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sábado, fevereiro 07, 2009

Inaugural



Inaugural

Luiz de Aquino

 

O bairro é  ainda incipiente. Qualquer um que por ali passeie, por ruas de terra batida orladas de capim de pasto plantado sobre o chão do cerrado removido pelo sonho da fortuna, há de sentir-se pioneiro e pensar: “Daqui a alguns anos, tudo isso serão casas e jardins, asfalto e veículos, e vou me lembrar de tal como é hoje”.

O que me parece uma esquina é cobertura de

 braquiária, o capim africano que resiste melhor à seca e assegura alimento ao gado vacum. Retirado o rebanho, a poucas estações brotam do chão folhas novas de velhos caules subterrâneos: o cerrado

 ressurge, de volta ao chão e à luz do sol, moldurado por céu de azul ou de nuvens. Pouco além, um retângulo cercado de arame e trepadeiras ostenta flores, muitas flores variadas em

 plantas desiguais, dando cor ao verde de folhas e vermelho de chão, contrastando com o azul das  alturas. Sei que são de Deuza, a deusa da minha rua.

Além da cerca maior, limite do arrabalde, um rádio ligado a todo volume enche o silêncio com a cantiga de agudos e falsetes de uma dupla sertaneja. Preferiria caipira, mas estes fazem parceria  com preguiças, emas, antas e lobos, quero dizer, despedem-se deste mundo, para nossa saudade.

Do lado de lá, o outro lado da estrada roceira, postes de concreto sustentam fios grossos para assegurar luz no campo. Triste é notar que, para manter a linha reta, um pequizeiro perdeu a metade de si. Mais triste foi ver o jatobá, tão vetusto quanto eu (ou ainda mais), todo lançado ao chão. Minha amiga Bárbara, arquiteta, vê o que aponto e faz blague: “Se os arquitetos projetassem essas linhas, as árvores seriam preservadas, mas engenheiros só desenham retas”. Claro, é uma brincadeira cruel apenas para provocar  Luiz Ungarelli, ao nosso lado. Mas os da Agência Ambiental bem podiam multar a empresa que fez a linha de transmissão.

Numa rua que se pretende larga, bem ao meio, um pé de araticum sugere duas pistas. Por estes dias, mostra-se carregado de frutas, anseio vê-las maduras a espalhar seu cheiro doce. Sem mais nem menos, algumas corujas emergem da relva densa e postam-se, como que ensaiadas, em cada moirão da cerca, enquanto três pares de araras azuis atravessam, barulhentas, o espaço vesperal. Hora de

 buscar os ninhos, é certo.

A este tempo, não muito distante, a cidade regurgita pessoas dos prédios, entopem-se as calçadas e as ruas. Automóveis, nervosos, disputam espaço e disparam buzinas. Vermelho longo, amarelo rápido, verde insuficiente. O guarda, o menino, a velhinha, a bicicleta; a moça bonita, o estudante apressado, o velho distraído e sem pressa. O caminho de casa, o calor, a fome, o banho, o lanche às pressas, o telefone, o telefonema, o horário marcado...

A noite sugere relaxamento. Um bar, um samba, o mambo, o tango, o riperrope... guitarra, percussão e contrabaixo, bossa-nova, axé, dor-de-corno, a saudade, a vindoura já chegando, esfuziante na roupa colada. Outro chope, um petisco, os risos, as falas, o cheiro, a pele, o calor de novo, a vontade...

É sair daqui. Vidros baixos no carro, o ar quente agitado, amenizando o calor, esvoaçando cabelos e estimulando este fogo, este aconchego, a vontade emergente, urgente. É buscar os rumos do bairro novo, a nova casa e a esperança do amanhã.

Só falta luar.


 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog:  http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

 

9 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

"Inaugural", LER SUA CRÔNICA AGORA, FOI UMA VIAGEM NA NATUREZA, QUE COMO FALAS, ATÉ QUANDO SERÁ ESTE RECANTO QUE DESCREVES ASSIM. mAIS, EU QUERIA MESMO É TE DIZER, QUANDO TERMINEI DE LER, TINHA SOBRE A MINHA VARANDA O TAL LUAR QUE VOCÊ NÃO VIU NA SUA CRÔNICA, BOM DOMINGO, EFIGÊNIA

martha nascimento disse...

luiz querido .., seu poema Inaugural eh como voce, cheio de vida que brota de dentro, do fundo , espontaneo, colorido e maravilhoso..beijos

Amarílis disse...

Olá Poeta.
Linda crônica.
Pena que esse engenheiro não aprendeu a observar e interpretar a natureza, as curvas dos rios, por exemplo.

Anônimo disse...

Boa Noite Poeta!...Belo texto, lindas fotos, sempre romântico.Parabéns, Ireci Maria.

Mara Narciso disse...

O cerrado é lindo e rico, mas é frágil. Já li que equipara-se ao mangue em termos de fragilidade. A sua descrição poética assemelha-se a uma fotografia, com a diferença que e aqui o recado é mais emocional. Então vem a chamada de consciência: para o bairro chegar o cerrado tem de sair.

O contraste do rural com o urbano deu um jeito gracioso ao texto. Hoje aconteceu algo de muito bom com o autor, pois a escrita foi delicada, gentil e de muita inspiração, o que gerou uma contemplação harmônica no leitor.

Márcia disse...

Que delícia de crônica..viajei ao seu lado em cada palavra. Belo!!! maravilhoso poeta!

Luiz Delfino de Bittencourt Miranda disse...

Homem de Deus, com esta sua cronica retornei lá para a época das obras do Parque Ateneu onde um amigo, também Santista,(o Engenheiro José Antonio Cid Peres) havia comprado uma casa.Ficamos alguns dias naquela região, onze km distante do centro, bem me lembro, eu me encantava com as corujas e mais, tinha um enxame de abelhas que passava pontualmente ao entardecer e aquelas imagens me deixavam atonitos já que eu estava é mais acostumado com a beira-mar.
Quando se mexe com as coisas que beiram muito o mar não tem jeito não; se ele cobrar um dia, ele engole tudo, depois, só resta mesmo a linha d'água para ser apreciada ou os corais abaixo para serem fotografados pelos mergulhadores. Diferente de sua poesia, onde em cada passo dado pode-se sentir a energia vibrante a
germinar. A natureza, melhor que todos os engenheiros reunidos, faz seus cáculos precisos para que tudo seja redesenhado, cada bactéria, cada semente, cada organismo, nitrogenado ou não, trabalham de sol a sol, para depois, - anos depois - quem sabe este santista aqui no Sul, que morre de saudade desta Goiania, de Pedro Ludovico, voltar e apreciar tudo novamente.

Abraços poeta

Luiz Delfino

Edmar Oliveira disse...

Aquino, parabéns por mais esta bela crônica. Sensibilidade pura.
Abraço.
Edmar Oliveira

FELICIDADE SEMPRE POR PERTO disse...

"Só falta luar."
Lindo demais!!!!
Parabéns!