o poder financeiro do candidato, mais carros há, nas ruas, com sua cara.
Triste é pensar que, nos próximos quatro anos, esses cínicos poderão ocupar uma cadeira e serem sustentados pelo Erário, ou seja, por nós. Eu mesmo escapei do canto-de-sereia de um jovem cabo eleitoral, que tentou: "Fulano (o candidato) será eleito, sem dúvida; e você será o assessor de imprensa dele por dois anos". Indaguei, fazendo cara de ingênuo: "Ué, não são quatro anos?". E o cabo eleitoral esclareceu, cheio de conhecimento e autoridade: "Nããããooo... Ele vai ser eleito deputado federal em 2010; e você, então, será assessor de imprensa dele em Brasília". A essa altura, o cabo eleitoral estufava o peito e demonstrava dominar tudo. E eu, no pedestal da minha vetusta ignorância, quase quarenta anos de ofício na imprensa, dentre outras atividades, fazia cara de surpreso. Pensava, cá comigo: "Viver mais de sessenta anos para ouvir uma patacoada dessas!".
Bem, tenho de resumir. O que importa é que há, sim, inúmeros abusos de poder econômico nas campanhas, aqui e em qualquer lugar do País. Nós, eleitores, temos de ficar atentos e eliminar, da nossa lista de escolha, esses compradores de votos. Não é difícil identificá-los – eles são caras-de-pau o bastante para não se esconder. Acreditam na impunidade.
Ora, se até as altas cortes federais dão vez a candidatos ficha-suja, cabe a nós, pelo voto, a missão de condenar esses delinqüentes.
O negócio é não votar em quem se propõe a comprar votos.

8 comentários:

Fátima Paraguassú disse...

Se optarmos por votar em quem não compra votos, em quem votaremos?
Aceito sugestões

Mara Narciso disse...

Luiz de Aquino, a sua seara é a política. Gosto das suas crônicas cheias de lirismo, mas essa foi forte e dos últimos tempos, insuperável. Essa sua maneira satírico-humorística na dose certa fez-me sorrir e até mesmo gargalhar. A sua perspicácia em coletar as palavras certas, num trabalho artesanal--e isso você faz maravilhosamente bem--,culminou num fecho hilário. Chamar os maus-políticos de delinqüentes foi o máximo. Parabéns!

Olavo disse...

Boa noite, caro Luiz de Aquino!

Cada vez melhores as suas crônicas! (Sem qquer favor, sinceramente.)

Apenas, permita-me, q.to às "fichas sujas", as cortes, no nosso sistema, dependem (para tal impedimento) de alteração da legislação vigente... (Acho que estamos caminhando para isso, numa manifesta vontade popular...)

De qquer forma, parabéns e obrigado pelas gentis remessas.

BOA SORTE, sempre!

Abr Olavo.

Madalena Barranco disse...

Olá Luiz,

Ah... Será que as pessoas sabem o que é consciência?

Ótima crônica, querido amigo. É um alerta para a falta de responsabilidade de quem vende seu voto.

Beijos

Anônimo disse...

Verdade. Pena que os intelectuais da categoria de LUiz de Aquino não sejam lidos pela maioria dos eleitores, pessoas sem o hábito da leitura, desprovidas de senso crítico, acéfalas políticas, que, por serem tantas em nosso país, podem decidir uma eleição.

vs, thais disse...

Boa noite Luiz,

Adorei sua crônica. Esta e a mais pura realidade, estou com um caso deste aqui em casa, "se me der os tijolos do meu muro, eu voto nele". Não adianta falar, argumentar nada. Este ainda é o pais que tudo que se faz é em troca de algo, sem pensar nas conseguencias que irão atingir a todos nós.
Beijos

Divanir disse...

Adoro ler tudo que se relaciona com informaçaões,mas esta sua maneira satírico-humorística na dose certa fez-me sorrir,esta maneira simples de elogiar os políticos foi maravilhoso, espero que todos fiquem ciente, antes de exercer seus votos.

Divanir disse...

Luís
Adorei sua crônica sua maneira satírico-humorística na dose certa fez-me sorrir e até mesmo gargalhar,essa maneira de referir-se aos políticos que não respeitam a democracia, espero que os eleitores tomem consciência antes de exercer seus votos.