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sexta-feira, novembro 13, 2009

Choque de gerações

Choque de gerações


Luiz de Aquino

Não bastassem os locutores com problemas de pronúncia, esses que dizem “Petobrás” e “Eletobrás”, nem os mais crassos erros de regência (time que “perde do” e “o clube que eu torço”) e de concordância (“houveram falhas na arbitragem”), agora é a vez da ignorância vocabular. Um radialista, enaltecendo a façanha do Atlético Goianiense ante o Ceará (4x1), disse que perder de 5x1 para o Duque de Caxias “mexeu com o brilho do clube goiano”. Engraçado... Vai ver, esse moço chama tralha de traia, mas corrige brio por brilho. Na mesma emissora, minutos antes, repórter político dizia que “ações em conjuntas devem ser tomadas” (além da sofrível construção com gerúndio, o moço inventou a fórmula “em conjuntas”, híbrido de “em conjunto” com “conjuntas”, certamente).

Como todo mundo, sou sujeito a errar. Mas tento acertar. E costumo agradecer, pois gosto que mostrem meus erros. Consulto pessoas como Leda Selma, Nilson Gomes e (agora, um tanto menos) minha sempre professora Ecléa Campos Ferreira. Mas há algo de inusitado entre os novos profissionais: um descaso sistemático para com o conhecimento. Pergunto-me: o que se ensina, o que se aprende, o que se faz nas universidades além de desfilar as formas plásticas (como Geisy Arruda), de agir ao modo talibã (como os colegas dela na Uniban) e de “fritar” o cérebro com drogas lícitas e ilícitas, como a tevê nos mostra com freqüência?

Felizmente, existe uma expressiva maioria de adolescentes e jovens que não se deixam levar pela propaganda nefasta nem pelos “ensinamentos” das letras de músicas de consumo fácil, as que induzem ao álcool e aos “baratos” de outras práticas. Sem dúvida alguma, o primeiro copo e a primeira tragada são portas para a “boiada”que vem depois. É preferível embriagar-se de poesia e música.

Em meio a isso, tirei duas ou três horas da semana, fui a Anápolis visitar amigos a quem devia uma prosa direta. Guiado por Luciene Silva, estive com Mozart Soares e José Cunha. Conversamos sobre vida e vivências, visitamos as pedras e argamassa com que, décadas atrás, construímos nosso hoje para os risos e a felicidade do reencontro. Mozart contou-me de ter presenteado Cunha com aquele DVD de Toquinho (uma peça inestimável!), e este me homenageou com dois cedês montados por ele próprio: duas antologias, uma sobre a saudade, outra do que ele considera o melhor da música do Século XX. Excelentes seleções que eu, chato, restrinjo apenas no tocante a uns poucos cantores. Questão de preferência pessoal. Mas nenhuma restrição às músicas escolhidas.

Ouvindo essas pérolas do cancioneiro universal (com nítido privilégio para a produção brasileira, que reporto dos mais justos), viajo novamente pela Língua Portuguesa. As boas melodias recheiam-se de boas letras, que muitas vezes nos chegam como poemas perfeitos. Confiro, nos meus amigos, as cãs (para os menos informados, cãs são cabelos brancos, e não o feminino de cão) e as rugas, em meio às boas lembranças. Somos remanescentes de um tempo em que arte era algo que precisava ter qualidade, e não um borderô de bilheteria ou venda. Era o tempo em que o artista cuidava da boa finalização de seu produto, em lugar de correr atrás do saldo bancário.

Curiosamente, associo esse passeio ao livro que leio estes dias, “Leila Diniz”, de Joaquim Ferreira dos Santos. A famosa atriz que revolucionou o comportamento brasileiro nas décadas 1960/70 (faleceu em acidente aéreo em 1972, aos 27 anos), veio de um lar ateu, criado por várias mães, distante da mãe biológica, acometida de doença mental. Aos quinze anos, exercia o ensino em pré-escola, calcando sua prática docente nos ensinamentos de A. S. Neil, o revolucionário pedagogo de Summerhill.

Em plenos “anos de chumbo” do reinado de Médici, na dinastia das estrelas generais, Leila praticava a liberdade até onde lhe era possível. E ela foi muito além do que se imaginava. Escapou da cadeia e do ridículo, mas morreu muito jovem.

Os estudantes da Uniban neste final de ano 2009 agiriam de modo diferente se conhecessem algo daquela moça de ideias e práticas libertárias.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.

12 comentários:

Nilson Gomes disse...

Muito obrigado pela citação a seu humilde e pobre amigo.

Luiz de Aquino disse...

Que é isso, Nilson!
Você já faz parte da minha vida há algumas décadas, rapaz!

Conceição disse...

Meu querido poeta!

Aqui estou parabenizando-o pela belissima cronica tão oportuna quando nosso dialeto tão rico, está indo de mau a pior. Nao mensionarei aqui os erros absurdos chamados de "regionalismo" para não me estender tanto, não teríamos espaços suficientes
Obrigada pelo carinho e atenção a essa india que gosta muito de voce

bjos

Ceição Bentes

Ivan Ornelas disse...

Faz muito tempo que não te vejo, pessoalmente. Mas, vi sua fisionomia com as marcas do tempo que passou no artigo que foi publicado no dia 15 de novembro de 2.009, no jornal O Diário da Manhã, data esta em que deveríamos comemorar a proclamação formal da república no Brasil.
Quero te cumprimentar, Luiz Aquino, pela sua angústia diante da falência no uso da língua e da linguagem e, ao mesmo tempo, te confessar que sou quase analfabeto em informática. Esta é a minha primeira tentativa de mandar uma mensagem através da INTERNET. Estou aprendendo a usar esta nova tecnologia que aumentou a velocidade de transmissão da informação. Vejo que televisão, rádio, computador com internet e outros meios informam, mas não ensinam a ler, refletir, interpretar, falar e escrever. Esta é a razão do fracasso na produção e interpretação de textos pelos estudantes e bacharéis.
Recentemente, o advogado Eládio de Castro Amorim, como presidente da Comis são de Exame da OAB Forte de Goiás, foi preso, porque liderava uma quadrilha de venda de carteiras para bacharéis analfabetos. Este foi mais um fato que denunciou até que ponto é possível chegar na escalada do excesso de informações e, paralelamente, nas fraudes que levam à decadência nos modos de expressão e comunicação que seu artigo abordou, quando comparou como era a riqueza da prosa e da poesia de antes com a pobreza melancólica daqueles que agridem a gramática.
Ari Valadão virou trombadinha da gramática, quando deu aquela famosa entrevista dentro de uma canoa no norte de Goiás, onde navegava a bordo de uma canoa, e disse que as casas estavam "submersas em baixo d'agua". Certamente Lula foi aluno de Ari Valadão.
Parabéns, Luiz Aquino. Espero que o meu primeiro "e-mail" chegue ao seu endereço.
Abraço.
Ivan Ornelas.

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, Conceição!
Obrigado, Ivan!

Triste é saber que lutamos em vão. A avalancha da ignorância está obscurecendo a Nação Brasileira.

Elder Rocha Lima disse...

Poeta:

Lendo sua crônica de hoje, fiquei aliviado - vivo assustado com meus erros de português. Só
conheço gramatica de ouvido e não me acho na idade de estudar esses trens hoje. È claro (acho eu) que meus erros não são de assustar como esses apontados por você.
Outra coisa: com relação à música - penso que atualmente o Brasil produz a melhor música do mundo; sou ainda
mais radical - dentro do quadro da cultura brasileira atual, nossa música está no topo da pirâmide. Nossos compositores, letristas etc. estão fazendo coisa melhor que nossa literatura que anda meio mofina.

Abraços do admirador

Elder

Luiz de Aquino disse...

Querido Elder,

Seus errinhos, como os meus, são supoertáveis (menos para nós, autoexigentes... será que tem hífen?). Mas os profissionais da imprensa, especialmente os da tevê, abusam! E são regiamente remunerados para "ensinar" erros que o povão aprende como dogmas.

Luiz

INFETO disse...

Gostei do espaço.
Visita o meu

http://poesiafotocritica.blogspot.com/

Abraços

Mel disse...

Gostei muito do que escreveu, afinal estamos desaprendendo e isso é triste. Mas tb não precisa ter estudo para comandar o país? Exigir o que dos reles mortais? Caetano Veloso que o diga.
Quanto a música, discordo um pouquinho de vc grande poeta, pois temos qualidade em muitas letras. Presta atenção na música do skank, com letra do Nando reis (se não estou enganada) cujo o título é "Sutilmente".
Boa noite e mais uma vez: parabéns!

Luiz de Aquino disse...

Querida Mel, não podemos radicalizar mesmo! Lula e Caetano, cada um em seu campo, são pessoas das mesmas medidas. Caetano é um artista intuitivo, sem formação que fariam dele um ser melhor ainda. Lula também. Ou não estaria nesse posto, onde, em inúmeros momentos, mostra-se superior aos graduados que lá estiveram. Tem seus erros e precipitações, mas em escala menor do que o nosso grande Caetano Veloso (este, sempre que abrir a boca, deve ser presenteado imediatamente com um violão, pois cantando agrada universalmente).
Um beijo! Obrigado pelo comentáriro. Concordo quanto à elevada qualidade dos músicos citados, e há outros mais. O que lamento é a mídia especívica impor a digestão fácil das letras vulgares e das melodias que nada somam. Minha esperança é que surjam novos "Vitor e Léo", impondo um crescimento de qualidade, para substituir a mesmice.

Luiz

Wanda disse...

Concordo com você!
Que venham os porres de música e poesia!
E que possamos curtir a vida e o que ela nos traz. E ela trouxe uma surpresa deliciosa na semana que passou...
Vinícius, Caetano, Chico, Milton, Jobim e tantos outros têm sido minhas companhias preferidas porque estou que nem uma cigarra nesses últimos dias... Cantando... Cantando... Feliz!
Obrigada por escrever tão bonito pra gente.
Beijos!
Wanda

Madalena Barranco disse...

Luiz, querido, estava com saudade de seu bloguinho. Em seu texto de letras sábias e um tanto tristes, pelo desperdício que os jovens fazem quando priorizam as formas, e se esquecem do conteúdo precioso em luta pela própria vida, esquecido que está em seus corações, eu concordo com você. Quanta revolto incompreendida pelas próprias almas se agita em mentes que poderiam ser brilhantes... Há vinte anos quando eu estudei na faculdade, eu e minhas colegas usávamos minissaia e éramos felizes; nos preocupávamos com nosso "latim" e viajávamos pelas aulas de literatura portuguesa, brasileira e etc.

Beijos carinhosos.
P.S.: por favor, Luiz, poderia me informar como faço para adquirir seu novo livro? É direto com você ou com alguma livraria? Envie-me os dados. Obrigada.