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sexta-feira, novembro 06, 2009

A visita do Pastinha

A visita do Pastinha


Luiz de Aquino


Os anos correm, céleres. Renovam a natureza, transformam a paisagem, marcam-nos a pele e os pelos, adormecem lembranças. Mas são os anos passantes que depuram-nos os sentidos e os sentimentos, permitindo-nos a maturidade seletiva a que os contemporâneos mais moços chamam de terceira-idade e eu teimo em repetir velhice.

Gosto de ser velho. Os mais velhos que eu censuram-me, dizem que me antecipo ao tempo. Mas já transpus o “cabo das tormentas” dos sessent’anos, ou seja, o IBGE qualifica-me velho, ainda que eu continue a sonhar como se vivesse uma eterna adolescência.

Um amigo da geração anterior, Isócrates de Oliveira, filósofo e diplomata, nativo de Pirenópolis, dizia, a mim e tantos outros, que “não é necessário envelhecer”. Gostei disso. E acrescento que, de fato, não é necessário envelhecer, ainda que os dias se acumulem em anos que se somam e nos roubam a melanina dos cabelos.

Entendo bem o saudoso Isócrates. De fato, é desnecessário envelhecer-se, porque os sonhos não envelhecem. E viver é sonhar, sempre. Quando moços, sonhamos com o futuro; na casa dos “genários”, sonhamos até mesmo com o que já vivemos. Foi assim que, retornando ao lar quando a tarde ia quase a meio, deparei-me com uma notícia e dois documentos: Mauro Jaime, meu velho amigo Pastinha, esteve aqui. Mary Anne tentou me chamar, mas o celular cumpriu o que se espera dele, ou seja, falhou.

Embeveci-me com os caprichos do irmão das noites. Mauro Jaime, que, feito eu, tem os pés na vetusta Meia-Ponte do Rosário (nossa amada Pirenópolis), sabe tanto quanto eu que boêmios não se fazem nem se tornam: nascem. E ambos nascemos boêmios (amantes da noite que jamais faltam ao trabalho quotidiano, ainda que a jornada de ofício comece nas primeiras horas matutinas). Boêmios são pessoas responsáveis e zelosas, apenas gostam da noite.

Mauro Pastinha deixou-me um mimo valiosíssimo: um cartaz de 1987, dando conta de que Anete Teixeira, que me foi companheira e amada naqueles anos em que nos fazíamos realmente adultos, homenageava Elis Regina no quinto ano do passamento da melhor cantora brasileira de todos os tempos. À minha mulher, ele disse, bem ao seu modo faceiro, que receava causar um constrangimento conjugal, trazendo-me lembrança da ex-companheira. Mary Anne disse-lhe que o passado é vida que não se apaga.

Mauro trouxe-me, ainda, outro presente: um DVD com que me agrada um novo amigo, ainda não visto por mim, mas com quem já permutei notícias e informações, o radialista e jornalista José Cunha. O disco, que vou ver já-já, contém um especial de ninguém menos que Toquinho, instrumentista e compositor da fina flor do nosso cancioneiro.

Eu, que vinha de palestras a estudantes da rede municipal de ensino, feliz por intercambiar com as crianças, sou, nesta quinta-feira (5 de novembro) em que escrevo para o domingo, privilegiado com tantos agrados. Lamentei não ter me encontrado com Mauro, mas já me comprometo com ele: vamos renovar o bate-papo, regando-o com goles gelados de boa cerveja.

Como antes. Como sempre. Como gostamos de conversar.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

10 comentários:

Edmar disse...

Aquino, passei por aqui mais uma vez. É prazeroso ler suas crônicas e poesias, "velhinho". Um afetuoso abraço de amigo e admirador Edmar Oliveira (filho do mestre Tenório Leitão).

Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos disse...

Oi,poeta!
Que coisa boa receber visitas tão saudosas, mesmo que não se esteja presente. Os mimos e as llembranças ficaram na sua casa ,esperando a sua volta, não é legal isso? Moço, e a Anete, quem diria, hein? Fomos colegas de classe no então Instituto Assunção, onde estudei em duas ocasiões, como interna, externa e semi-interna...( tá certo o tal hifen, aí?) Íamos no mesmo ônibus do colégio, que me apanhava ali perto da Alameda das Rosas , depois ia catando moças Goiânia afora, indo pela Av Tocantins onde pegava a Anete , a Lilian, a Stael ( de Jataí), a Lúcia Almeida, a irmã Mica, além das outras colegas ali da rua 8, Heloísa, Vânia e Marília Teixeira, Neusa de Paula....Ô saudade!

Luiz de Aquino disse...

Obrigado, Edmar!

Obrigado, Sônia! Imagine, pois, você, a minha saudade... Ela me foi excelente companheira! Vivemos um belíssimo amor.

Mara Narciso disse...

Gostei do comentário sensato de Mary Anne. De fato "o passado é vida que não se pode apagar", no entanto há passagens que doem tanto, que é melhor enterrar e fechar com concreto. É bom deixá-lo ir.

Poeta César (Runky) disse...

Querido amigo poeta... La madurez del cuerpo va en concordancia con la del alma. Siempre y cuando mantengamos vivos los deseos y anhelos,el futuro de la juventud estará asegurado. Un abrazo

ira disse...

O encanto de viver se encontra também nestes doces momento de prazer. Identifiquei-me muito com o texto. Adoro visitas inesperadas de amigos eternos.


Abraço e parabéns!
P.S. BEBA COM MODERAÇÃO! rsrsrs

Antônio Americano disse...

Caro Luiz,
Obrigado pela crônica, assim fiquei sabendo notícias do Pastinha, velho conhecido das Antas.
Caso tenha oportunidade, dê-lhe um abraço por fim.
Americano

Luiz de Aquino disse...

Ah, Americano, acabo de lhe enviar, por e-mail, o telefone do nosso amigo Pastinha.

Abraços! Marquemos uma cervejinha para qualquer hora dessas...

Marcos A. G. Carneiro disse...

Nâo é necessário envelhecer... Concordo também, poeta.
Cada dia mais reflexivo os seus textos. Pessoalmente, eu gosto.

si_monefs disse...

Poeta, realmente é delicioso ler todos os seus escritos, é enriquecedor a maneira como escreve.
Quanto ao comentário da sua esposa, foi de uma sabedoria admirável, fiquei com a frase dela na minha cabeça (como é verdadeira).
Parabéns e obrigada por nos doar um pouco da sua sabedoria.
Grande abraço!
Simone F. S. Arantes