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sexta-feira, abril 02, 2010

Livros à mão cheia


Livros à mão cheia


Há cerca de quinze dias, encerrou-se em Pirenópolis a II Festa Literária de Pirenópolis (abreviadamente, FLIPIRI). O evento homenageou a atriz que há mais de trinta anos escolheu viver entre os montes delineados pelo Rio das Almas, Eliane Laje. Sua vida confunde-se com a história do cinema brasileiro em muitos pontos, como se viu pelos filmes e fotografias. Escritores famosos pela grande mídia e preferidos das grandes editoras foram realce entre os menos cotados, estes que pontuam pelos vários brasis literários que teimam em existir. Uma festa digna de nota e de destino: ela vai se firmar como o grande evento das letras no Planalto Central, sob a batuta da Prefeitura de Pirenópolis.


Quatro dias depois de encerrada essa mostra, Goiânia sediou o que nos parece ser um récorde: o lançamento simultâneo de cento e trinta e seis (sim: 136) livros, entre autores contumazes e grande número de escritores inéditos. O fato andou despertando o sentimento de raposa em alguns, destacados entre os que o general João Figueiredo qualificou como “profetas da desgraça” (esse tipo de pessoa para quem “quanto pior, melhor”). Estes, olhando o imenso cacho de uvas na parreira, comentaram: “Estão verdes”. Mas a Prefeitura de Goiânia posou de farta palmeira e rendeu belos frutos, sim!

Em Santa Catarina, em 2005, formandos de vários cursos de uma universidade particular convidaram um dos professores dirigentes da instituição para paraninfo. Honrado e agradecido, o homem aceitou. Quando lhe estenderam o pires, o velho mestre ofereceu mil reais. Sim: o cheque, se é que era um cheque, estaria preenchido como na praxe: hum mil reais. A comissão de formatura oficiou-lhe um “desconvite”, usando mesmo esta palavra. O homem, com a humildade do vitoriosos, respondeu com sabedoria, colocando aqueles estudantes em seus devidos lugares e lamentando, ao final, ter contribuído para formar pessoas tão desprovidas de caráter. Está certo... Onde já se viu leiloar uma honraria? Mas é prática corrente nas universidades brasileiras. Esse fato é análogo ao que se deu em São Paulo, onde o Ministério Público determinou a remoção dos crucifixos em repartições. Um frade católico manifestou-se:

“Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São

Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas. Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada ! Nunca gostei de ver a Cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são vendidas e compradas. Não quero ver a Cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte. Não quero ver a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados. Não quero ver a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas (pobres) morrem sem atendimento. É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa da desgraça dos pequenos e pobres. Frade Demetrius dos Santos Silva - São Paulo/SP”.

Não posso assegurar que seja verdade, nem que exista, de fato, um Frade Demétrio dos Santos Silva. Mas, se não existe, saúdo com dignidade quem o inventou, porque essa é, de fato, uma atitude nobre. Tão nobre quanto a do professor Rubens Araújo de Oliveira (a julgar serem também verdadeiros o fato e a pessoa). Em ambos os casos, sinto que faltaram dois elementos primordiais na formação dos que levianamente assumem atitudes de desconvidar e (ou) de remover símbolos de fé. Faltaram família e livros.


Sou frequentador contumaz de escolas dos quatro níveis (agora, surgiu um nível preliminar, a pré-escola) e sei que as famílias, irresponsavelmente, atribuem à escola as suas obrigações como educadora, mas já vi pais pondo dedos (sujos, é claro) nos narizes de professores, com uma legenda nojenta: “Sou eu quem paga o seu salário”. E vejo a distorção do uso das mídias, com a criançada sofrendo desvios, os livros substituídos por videogames e pelas drogas. O resultado é esse aí: formandos que escolhem paraninfos pelo poder de doação de grana e promotores que preferem anular a fé, em lugar de permitir que se use um símbolo, seja ele uma cruz com Cristo, uma cruz sem Cristo, uma Estrela de Davi ou um Quarto Crescente.

Viva o professor Rubens! Viva o Frade Demétrio! Viva Castro Alves, que exalta os que semeiam livros!


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

10 comentários:

LiLa BoNi disse...

Passando p ficar imformadíssima!!!
Beijos!!!

Maria Helena Chein disse...

Luiz, gostei de sua peraltice para este domingo. Você é ótimo para mostrar e
demonstrar os temas escolhidos de suas crônicas. Sempre surpreende o leitor.
Aliás, conversando com o meu irmão Luiz, ele me disse que há muito tempo gostou tanto de
um texto seu que escreveu uma carta para cumprimentá-lo. Falou que talvez você nem se lembre.
Então, tá.
Bjs,
Maria Helena

Anônimo disse...

Há 11 anos ao chegar de São Paulo, minha primeira frase foi:

Aqui o céu é azul. O sol brilha mais e o verde acalma nossas almas.
Encantada fiquei com os jardins, o colorido da cidade arrancava suspiros e me hipnotizava.
Ao participar dos eventos culturais referidos (Festa Literária e Goiânia em prosa e verso), fiquei toda orgulhosa ao
saber que tinha vários amigos importantes neste cenário.
Que respeito aos poetas. Que forte emoção!
Uma verdadeira lição de humanização.
Podem passar cem anos, porém o que aconteceu neste mês de março ficará para sempre registrado na mente de todos.
Sem dúvida caros leitores a arte contribui e muito para humanizar a vida.
Que lindo Goiânia semear além de flores, também poesias, prosas, contos, romances...
E, Pirenópolis sediar eventos de tamanha dimensão.
Todos que me conhecem sabem que não sou militante política partidária, e sim uma militante política, que luta por melhores dias de vida para todos, tendo a inclusão como minha filosofia.
Entretanto torna-se necessário parabenizar a todos os envolvidos diretamente ou indiretamente nestes projetos.
E como foi tão bem colocado no dia do lançamento dos 136 livros: “Investir em cultura é acreditar na civilização”.
Acredito que com ações inovadoras como estas, possam conscientizar mães, pais professores e a comunidade.
Na minha prática procuro sempre levar às famílias oportunidade de discussão, para que possamos dividir a responsabilidade na educação social das nossas crianças e jovens.
Querido Luiz de Aquino, muito obrigada pelas oportunidades que você tem aberto para as Várias Marias.

Malu Carvalho

Mara Narciso disse...

Felicito Pirenópolis pela audácia de publicar tantos livros, e amaldiçoo os que não acreditam nesse gesto. Sobre o desconvite, estou lidando com esse tipo de homenagem atualmente, e acho o fim, mas sobre a retirada da cruz, acho um gesto acertado, pois que nem todos são cristãos.

Fátima Paraguassú disse...

Diante de tantos “vivas’: um viva aos 136 escritores!Um viva ao Íris e Kleber! Se, o escritor (a) for iniciante ou veterano (a), não importa. Cada qual a seu modo, tentou deixar um pouco de estímulo á leitura.Até eu estou nesta coleção, usando meu real e imaginário.
Usei uma frase de Maquiavel: "São as capacidades da alma humana que fazem a história”, para responder acusações de desafetos ao Projeto Goiânia em Prosa e Verso. Para não cair no jogo de quem só critica, eu disse em alto e bom tom que, aqui estou para escrever a “minha história”, dentro de um contexto político/social do qual sou parte.
Goiânia e tantos outros lugares, que gastam os recursos que constituem o erário, provenientes em sua maioria dos impostos recolhidos da população, estao de parabéns, se gastam em edição de enxurrada de livros, se gastam em eventos como o de Pirenopolis. Tudo isso, para nós, contribuintes e artistas, não é “pilantropia” como foi taxado por alguns; é apenas mais um mecanismo de apoio ä cultura.
Quanto à cruz. Deixar ou retirar? “Eis a questão”. Há tantas cruzes pesando em nossos ombros: a cruz da intolerância; a cruz da corrupção; a cruz da falta de caráter; a cruz da liberalidade desenfreada...( que ladainha) Ah! Cruz!...Cruz credo!

bethania disse...

Poeta, concordo com você. Nossa sociedade precisa mais de família e de livros sim!!! Fico muito triste quando observo o quanto tem faltado valores humanos no cotidiano das pessoas. A gentileza nem é mais, algo que se leve em consideração... É lamentável!
Mas nós, educadores perseverantes, consiguiremos contribuir com um "tiquinho"... ou quem sabe faremos uma 'revolução silenciosa', tendo como instrumento letras e afeto.
grande abraço

Isabel Rosete (de Lisboa, Portugal) disse...

Muito bem, Luiz. Parabéns.

Mariana Galizi disse...

Luiz, existe uma movimentação no mundo das letras que acho estimulante, ela é quase silenciosa, incomum; traz à casa quem é dela, tenta manter a casa em pé, e bem sabemos como isso é custoso, mas é muito bonito e louvável manter nas páginas o registro da nossa história.
Tenho orgulho de te conhecer, é uma grande honra ter como amigo alguém tão envolvido neste mundo, que transforma vidas como nenhum outro.
Saudações literárias.

CHÃO LIVRE disse...

Fenomenal o Projeto Goiânia em Prosa e Verso. Fiquei impressionada com a magnitude. Até eu participei como prefaciadora(hic) do livro Ritural do Riso da Placidina Lemes, claro em nome da mamãe. Veja aí o dia em que dormi e acordei escritora.

PREFÁCIO
Em nome da mãe... Em nome dos filhos... Em nome dos netos e bisnetos... Amém? - Não.. Meu Deus, mamãe... me acode!!! A Placidina, sua grande amiga e confreira da cadeira 12 da AFLAG , me pediu para prefaciar seu “RITUAL DO RISO”. Quem sou eu para tanta honra e ainda em seu nome!!!

... Em princípio veio o susto, depois a vaidade, a seguir a responsabilidade, o medo.

Mas se o Ritual é do Riso, então: façamos amor e não a guerra, mesmo que ela seja de sentimentos, pois é assim que a autora muito bem se expressa em suas diversas homenagens nesse seu mais novo caminhar poético. No início a sua Paraúna de rochas esculpidas e impressionante beleza natural é sempre lembrada, onde até seu “Eclipse” é cantado, como uma marcha fúnebre da lua. Bucólicos momentos vividos no interior se integram com a doçura da paz e a singeleza de quem teve o privilégio de viver em contato com a natureza, enquanto dom de Deus e dádiva a todas as criaturas.
Em seu “Proibido arrepiar”, onde implora que “Na rima não exagere, tire tantos adjetivos...” constrói poemas, expõe a alma e não se prende a regras... afinal é poeta. E aqui me identifico e uso os versos de mamãe, a escritora Célia Siqueira Arantes, em “ Público - Arte – Artista” , para melhor me expressar.
“...A criação, essência da arte,/ flui de maneira diferenciada/ e a diversificada concepção/ que o artista tem da vida, seus valores,/ leva-o a conceber um infinito de formas, de cores:/ idéias surgindo em tempos, lugares,/ expressões de sentimento profundo ...”

CHÃO LIVRE disse...

Na segunda parte do livro, o marido que amou aparece em cada verso, a saudade contida, a paixão retesada e decepada. E mais uma vez uso as palavras poéticas de mamãe, em “A meu esposo” para melhor mensurar a paixão, unida ao sentimento e a perda precoce do ente amado de Placidina.
“Quando percebi que te queria,
ah!...Já te amava demais.../ O amor, tal um vulcão,/ dentro de mim, latente,
fervilhava persistente,/ em chamas irreais....”
Placidina expressa, expõe de forma corajosa, gritos contidos de muitos corpos calados ou colados. Em alguns momentos, mescla os versos com sua censura, como se amar fosse feio ou pecado, fruto do recato de tempos idos, de educação rígida do interior, “escuto o canto da palmatória”, como ela diz em:”Nem só de filosofia...” no início da obra. E é marcante o sentimento em “REC(H)EIO”, onde a poetisa dosa, como em uma receita, e usando a balança faz o balanço
“... entre a dor de uma ausência e a coragem,/ Sem cinismo, autêntica na justiça/ ante a carência...”
Segue “viajando para rumos diversos. Até para rumos de versos,/ conduzida pela idéia”, como poetava mamãe, em “Novos Sonhares” e homenageia com seus poemas um aqui, outro acolá. Ao Bernado Élis, “Canto para esperar novo Bosque” recompõe os versos com o lirismo de “plantar estrelas” e faz da cantiga de roda mais um de seus grandes momentos e de forma surpreendente e mágica.
Mas é só um prefácio e Mamãe disse em “Modernismo”, portanto...
“P’ro lixo/ o prolixo,/ o discursivo./ Curso curto de vida,/ de dívida/ dividida./ Matem a rima/ não arrimo./ A morte surge/ o tempo urge./ Sufoquem a lira
no delírio/ do vai vem/ do vem vai.../ É tempo de terra/ tempo de guerra,/ tempo de avanço./ Leitura dinâmica./ Há crise de tempo,/ crise de poesia./ Cristo de pão/ de cimento,/ elemento duro/ como a alma do homem/ com fome,/ sem poesia”.

Parabéns pelo trabalho querida Placidina e obrigada pelo carinho e amizade que sempre dedicou à mamãe, e por mais esta homenagem que deu um jeito de proporcionar-lhe de forma indireta, e que muito nos alegra. Aproveito para agradecer também à linda homenagem que fez a ela em seu “Nu Monólogo Para Célia”. Obrigada pela honra de prefaciar este livro.
Cristiane Maria Arantes dos Santos
Em nome dos filhos de
Célia Siqueira Arantes
Itauçu,16 de novembro de 2009