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terça-feira, fevereiro 17, 2009

Trotes e sentimento

Luiz de Aquino

 

O texto abaixo, recortei-o de uma crônica da jornalista e fotografa, de talentos indiscutíveis, Neusinha Gedoz , da cidade de Carlos Barbosa, RS (a crônica de Neusinha, “Respeitar é não fazer ao outro o que não gostaríamos que fizessem conosco”, está em http://neusinhagedoz.blogspot.com):

“Pessoas e pessoas. Penso que existem dois tipos: as boas e as más. Conheço uma pessoa boa que me ensinou sobre “respeito à vida do outro”, não importa quem é o outro. Se é gente, bicho ou vegetal.

 Meu sobrinho de onze anos matou, sem querer, um pássaro no sítio da família. Ao pegar o corpinho da ave sem vida nas mãos começou a chorar um choro tão emocionado que seu peito arfava, quase não dando conta de respirar. Beijou sua cabecinha, conversava com ele, cavou um buraco em terra macia, numa sombra, colocou o Canário bem colocadinho, tapou, fez uma montanhazinha de terra, cruzou dois pedacinhos de paus, fez uma cruz com uma borrachinha improvisada. Terminou a cerimônia colocando algumas flores minúsculas perto da cruz e disse a seu pai: “pai, você me ajuda a cuidar da esposa e dos filhinhos dele?” Assisti a cena com lágrimas nos olhos e imaginei a dor que ele estava sentindo, já que chorava sem parar.

O que tem a ver a história do pássaro com o trote universitário? Nada. E tudo ao mesmo tempo”.

Fico triste em contar que esse trecho, por mim selecionado, vem após as considerações da autora em torno dos trotes acadêmicos que vêm causando mortes e lesões graves, corporais e psicológicas. Não preciso discorrer sobre o quanto isso nos causa indignação (alguns locutores andam falando “indiguina”... nada demais, já que alguns, ou os mesmos, quando querem dizer “opta”, pronunciam “opita”; e, pelo tom, dão-me a impressão de pôr acento agudo na silaba distorcida).

Ao ver que em Embu os veteranos de Veterinária obrigaram calouros a ingerir bebidas alcoólicas em níveis superiores ao suportável e os fizeram rolar numa lona cheia de fezes de animais e aves em decomposição; e que em Leme (ambas as cidades no Estado de São Paulo, o nosso “primeiro-mundo”) uma estudante de Pedagogia jogou creolina com gasolina no corpo de uma jovem caloura (que, por sinal, está grávida), lembrei-me que, em 1971 (sim, há 38 anos), os veteranos da Universidade Católica de Goiás escolheram por trote servir bebidas e refrigerantes aos calouros como que numa festa comum. Mas anunciou-se, com antecedência, que lhes seriam tomadas as roupas para doar a pessoas carentes.

Assim se fez, no primeiro trote coletivo em Goiás. Sem excessos, sem violência, sem desrespeito. Quanto a Neusinha, que conheci nas afinidades registradas em perfis da Internet, recebo-a com esses versos de bem-esperar:

Bendita a que chega 
/ Em Nome da Rosa,  / 
traz palavras de peso 
/ e medidas infindas, / solenes e sólidas. 



Bem-vinda a que chega 
/ trazendo um sorriso 
/ de doce domínio, / um olhar 
de envolver e palavras / 
de nunca esquecer. 



Bem-vinda, Neusinha, 
/ bonita e gaúcha, / amante de causos 
/ e papos.

Feito eu. 



 

E ainda sobre trotes... Bem, os veteranos adultos têm muito o que aprender com o sobrinho da Neusinha, não?

 

Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. Email: poetaluizdeaquino@gmail.com. Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com. 

6 comentários:

Efigênia Coutinho disse...

O que tem a ver a história do pássaro com o trote universitário? Nada. E tudo ao mesmo tempo”.

LI SUA CRÔNICA, E AO CASO DO SOBRINHO QUASE CHOREI, POIS IMAGINEI A DOR DELE AO VER QUE SEM QUERER TIROU A VIDA DO BICHINHO.
QUANTO A RESTO , SOBRE OS CALOUROS, PERMITA-ME QUE LHE DIGA UMA COISA, OS CULPADOS SÃO OS PAIS A RAIZ DA ÁRVORE , QUE JÁ VEM EM TERRENO ARGILOSO, SEM QUALQUER PREPARAÇÃO, SEM ADUBAÇÃO, E SEGUEM DESNORTEADOS MUNDO A FORA, PIOR, QUE ESSES CALOUROS AMANHÃ SE TORNAM MÉDICOS, ADVOGADOS, E OUTROS, E VÃO CONVIVER COM UMA SOCIEDADE QUE PRECISAM DE SEUS SERVIÇOS? LAMENTÁVEL, EFIGÊNIA COUTINHO
( AINDA ESPERANDO O ESCRITOR AO MEU NOVO ESPAÇO

lilian reinhardt disse...

Caro Poeta,
é um prazer conhecer o seu trabalho. Profundamente humano essa denúncia de sua crônica quanto a bárbarie que não escolhe meios para sempre aflorar da escuridão da ausência de discernimento no homem. Há uma insconsciência do outro como si, parece de maneira absoluta. Mas, ainda há os meninos que choram pelo canto do pássaro e isso nos é profundamente emocionante e pode resignificar a história humana! Um grande abraço, lilian

Leda(ê) Selma disse...

É isso mesmo. Gostei da Neusinha e do sobrinho da Neusinha. Do Luiz, já gostava. Eles sabem das coisas. Beijocas. Lêda

Mara Narciso disse...

Já disse e repito sempre que sou 100% avessa ao chamado "trote" e muito mais, se mais houvesse. Há 35anos fomos vítimas de toda a sorte de atrocidades como: ficarmos 44 pessoas presas num exíguo espaço por toda a manhã; subir de costas e sentada uma grande escadaria; sermos jogados nos resíduos de um laboratório( fezes e urina humanas), termos os nossos cabelos cortados para "aleijar" o corte; termos as nossas roupas arrancadas e substituídas por estopa; além do tradicional banho de ovo e farinha. Coisa de irracionais.

Quando fomos devolver o "trote", um ano depois, fizemos plantio de árvores e coleta de alimentos para carentes.

Sou pela criminalização pura e simples dos "trotes".

Juliano Sanches disse...

Legal essa história do passarinho. Olá tudo bem. Parabéns por ter um Blog com um estilo visionário. Há quem tire ouro do lodo. Há quem tire vidas humanas de passarinhos. Quem diria hein... Não estamos em Terra de Cego, mas, às vezes, parece que só poucos enxergam em nosso chão. Poucos tem um olho. Olho que funciona, é claro. Precisamos descobrir esse nosso olho, pois, pelo contrário, estaremos unidos à multidão que se embarca eternamente na nau do conformismo. Desde já vou acompanhar o olho desse Blog. Bem pensado esse espaço. Nessa semana, no meu blog eu fiz uma poesia sobre as superações da vida, as pedras tiradas no caminho. Dê uma olhada.

Meu nome é Juliano Sanches, sou jornalista, colaborador do Portal Sorocult (www.sorocult.com), do Portal Comunique-se (www.comunique-se.com.br), da revista on-line Guaruçá (www.ubaweb.com), e do Portal Mário Lincoln do Brasil (www.mhariolincoln.jor.br). Sou colunista do Jornalzen (www.jornalzen.com.br), de Campinas. Escrevo esporadicamente para o Jornal Correio Popular de Campinas (www.cpopular.com.br). Tenho um blog, chamado "Casa do Juliano Sanches". Trata-se de um espaço de reflexão sobre temas como qualidade de vida, natureza, ecologia, espiritualidade universalista, viagens, lugares do Brasil, experiências místicas, músicas de diferentes estilos, ruralismo, jornalismo, psicologia, peças de teatro, livros, autoconhecimento,
autoajuda, autoafirmação, resistência cultural, vida em harmonia, paz, estudos, observações diárias, poesia, geração de visibilidade para as pessoas mais excluídas, culturas do povo e folclore. Comecei a fazer algumas experiências de coleta de informações. Durante os finais de semana, eu dedico uma parte do tempo à observação e ao acompanhamento dos coletores de lixo de Campinas. Já fiz amizade com alguns deles. Com as experiências, eu iniciei uma reflexão sobre a falta de visibilidade dos trabalhadores braçais. No blog Casa do Juliano Sanches (http://casadojulianosanches.blogspot.com/), eu também dediquei um espaço ao tema. O meu objetivo é verificar como são as relações sociais entre coletores de lixo e a população que anda pelas ruas de Campinas. Fiz algumas comparações entre carroceiros, profissionais de limpeza de banheiro, garis e margaridas. Pude perceber que são pessoas receptivas. Apesar de vivenciarem uma situação de anonimato, produzida pelos dispositivos da sociedade, eles aindam conseguem, mesmo que minimamente, manifestar suas visões a respeito das condições de sobrevivência nas cidades industrializadas. Fiz algumas fotos de dois dos garis que acompanhei. As imagens dos rostos deles fazem uma representação evidente das dificuldades vivenciadas pelas ruas, principalmente o cansaço e o abandono da sociedade.

Visite minha Casa, quando puder.

O endereço é:

(http://casadojulianosanches.blogspot.com/).

Um grande abraço.

Maria Helena Chein disse...

Luiz, como acontece, duas crônicas oportuníssimas suas. A questão dos trotes nos calouros: isso é uma barbaridade, uma falta de vergonha, pôr o outro numa situação de morte. Quantos crimes estão cometendo em nome da recepção aos novos colegas! Trote deve acabar mesmo. Chega dessa besteira. E cadeia para os criminosos!!...
Marchinhas em Vila Boa de Goiás: quantas músicas bonitas, gostosas de cantar, com uma certa ingenuidade nas letras. Sou fã. E parabéns a vocês pelo concurso!
Abraços.
Maria Helena