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quarta-feira, julho 08, 2009

Mão na cabeça

Mão na cabeça


Luiz de Aquino



O neto em flagrante. A filha que repete os passos do papai, mas que traz na biografia a efetivação em cargo de alta graça pecuniária, sem concurso (ou seja, por “ato secreto”), a Internet recheada de informações facilmente comprováveis, como a nomenclatura de vias , palácios, hospitais, escolas e um sem-número de bens com o mesmo sobrenome inconfundível, exclusivo...

Sarnei, presidente da Arena, com Médice

O presidente passou a “mão na cabeça” do ex-presidente e novamente presidente. Sim, os muito jovens talvez não saibam, mas ele já foi deputado estadual e federal, foi senador e governador, foi presidente da República e esta é a terceira vez que preside o Senado.

Mão na cabeça é palavra-de-ordem que os bandidos ouvem da polícia.Ou dizem às suas vítimas. Mas é também a referência de nossos pais e vovós sobre perdoar uma traquinagem de menino malino. Aliás, acho uma sacanagem dizer “menino malino”. Malino, corruptela de maligno, é malvado, não é? Mas a gente diz, ou

dizia, malino para um menino travesso, levado, ladino, esperto, sagaz... Só que Lula, o presidente de tantas vitórias, capaz de angariar a confiança do povão mais humilde e a admiração de rainhas, reis e presidentes e primeiros-ministros das maiores potências mundiais, desta vez errou. Errou de novo. Não tinha nada que

passar a mão na cabeça do imperador do Maranhão, do Amapá e de outros feudos por aí afora, onde mantém prepostos.


Por essas e outras defendo a graduação de jornalistas. Graduação específica, é claro.

Dirão que sou incoerente, logo eu, que me formei noutra área, que fugi do curso de jornalismo. Fugi naquela época e fugiria de novo. Quando me matriculei na UFG, já exercia o jornalismo; queria aprender mais. Chegando lá, encontrei sociologia sob vários títulos, quero dizer, várias máscaras. E eu vinha do curso de Geografia. Deparei-me com “professores” de jornalismo que traziam, alguns, diplomas específicos, obtidos no Rio de Janeiro etc., mas que jamais trabalharam em veículos de notícias. E não tinham formação de professores. Logo, eram profissionais sem experiência e instrutores sem preparo. Fugi, sim. A Universidade devia exigir conhecimento didático, além de conteúdo. E permitir que os professores de jornalismo exerçam a profissão de jornalista, como acontece com os professores de medicina, de direito, de engenharia e de todas as demais áreas.


Liberar a exigência do diploma pode parecer dispensar o mesmo. Ledo engano. Um advogado em jornal poderá até ser um repórter razoável, mas se escrever em juridiquês parecerá ridículo até mesmo para seus pares. O mesmo se dará com os formados em outras áreas. Jornalismo tem sua gíria, seus jargões, seu “modus operandi”, e isso não se aprende plenamente na escola nem se adquire apenas por osmose – é preciso convívio, capacidade de aprender, vontade de assimilar. É preciso muita leitura, muita informação e a intransferível capacidade de processar as informações, transformando-as em notícias, tal como um professor (de verdade) processa o que sabe e, com a têmpera da didática, aplica isso na transmissão do conhecimento e na formação do indivíduo.


Ou isso, ou se busca o caminho do voto, das urnas e da “mão na cabeça”. No primeiro ou no segundo conceito.

Fui claro?



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


3 comentários:

O Granja disse...

Muito bom, Padrinho. Como sempre, "costurando" assuntos com muita propriedade.
Parabéns pela crônica!

Eloisa disse...

Tristeza depararmos com as palavras entre aspas todos os dias em varios assuntos. Vivo colocando as maos na cabeca mas, de espanto, de reprovacao e sem mais dizer, de lamentacao.
Liberacao nao ,formacao academica sim. Nao da para ser diferente, que coisa!!!!!
Luiz deixa claro qual melhor opcao nesse caso. Votar com as maos no juizo e no conhecimento, eh a saida.
Parabens pela cronica.
Abracos.

Simone disse...

Parabéns pela crónica.Foi claríssimo.Muito bom.