Páginas

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Quero o fim dos carimbos

Quero o fim dos carimbos

Luiz de Aquino

 

Qualquer brasileiro no patamar dos 60 anos ou mais, premiado com tal longevidade apesar do trânsito, das rodovias ruins, da violência das ruas, da ocasional medicina ruim, da ditadura militar, dos abusos policiais (sob qualquer regime) e dos grupos de extermínio (desgraçadamente defendidos por uma minoria descarada e cínica) e de tantos outros obstáculos (como as epidemias e as endemias, os suicídios e os crimes passionais) há de lembrar-se do tempo em que uma família tinha muito poucas contas a pagar nos finais dos meses.


A água era de cisterna, filtrada e (ou) fervida, conforme a necessidade e a conveniência; a energia elétrica mantinha as lâmpadas (poucas), o rádio e, em algumas casas, uma geladeira; telefone era artigo de luxo nas grandes cidades e inexistente nas pequenas; eram poucos os impostos e quase não se comprova a prestação. Havia a saudosa caderneta do armazém e a da padaria.

Vida simples, se comparada com a de hoje. Uma casa ou apartamento de dez anos atrás não dispõe de tomadas suficientes para os aparelhos de tevê e devedê, som e computador (com os indispensáveis periféricos). Na cozinha, alem da geladeira, temos o frízer, o forno elétrico, o de micro-ondas, a batedeira, o liquidificador e outros mais, e temos ainda a máquina de lavar louças, a de lavar roupas, a secadora etc. e tal.

Com isso tudo, multiplicam-se as contas a pagar: cartões de crédito, cheque especial, carnê do carro e de móveis, carnê da escola regular e da academia de ginástica, do curso de línguas, do preparatório para concurso, as contas dos telefones (o fixo e os celulares), o condomínio, os impostos parcelados e tanta coisa mais!

Triste é pensar que a cada conta, ao final do ano, temos nada menos que doze recibos a serem guardados por pelo menos cinco anos. Ou seja, cada item nos exige um arquivo de sessenta comprovantes. Isso sem falar no volume de papéis que temos de mostrar em qualquer lugar, seja escola ou banco, empresa do seguro de saúde e mais etc. e tal.

E as cópias autenticadas? E as tais de firmas reconhecidas?

Houve um temo, há cerca de 25 anos, isto é, no tempo de João Figueiredo, o general presidente, em que a imprensa divulgou uma palavra talvez nova: desburocratização. 

E tinha um sinônimo Hélio Beltrão, nomeado ministro para desburocratizar.

Ele sugeriu o fim do reconhecimento de firma para um mundaréu de papéis, bem como das caras e nunca confiáveis autenticações de fotocópias. Bastou entrar Sarney para que o “lóbi” dos cartórios fizesse recrudescer a burocracia a plano vapor, e só agora, no segundo mandato de Lula Inácio se tem um aceno pela simplificação das coisas.

Tomara!

 

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

4 comentários:

Mara Narciso disse...

Bem lembrado. Estou com um grave problema de espaço. Tenho múltiplos interesse em áreas diversas e livros que não acabam mais, além da prestação de contas dos gastos com meu pai, sobre a qual o juíz pode pedir um relatório a qualquer momento. Assim, falta-me lugar para colocar tanto papel. Estamos, a cada dia complicando a vida mais e mais,já que as nossas necessidades, reais ou imaginárias, ampliam-se a cada dia. Viver poderia ser mais simples.

Maria Helena Chein disse...

Li suas três últimas crônicas. Todas mostram a seriedade com que expõe as opiniões. Gosto muito de pensar e sentir com você, porque nos assuntos há propostas para a nossa comunidade, há resgate de fatos idos. E há sentimento, emoções, o compadecer-se com o outro.
MEUS VALORES INTOCÁVEIS: é nossa obrigação o cuidar de nossos valores e riquezas.
QUERO O FIM DOS CARIMBOS: concordo, Lu, chega, chega de tanta burocracia.
DIA DE CHORO E LÁGRIMAS: até quando, tanta dor, tanta miséria humana! Um dia, li em uma lápide "Que dor, meu filho!" Depois, um conto meu levou esse nome,
quando contei a história de uma mulher e sua grande perda.
Até! Um beijão.
Maria Helena

Luiz Delfino disse...

Poeta, permita um ajuste no "dial". Helio Beltrão também ficou conhecido pelo povo - principalmente pelos estudantes que gostavam de cutucar com vara curta o Presidente Figueiredo - como um dos Ministros mais simpáticos. Recordo-me de um silêncio magistral quando do noticiário de sua morte; aquele silêncio que toca o incosnciente coletivo, que não se explica mas que todo mundo sabe que algo aconteceu, "algo esta no ar".
Aproveitando também o seu contexto e texto amigo poeta, me vem na lembrança que às crianças era proibido mexer em qualquer botão da TV, somente os adultos podiam trocar os canais naqueles botões que faziam uns barulhos caracteristicos de carreteis. toc toc toc toc toc e tec tec tec tec, se voltasse os canais.
Tantas outras coisas se evolam se percorrermos o seu texto; se o esmiuçarmos então, não sairemos daqui hoje e haja espaço em HDs para caber tantas fontes - tipos virtuais, quem diria heim jornalista? tu que deves ter conhecido muitos tipógrafos, únicos na habilidade! - pois das lamparinas à bica d'água, existia lá, na minha velha Vicente de Carvalho quanto na sua São Sebastião do Rio de janeiro que, se não me falha a memória foi onde você deu seus primeiros passos.
E assim vamos recordando das coisas mais no sentido de alertar para que tantas besteiras não se repitam mas..., eu costumo salpicar nas rodas de amigos: antigamente podiamos deixar a porta aberta e confiar no homem de gravata que vinha vender livros...hoje, não.
Até do carteiro se perdeu a confiança.
às letras poeta.
Abraços
Luiz Delfino

Luiz de Aquino disse...

Obrigado por complementar, Luiz Delfino! Muito boas lembranças, sim!
(Só para te esclarecer, eu nasci e dei meus primeiros passos em Caldas Novas, Goiás. O Rio de Janeiro aconteceu-me aos dez anos de idade e estendeu-se por toda a adolescência).

Luiz de Aquino